A Semana das Bombas de São João

Junho de 1975

Semana 1

Na segunda-feira o Benjamim acordou-me cedo com a voz a atravessar a escuridão do quarto.

— Anda, Tono! Preciso que venhas comigo entregar um papel.

Vesti-me à pressa e saí de bicicleta. O ar frio da manhã trazia fragmentos de memórias da Dila que se cruzavam com o pensamento sem que eu quisesse. A entrega foi breve. No regresso surgiu o Manel com o Vasco, um dos irmãos dela. O sorriso do rapaz trouxe-me certas recordações. Levei-o a casa no quadro da bicicleta até mais perto de sua casa, e cada pedalada parecia alongar o tempo de forma quase poética.

À tarde voltei à escola. Às seis e dez, finalmente livre, regressei com o Manel. Em casa tudo parecia simples e reconfortante, o tremeluzir da luz no copo de água, o movimento das cortinas ao vento. Pequenas coisas que me lembravam que a vida se revela tanto no palpável como no intangível.

Na terça-feira o Benjamim prometera aparecer cedo. Às onze ainda não tinha chegado. Quando apareceu encolheu os ombros com aquele ar indolente que só ele sabia ter.

— Acordei tarde. O mundo não acabou.

Fui para a escola com o sabor amargo de quem perdeu uma batalha sem importância. No troleicarro encostei a testa ao vidro e deixei que a cidade passasse em fragmentos.

Quando desci atravessava a rua distraído quando o mundo se torceu num grito de travões e metal. Um clarão, um som seco, e depois silêncio. Estava no chão com o coração aos saltos. A roda dianteira de um carro prendia o meu pé. Uma senhora saiu pálida e a tremer.

— Meu Deus, estás bem?!

Mexi o pé. Nada partido.

— Acho que sim. Foi só um susto. Peço desculpa, não vi o carro.

Continuei o caminho com o tornozelo a doer e um pensamento a martelar: podia não estar aqui agora.

Esperei-a com o nervosismo de quem tenta recuperar o equilíbrio depois de ver o chão fugir. Quando ela apareceu do outro lado da rua parecia trazer consigo um bocadinho de ordem ao caos do dia.

— Que cara é essa? Aconteceu alguma coisa?

— Quase fui atropelado.

— O quê?!

O espanto dela fez-me sorrir. Contei-lhe tudo e o brilho aflito dos seus olhos bastava.

— António, não brinques com essas coisas.

— Não estou a brincar. Mas vê? Estou aqui. Inteiro.

O silêncio que se seguiu pesou o suficiente para nos aproximar. Depois ela suspirou.

— Sabes o que aconteceu depois de domingo? Os meus pais ralharam-me.

— Só isso?

— Só isso — respondeu, com um sorriso que lhe tremia nos lábios.

Lembrei-me então da fotografia. Tirei-a do bolso.

— Aqui está. Guarda-a bem desta vez.

Ela recebeu-a como quem segura uma flor frágil.

— Obrigada.

À tarde o Benjamim anunciou que fariam um cartucho de dinamite a sério. Lá fomos nós, pequenos alquimistas da infância a misturar pólvora e curiosidade. À noite no descampado o rastilho aceso tremeluzia. Mas a dinamite morreu em fogo manso, um fumo tímido que se perdeu no vento.

— Somos uns génios, mas de pacotilha — disse o Manel.

Rimo-nos até que alguém ouviu e fugimos tropeçando no escuro, ofegantes de tanto correr.

Na quarta-feira estudei de manhã sem grande vontade. O Benjamim apareceu no intervalo.

— Último tempo? — perguntou.

— Dispensável.

Fugimos antes do toque. À tarde fomos levar comida ao cavalo e depois ao monte treinar karaté entre risos e gritos de desafio. O Manel apareceu e num instante de descuido o golpe dele acertou-me no dedo. A dor foi tão clara que me fez rir.

Em casa coloquei gelo e o inchaço começou a ceder. Sobre a secretária a fotografia da Dila devolvia-me um olhar que o tempo ainda não estragara.

Na quinta-feira fui procurá-la antes das aulas. Quando a encontrei havia algo que precisava de dizer.

— Dila, tenho faltado às aulas para vir encontrar-me contigo. Por isso acho que devo deixar de aparecer às terças e quintas-feiras.

Ela piscou os olhos rapidamente. Depois um leve rubor subiu-lhe ao rosto.

— Tens razão — respondeu, sem hesitação.

Havia qualquer coisa escondida naquela aceitação tão imediata. Um alívio? Uma defesa? Uma mágoa disfarçada? Não soube.

— E as aulas? — perguntou de repente, como se quisesse fechar o assunto.

— Vão andando.

— Tens estudado muito?

— O suficiente para não chumbar.

Ela abanou a cabeça, divertida.

— És terrível, António.

O troleicarro chegou. Apertei-lhe a mão. Um instante breve mas inteiro, a pele dela quente e suave a ficar-me nas pontas dos dedos como um resto de lume. Depois vi-a subir, afastar-se, e desaparecer no movimento do dia.

À tarde o Manel apareceu com ar conspirativo.

— Tono, anda comigo. Ver se encontramos a irmã da Dila.

Esperámos num sítio onde costumavam passar. O tempo escorria devagar. Nada. Voltámos para casa com o destino a brincar connosco.

Na sexta-feira o Manel apareceu à porta.

— Anda daí. Vamos ao Passal.

Pedalámos pelo sol a pino com o vento morno na cara. No Passal ele continuava inquieto a olhar para todos os lados.

— Mas afinal o que andas a procurar?

— A Ana Maria.

— E para quê?

— Queria falar com ela.

— Sobre quê?

— Sobre nada.

Ri-me. Naquele dia ela não apareceu. Voltámos com os planos desfeitos.

À tarde saí com o Benjamim para a escola, mas uma dor de cabeça surda pulsava no ritmo do coração. Ao chegarmos um colega avisou logo.

— Dizem que o COPCON ocupou a escola!

A minha cabeça latejava tanto que mal conseguia processar a notícia. Deitei-me no jardim da escola a ouvir o vento nas folhas.

Mais tarde esperei pela Dila na paragem. Quando a vi ao longe senti um aperto no peito.

— Estás bem? — perguntou, franzindo o sobrolho com uma ternura que me fez corar.

— Não muito.

Deixámos passar o primeiro troleicarro.

— Posso sentar-me ao teu lado?

— Claro.

Fechei os olhos e senti que cada ruído à nossa volta se tornava distante. Quando saímos ela olhou para mim preocupada.

— Devias ir para casa e deitar-te.

— Não estou assim tão mal.

— António, olha para ti. Vai para casa. Descansa.

Tinha razão. Despedi-me com um aceno cansado e mal cheguei a casa deixei-me cair na cama e apaguei. A minha mãe entrou mais tarde surpreendida e voltou com ovos estrelados, pão e café. Cada garfada parecia devolver-me um pouco de mim mesmo.

No sábado saí sem aulas com uma ansiedade doce no peito. Atravessei a estrada e lá estava a Odília.

— Olá — disse ela, com o sorriso que sempre me desarmava.

— Olá — respondi, tropeçando na própria voz.

Entrámos num trólei e sentámo-nos lado a lado. Silêncio. Um silêncio cheio de coisas não ditas.

— Sabias que às vezes penso que tudo isto, o trólei, a rua, nós, é como um sonho?

— Um sonho? — perguntou ela, rindo baixinho. — E se acordarmos e tudo desaparecer?

— Nada irá desaparecer enquanto estivermos por cá — disse, com medo mas com uma ponta de coragem a tremer na voz.

Quando chegámos a S. Pedro a irmã esperava-a na paragem. Acompanhei-as até perto de casa e cada passo parecia prolongar um silêncio que falava por nós. Quando nos despedimos os nossos olhares encontraram-se e dentro de mim tudo gritava para que o momento não acabasse.

O resto da tarde passei com o Benjamim e o Manel. À noite fui ao cinema com o meu pai. As imagens misturavam-se com a minha imaginação. Via a Dila em cada cena.

No domingo fui à missa com o Benjamim. Dentro da igreja o incenso subia preguiçosamente e as cores filtradas pelos vitrais prendiam-me. Por um instante senti que a Dila estava algures ali entre sombras e luzes.

Depois do almoço saímos à sua procura. Nenhum sinal. A frustração instalou-se como uma nuvem cinzenta. Mergulhei na televisão mas os filmes eram sombras que não chegavam para preencher a ausência.

Propus ao Benjamim outra ronda. A rua continuava vazia.

— Se sabes, faz alguma coisa — murmurei.

Ele tirou do bolso umas moedas.

— Vamos comprar bombas de São João. Vamos animar a noite.

Voltámos à rua da Dila e lançámos as primeiras explosões. O estampido reverberava pela noite e o fumo misturava-se com o perfume da terra e das flores dos quintais. Cada luz que subia no céu parecia um chamamento.

E ela surgiu. A Dila apareceu com a mãe e os irmãos. O coração saltou-me. Mas antes que eu pudesse alcançá-la com os olhos recolheram para o andar de cima. Como uma estrela que se esconde atrás das nuvens.

Mais algumas bombas. Mais estrondos. Nada. Nenhum olhar, nenhum sorriso. Só o fumo a subir e o eco das minhas expectativas desfeitas.

Regressámos resignados. A noite estava fresca e a pólvora impregnava-se na roupa. Mas o que realmente me pesava não era o cheiro nem o som. Era o pensamento que a minha mãe havia lançado mais cedo: a possibilidade de mudar de casa. Se me arrancassem destas ruas, desta proximidade com a Dila, sentir-me-ia a perder um pedaço de mim.

Deitei-me tarde com a mente ainda entre o real e o imaginário.



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