A Semana do São João sem Ela
Semana 4
Na segunda-feira encontrei a Dila e ela disse-me que não passaria o São João fora. Uma frustração intensa enrolou-se no meu peito. Era como se todo o ar tivesse perdido densidade.
— Então não vais sair para o São João?
Ela olhou-me com um misto de pesar e determinação, desviando ligeiramente o olhar.
— Não posso. E não é por não querer. São os meus pais, tu sabes.
O nó na garganta apertou-se. Murmurei apenas:
— Vou sentir a tua falta.
Ela sorriu, pequeno e tímido, e respondeu baixinho:
— Também vou. Mas prometo que no domingo estarei contigo.
Depois de a deixar partir percorri a rua por instinto, cada passo a conduzir-me para mais longe do calor da sua presença. Queria poder mudar as circunstâncias, fazer algo, mas tudo me escapava.
Na terça-feira fui com o meu pai ao rio Douro. A corrente deslizava serena e eu seguia-a com o olhar como quem procura um sentido no movimento das águas. O brilho da superfície lembrava-me os olhos dela e o murmúrio da água parecia repetir o nome que não me atrevi a pronunciar em voz alta.
À tarde fui com o meu cunhado a Couce. Duas vezes estive à beira do perigo: uma quando escorreguei ao atravessar o rio e me agarrei à rocha; outra quando a porta do carro se abriu de repente e o vento quase me arrancou do assento. Mas mesmo naqueles instantes em que a vida se desequilibrou, o pensamento foi sempre o mesmo. E se nunca mais a vir? É estranho como o medo da morte é pequeno diante do medo da ausência.
À noite sentei-me à janela. O céu estava cheio de nuvens, mas por entre elas vislumbrei um clarão e por um momento acreditei que era ela. Imaginei-a na sua varanda, quieta, com o rosto voltado para a rua.
Na quarta-feira fui andando pelas horas sem grande vontade. Os meus colegas pareciam pertencer a outro mundo, um onde a Dila nunca existiu. Ao cair da tarde o Benjamim passou e tentou animar-me com a conversa de sempre. Eu ouvi-o, mas as palavras batiam-me no peito e voltavam para trás.
Mais tarde sentei-me junto ao muro onde costumávamos falar. Fiquei ali um bom bocado a desenhar riscos com uma pedra, como se cada traço fosse uma tentativa de a chamar. Por um instante pensei ouvir o seu riso ao longe. Levantei-me de repente com o coração a bater, mas era apenas o vento a brincar comigo.
À noite fechei-me no quarto a olhar para a fotografia dela. Há nela uma serenidade que me inquieta, como se soubesse algo que eu ainda não descobri. O último pensamento que me ficou foi simples e cruel: será que ela também sente este mesmo vazio quando pensa em mim?
Na quinta-feira encontrei-me com ela. O tempo pareceu deter-se nesse instante em que os nossos olhos se cruzaram.
— Estás diferente hoje — disse-lhe eu, num tom quase sussurrado.
— Diferente como?
— Como quem pensa mais do que devia.
Ela riu-se, baixinho, e olhou para o chão.
— Às vezes penso demais, é verdade. Mas pensar em ti já é costume.
O troleicarro chegou e interrompeu-nos. Ela subiu o degrau e antes de desaparecer olhou-me uma última vez. Um olhar simples mas inteiro, que dizia o que as palavras não sabiam.
Voltei para as aulas onde a vida retomou o seu tom cinzento. Entreguei o trabalho sobre o Picasso, mas os traços e as cores do pintor pareciam distantes. A minha arte nesse dia tinha um só nome.
Na sexta-feira o dia começou cinzento. Vagueei por caminhos conhecidos onde tantas vezes a tinha encontrado, mas hoje os lugares estavam vazios como se guardassem apenas memórias. O vento perpassava pelos ramos das árvores e parecia sussurrar o seu nome. À tarde sentei-me perto do rio a observar a água correr. Cada ondulação parecia repetir a mesma pergunta silenciosa: onde estás?
No sábado sabia que a veria na escola por causa das matrículas. Quando finalmente nos encontrámos o tempo pareceu hesitar. Ela sorria, mas havia uma sombra no olhar que me dizia que ambos sabíamos que o momento era breve.
— Talvez não nos vejamos na segunda-feira — comecei, a voz quase um sussurro.
Ela desviou o olhar, mordendo o lábio.
— Sei. Mas não deixa de ser apenas um dia. Talvez possamos escrever-nos, ou ver-nos depois, quem sabe.
As mãos tremiam-me e a vontade de segurar aquele instante era quase insuportável.
— Queria dizer tantas coisas. Mas parece que nenhuma palavra chega. É como se o tempo estivesse contra nós.
Ela aproximou-se, tocou suavemente no meu braço e olhou-me nos olhos.
— António, não fiques preso ao que não podemos mudar. Guarda contigo os momentos que tivemos. Vão ser mais fortes que qualquer ausência.
O silêncio que se seguiu não era vazio. Era cheio do que ficou por dizer, do peso de um amor que se recusava a desaparecer. Ficámos assim, lado a lado, sentindo a aproximação e a distância ao mesmo tempo.
No domingo passei a manhã e a tarde em casa a escrever uma carta para a Dila. Cada palavra escolhida com o cuidado de quem teme que o coração se torne demasiado evidente. Escrevi sobre as pequenas coisas que admiro nela, a forma como inclina a cabeça quando pensa, a maneira como o riso parece iluminar tudo à volta, a sua lealdade e simplicidade. Tentei explicar que a minha amizade sempre foi sincera, mas que o coração insiste em sentir algo mais profundo que não se pode conter. Cada frase era uma batalha entre a coragem de mostrar-me por inteiro e o medo de a assustar.
À noite fui ao cinema e depois com o Benjamim até à sua casa. Estava tudo silencioso e vazio. Voltei consciente de que apenas o tempo e o acaso podiam proporcionar o encontro que eu desejava.
A carta ficou guardada, como um fragmento da minha alma, pronta para lhe chegar. O dia acabou com a certeza de que a saudade é um abraço invisível que nos envolve quando a presença de quem amamos nos escapa.
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