A Semana do Quintal na Sombra
Julho de 1975
Semana 1
Na segunda-feira esperei pela Dila durante horas. A ausência dela tornava-se cada vez mais pesada, como se cada segundo arrastasse consigo um pouco da minha alma. Faltei a uma aula e depois forcei-me a comparecer às restantes, uma tentativa vã de afastar o peso do desânimo. Só ao fim do dia, na escola de artes marciais com o Benjamim, encontrei algum alívio na disciplina física. Cada movimento era uma tentativa de exorcizar a saudade.
À noite ao passar pela sua casa vi a janela iluminada. Ela não estava lá. O coração apertou-se e uma tristeza silenciosa encheu-me com uma certeza dolorosa: não a veria tão cedo.
Na terça-feira, primeiro de Julho, as aulas começaram com o corpo ainda a sentir o peso do treino de artes marciais. Pela manhã avistei a Dila a poucos metros, acompanhada por uma senhora. Cada passo que ela dava parecia esculpir dor dentro de mim. Queria atravessar a distância, mas o medo e a presença da outra senhora tornavam isso impossível. Fiquei imóvel com a alma a doer.
À tarde o Benjamim veio e jogámos à bola, tentando afastar a frustração. À noite ele trouxe o violão e fomos para a frente da casa dela. Ficámos ali até quase as onze e um quarto. Cada acorde parecia chamar o tempo para si, mas nada mudava. Voltei com o coração carregado de desejos contidos.
Na quarta-feira o dia arrastou-se entre rotinas do liceu. Em casa a imagem dela invadia-me a mente sem pedir licença. Lembrei-me do sorriso, do modo como inclinava a cabeça ao falar, do calor das suas mãos naqueles encontros furtivos. Cada lembrança era um fio invisível que me puxava para ela. À tarde tentei estudar, mas cada página se desfazia à minha frente. À noite fui até à sua casa. A janela fechada devolvia-me a realidade, e eu ali sozinho a sentir o peso de não poder dizer-lhe tudo o que borbulhava dentro de mim.
Na quinta-feira as aulas terminaram com a despedida da última aula de Educação Visual. A palavra despedida ficou-me presa na cabeça com mais peso do que o professor imaginava. Voltei com o Benjamim para casa, falámos pouco, cada um mergulhado no seu labirinto.
Depois do jantar saímos sem plano definido, mas com aquele destino secreto que nunca precisávamos de dizer em voz alta. A noite estava morna. Caminhamos pelas ruas até às traseiras da casa dela, onde tudo parecia sempre mais suspenso, como se o mundo ali se detivesse.
E foi então que ela apareceu.
A Dila surgiu na sombra com um passo leve, como se sempre soubesse que acabávamos por ali.
— És tu, Dila? — arrisquei, numa voz que era quase só ar.
Ela aproximou-se, o rosto iluminado apenas pelo franzir tímido de um sorriso.
— Sim. Pensei que fossem vocês. Que fosses tu.
O Benjamim ficou uns passos atrás a guardar o silêncio. Eu avancei meio palmo.
— Não te queria incomodar.
Ela abanou a cabeça com doçura.
— Não incomodas. — E acrescentou, quase num sussurro: — Ainda bem que vieste.
O quintal parecia demasiado pequeno para tanta emoção contida.
— Hoje pensei em ti — disse-lhe eu, sem conseguir segurar a verdade.
Ela baixou um pouco o olhar, mas não fugiu.
— Também pensei. Mas tive um dia complicado. E tu?
— Igual. Acho que os dias ficam sempre complicados quando não te vejo.
Ela ergueu os olhos e por um momento senti que podia acontecer qualquer coisa. O mundo ficou suspenso nesse olhar.
— Não posso demorar — disse ela, com pena no timbre da voz. — A minha mãe anda atenta.
— Eu sei. Só queria ver-te, nem que fosse por um instante.
Ela aproximou-se mais um pouco, talvez o máximo que ousava. A luz fraca mostrava-lhe os contornos do rosto e a profundidade dos olhos azuis.
— Ainda bem que vieste — disse ela outra vez, agora mais baixo.
Troquei com ela um sorriso que para qualquer outro seria breve. Para mim foi uma eternidade.
— Tenho mesmo de ir.
— Vai então. Boa noite, Dila.
— Boa noite, António.
Quando desapareceu para dentro de casa o quintal pareceu voltar ao tamanho normal. No caminho de volta não falámos. Não era preciso.
Na sexta-feira faltei aos dois últimos tempos com o Benjamim. O dia vinha a arrastar-se até que uma colega me disse em confidência que a Dila vinha a caminho. Não quis acreditar, mas virei o rosto antes de decidir. Lá estava ela: a irmã ao lado, uma colega atrás, e aquele passo rápido que me desorientava o coração.
Aproximei-me. Os segundos antes de chegar até ela pareceram uma corda esticada entre a vontade e o receio.
— Olá, Dila.
Ela levantou os olhos, surpresa primeiro, depois com aquele brilho.
— Olá. Estás bem?
— Mais ou menos. Não te queria atrasar. Sei que vais com pressa.
Ela suspirou, não de aborrecimento, mas de quem gostaria de ficar mais do que o tempo permite.
— É só isso. Tenho de ir ajudar a minha mãe.
A irmã puxava-lhe o braço, impaciente.
— Só queria dizer que foi bom ver-te. Mesmo assim, de passagem.
— Eu também te vi de manhã — confessou, quase num segredo. — Só não deu para falar.
— Um dia destes — comecei.
— Sim — apressou-se ela a dizer, antes que eu pedisse algo impossível. — Um dia destes.
E sorriu. Foi rápido, mas era um sorriso verdadeiro, daqueles que deixam um rasto na pele. Fiquei a olhar até ela desaparecer na curva da rua, não por hábito, mas por necessidade.
No sábado o calor de Julho enchia o ar tornando cada passo mais lento. As aulas arrastaram-se e saí mais cedo. À noite fui ao cinema com o meu pai. Entre sombras e luzes a imagem dela insistia em aparecer. Quando regressei sentei-me junto à janela com a rua quente e calma lá fora. Fechei os olhos e dei-me ao luxo de imaginar o impossível, a Dila a surgir do final da rua com passos leves, a voz quente, o sorriso. Sabia que era imaginação, mas o coração aprendia assim a esperar.
No domingo os meus pais foram ao baptizado da minha sobrinha e fiquei sozinho em casa. O Manel apareceu e saímos a dar uma volta. No regresso deparei-me com a Dila acompanhada pela irmã e por algumas colegas. Ela reparou em mim e sorriu. Afastámo-nos um pouco dos outros.
— Estava a ver que não conseguíamos estar sozinhos. Não era bom se estivéssemos só nós os dois?
— Seria bom, sim. Mas não é possível. Elas estavam muito curiosas de te conhecer.
Caminhamos lado a lado com a conversa a parecer casual, mas cada palavra carregava algo que nenhum de nós podia ignorar.
— Tenho sentido a tua falta — murmurei, sem saber se era demasiado.
— Eu também. Mas estes encontros são perigosos. Não podemos ser vistos.
O silêncio caiu entre nós, carregado de significado. O coração batia mais forte a cada olhar furtivo.
— Amanhã talvez possamos falar mais — disse ela, hesitante.
— Espero que sim.
Quando nos despedimos um breve aceno foi suficiente para transmitir tudo o que as palavras não conseguiam conter. Caminhei para casa com o coração pesado e leve ao mesmo tempo, sentindo o calor da sua presença a perdurar em mim mesmo quando já não a via.
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