A Semana da Prisioneira

Junho de 1975
Semana 3

Na segunda-feira estudei de manhã com a Dila a surgir nas entrelinhas de cada página. Ao meio-dia fui com o Benjamim para o liceu. À tarde ele ainda cumpria a suspensão na Academia e não podia regressar a casa antes das onze. Fui buscá-lo ao monte com o Manel e ficámos os três num silêncio onde cada pausa tinha peso. À noite estive com ele só cinco minutos, um encontro breve mas de alguma forma vital. Depois fui com o meu pai à sede do PCP e voltámos cedo.

Na terça-feira a primeira aula foi cancelada. Fui até à paragem do trólei e lá estava ela, encostada ao varão da paragem com um caderno contra o peito.

— Não devias estar nas aulas?

— Tive um furo inesperado. E tu?

— Eu também. Parece que o universo conspira a nosso favor.

— Ou contra mim — murmurou, desviando o olhar.

— Porque dizes isso, Dila?

Ela respirou fundo, olhando a rua como se procurasse coragem em cada carro que passava.

— A minha mãe não me deixa sair de casa. Diz que ando demasiado distraída, que há rapazes que me fazem perder o juízo. — Sorriu de canto, quase triste. — Se ao menos ela soubesse que o juízo já se perdeu há muito tempo.

— Então tens estado fechada em casa todo este tempo?

— Sinto-me prisioneira, percebes? — disse, fitando-me com uma franqueza que me atravessou. — Uma prisioneira dentro da minha própria vida.

— Dila, eu nunca quis que te sentisses assim. Se sou a razão desse peso, prefiro perder-te a saber que sofres por minha causa.

— Não digas isso. Não é culpa tua. Eu é que não sei o que fazer.

O trólei aproximou-se. O som dos travões riscou o silêncio entre nós.

— Vais voltar amanhã?

— Não sei. Depende da guarda da prisão. — Tentou sorrir, mas o sorriso morreu-lhe nos lábios.

Segui para as aulas sem ouvir uma palavra. Só me repetia na cabeça o rumor do trólei a afastar-se. À tarde fui com o Benjamim dar de comer ao cavalo. Ele mastigava devagar e nós calados, como dois cúmplices de uma história maior do que nós.

Na quarta-feira a primeira aula foi cancelada outra vez. Fui até à paragem e estava já a preparar-me para seguir quando senti um toque leve no braço.

— António!

Voltei-me. Era ela, o cabelo preso de forma descuidada, os olhos a brilhar com o reflexo do sol.

— Estás a fugir das aulas?

— Não, ou talvez sim. Tive sorte, a professora faltou.

— Sorte? Ou destino?

— Talvez o destino ande de mãos dadas com a sorte.

Ficámos a conversar, o tempo suspenso entre palavras e silêncios. Ela contou-me coisas pequenas, um teste, uma discussão com a irmã, o aborrecimento dos dias iguais, e eu ouvia sem precisar de mais nada. O trólei aproximou-se e ela suspirou.

— Tenho de ir.

— Vemo-nos amanhã?

— Amanhã, se a sorte quiser.

Partiu e ficou-me o braço ainda quente do toque dela. Voltei às aulas sem ouvir palavra alguma do professor. À tarde tentei fazer um trabalho sobre Picasso, mas mesmo as cores que ele pintava me pareciam pálidas.

Na quinta-feira estudei de manhã com as letras dos livros a formarem o rosto dela. Ao meio-dia fui com o Benjamim para o liceu. Pedi dispensa ao professor de ginástica, ele nem perguntou porquê, e fui.

Ela estava lá. Na paragem. Com o cabelo solto e um olhar meio cansado.

— Não consigo pensar em verbos, só em ti — murmurei-lhe a rir.

Ela fingiu que não ouviu, mas o canto da boca denunciou um sorriso.

Falámos um pouco. Nada de novo, o tempo, as aulas, a professora que ralhava demais, mas tudo com a doçura de quem se escuta só para não perder a voz do outro.

— Até amanhã? — perguntei, sem coragem de tornar o pedido uma súplica.

— Se o destino deixar — respondeu, num tom tão leve que o vento quase levou as palavras.

Ficou-me aquele eco no peito, uma nota suspensa que não se dissipou. Pedalei devagar pela tarde, a repetir-lhe o nome entre dentes como se fosse um poema mal decorado.

Na sexta-feira não a vi. O dia passou com uma ansiedade que entrava pelas páginas dos livros e pela oficina do meu pai, onde trabalhei numa matraca que estava a construir com as mãos ocupadas mas a cabeça noutro sítio. À noite jantei e tentei acalmar o coração com a televisão. Cada ruído familiar me lembrava que ela não estava ali.

No sábado fui com o Benjamim dar de comer ao cavalo de manhã. No liceu encontrei a Odília. Ela aproximou-se com o passo calmo, mas o olhar denunciava uma inquietação.

— Olá. Tudo bem?

— Não muito.

— Aconteceu alguma coisa?

— Nada de grave, só coisas da escola. — Desviou o olhar, mordendo o lábio. — Obrigada, mas acho que é melhor deixar para lá.

Partiu antes que pudesse fazer mais perguntas e o vazio que deixou ecoou dentro de mim. Faltei às duas últimas aulas com o Benjamim. Em casa ele trouxe o violão e as notas preencheram o espaço, criando uma ponte entre a melancolia e uma serenidade passageira. À noite fomos ao cinema com o meu pai. Saí com a sensação de que o silêncio dela continuaria a ressoar dentro de mim.

No domingo fui à missa com o Benjamim. A luz tímida da manhã parecia aquecer o coração mas havia um vazio que ela não conseguia dissipar. Cada rosto que via nas ruas parecia ter as feições dela, mas nunca eram as dela.

À tarde o Benjamim e o Manel vieram a casa. Rimos, conversámos, e o tempo passou até ao lanche. Quando foram embora o silêncio voltou, cheio de pensamentos e pequenas ansiedades.

Depois decidi enfrentar algo novo: a minha primeira lição de motorizada. A excitação percorreu-me as veias misturada com o medo. Consegui dar duas voltas sem cair, mas a insegurança falou mais alto e terminei cedo. Enquanto guardava o capacete a mente voltou para ela, o sorriso, a maneira como me olhava, a leveza do riso.

À noite fui ao cinema. No primeiro intervalo encontrei o Manel e rimo-nos de uma coincidência dos lugares. Quando o filme terminou regressei a casa.

Deitado no silêncio do quarto percebi que a saudade não era apenas ausência. Era desejo, esperança e medo entrelaçados. O que sinto por ela não é apenas amor. É a certeza de que há partes de mim que só se revelam quando penso nela.


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