A Semana da Fotografia Perdida
Na segunda-feira o Benjamim apareceu cedo e o plano era simples, escaparmos às aulas e seguir com a Dila no trólei. Durante toda a viagem sentei-me ao lado dela. O barulho do trânsito e o chiar das rodas nas curvas dissolviam-se à nossa volta. Ela falava dos exames que se aproximavam, da vontade de que o Verão chegasse depressa, das tardes que queria passar à beira-rio com um livro.
— Às vezes apetecia-me desaparecer por uns dias, sem dizer nada a ninguém — disse, olhando pela janela.
— E ias para onde?
— Não sei. Talvez para o mar. Lá o tempo não importa.
— E voltavas? — arrisquei, baixinho.
Ela virou-se para mim com um sorriso a meio caminho.
— Se houvesse alguém à espera, voltava.
Fiquei calado. Depois, quase num sussurro, deixei escapar:
— Então é melhor ficares. O mar pode esperar.
Ela riu-se mas baixou os olhos. Os dedos brincavam com a alça da mala.
O trólei parou no fim da linha. O Benjamim afastou-se sem precisar de explicações. Acompanhei a Dila pelas ruas que subiam em direcção a casa dela. De repente ela parou e tirou uma pequena carteira da mala.
— Olha só o que encontrei caído no trólei. É da Lurdes, uma amiga minha. Nem sei como foi parar aqui. Tenho de lha devolver.
— Queres que vá contigo?
Ela hesitou um instante e depois sorriu.
— Se quiseres vir, claro.
Caminhamos sem pressa, conversando sobre qualquer coisa. O tempo entre nós não pesava. Quando entregou a carteira acompanhei-a de volta, mesmo sem saber se o devia fazer. O Benjamim esperava-nos de braços cruzados com aquele ar de falsa zanga que nunca enganava ninguém.
— Pensei que me tinhas deixado aqui para sempre!
À noite voltei a vê-la com a irmã e a mãe sentadas à porta. O Benjamim falou em comprar bombinhas de São João e fomos. Corremos pelas ruas, rindo e fugindo, a luz das faíscas a riscar o escuro. Na segunda vez foi fuga a sério, o coração descompassado, o riso misturado com o medo. Deitei-me tarde ainda a rir sozinho.
Na terça-feira era feriado. O tio do Benjamim levou-nos ao campo para treinar o cavalo. O animal inquieto e orgulhoso parecia espelhar o temperamento dos dias quentes. Às vezes pensava que amar devia ser parecido com domar um cavalo, há que saber quando puxar as rédeas e quando as largar.
À tarde saímos de bicicleta sem destino. Passámos várias vezes em frente à casa da Dila, disfarçadamente, fingindo distracção. Numa das voltas lá estava ela no quintal com a irmã. O vestido claro movia-se com a brisa e o riso dela misturava-se com o rumor das folhas.
— Para onde estás a olhar? — perguntou o Benjamim.
— Para nada.
— O nada tem nome, Tono. E chama-se Dila.
Não lhe dei troco. Mas ele tinha razão.
Na quarta-feira o Benjamim assobiou debaixo da janela ainda cedo. Vesti-me à pressa e descemos juntos ao campo para dar de comer ao cavalo. Quando voltei a casa encontrei a minha mãe de braços cruzados.
— A mãe da Dila esteve aqui. Queixou-se de ti. Disse que à noite viriam a Dila e o pai falar com o teu pai.
As palavras caíram-me em cima como uma pedra no estômago. O almoço não me soube a nada. Quando encontrei o Benjamim e o Manel e lhes contei, riram-se.
— Bah, isso passa — disse o Manel.
— As mães gostam de fazer drama — acrescentou o Benjamim.
Mas eu sabia que não era só drama. Tinha de avisar a Dila. Escrevi um bilhete com as mãos a tremer. À saída do liceu avistei-a com o sol a fazer-lhe brilhar o cabelo. Quando passou por mim toquei-lhe no braço.
— Lê isto depois.
— O que se passa, António?
— Depois explico.
E fugi antes que me faltasse o ar. Passei as aulas noutra dimensão. À noite a Dila e o pai nunca vieram. O alívio foi tão grande que quase me fez rir. Mas sabia que era um alívio falso, como quem adia a tempestade sem conseguir mudar o tempo.
Na quinta-feira procurei-a antes da primeira aula no portão do liceu. Ela estava ali com o cenho levemente franzido.
— O que aconteceu ontem?
— A tua mãe foi lá a casa e disse que tu e o teu pai iam falar com o meu. Passei o dia inteiro a pensar nisso.
Ela suspirou, abanando a cabeça.
— Não sabia que ela tinha ido falar com os teus pais. Eu e o meu pai não fomos porque ele achou que não valia a pena. Mas tu não tens culpa.
Senti um peso a esvair-se de mim.
— Pensei que ia ser um desastre.
— Por agora não vai acontecer nada. Mas temos de ter cuidado. Ela está atenta.
— Estamos bem?
Ela franziu o cenho e depois sorriu levemente.
— Estamos, por enquanto. Mas cada passo em falso pode ser… — procurou a palavra certa — delicado.
— Delicado como nós — repeti.
Ela corou, desviando os olhos, mas a ponta dos lábios ainda se curvava.
O Benjamim sugeriu faltar às aulas e irmos à piscina. A água lavou não só o calor mas também a tensão enraizada no peito. Passámos a tarde a rir, a competir na flutuação, a desafiar pequenos mergulhos que pareciam promessas de liberdade.
Na sexta-feira o Manel apareceu cedo.
— Vamos à escola do Passal ver a irmã da Dila.
Quando chegámos o Manel aproximou-se para falar com a Ana Maria. Pouco depois chamou-me com um ar estranho.
— A mãe dela apanhou a fotografia que deste à Dila.
O mundo pareceu escurecer por um instante. Imaginei a Dila a olhar para o chão, o sorriso a esmorecer, a vergonha que podia sentir. Sentia-me impotente e a simples ideia de que ela pudesse sofrer por minha causa era quase intolerável.
O resto da tarde passou-se num torpor. As palavras dos professores dissolviam-se em névoa.
No sábado fui esperar a Dila de manhã. Apareceu apressada, com o cabelo solto a dançar, mas ao dar comigo abrandou o passo.
— António, aconteceu uma coisa.
— O que foi?
— A tua fotografia. Perdi-a.
Fiz-me de surpreendido, embora já soubesse.
— Como foi que aconteceu?
Ela ajeitou uma madeixa atrás da orelha.
— Foi a minha mãe. Encontrou-a no meu quarto e ficou furiosa. Disse que não era coisa de menina séria andar com retratos de rapazes escondidos na gaveta.
— E o que lhe disseste?
— Tentei explicar-lhe que não era nada de mais. — Imitou a voz da mãe, exageradamente dramática mas quase em sussurro. — "Dila, isto não se faz. Uma rapariga direita não guarda fotografias de rapazes."
Não pude evitar rir. O mundo pareceu mais leve.
— E depois?
— Ela pegou na fotografia e guardou-a, como se fosse uma prova de crime. — Ergueu os olhos para mim, com a vergonha e o riso misturados. — Desculpa, António. Queria mesmo ficar com ela.
— Não faz mal. Eu dou-te outra, se quiseres. Desde que a guardes em lugar seguro.
Ela sorriu, um sorriso cúmplice e quente, como se tivesse lido o que eu não disse. Despediu-se com um aceno delicado e deixou-me sozinho na rua a matutar no destino de uma simples fotografia.
No domingo acordei com uma inquietação que não sabia explicar. O Manel não me saía da cabeça, não por zanga nem inveja, mas por um afastamento silencioso, como se uma nuvem tivesse descido sobre a nossa amizade. Pensei na Dila e a pontada de leveza que me atravessou era como uma fresta aberta num dia cinzento.
À tarde fui a casa do Benjamim. Entre conversas e brincadeiras a angústia cedeu algum espaço à normalidade. Às vezes olhava pela janela e via as sombras alongarem-se no quintal e um desejo silencioso crescia em mim. Mas não fui a lado nenhum.
A noite desceu sem pressa. Fiquei junto à janela a ouvir o eco das minhas próprias inquietações. As luzes dispersavam-se pela vila adormecida e o silêncio morno envolvia tudo. Fechei os olhos e tentei ouvir o meu próprio coração, que parecia mais atento às pequenas coisas, a lembrança do riso dela, a brisa nas folhas do quintal vizinho.
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