A Semana da Chuva e da Bicicleta
Maio de 1975
Semana 4
Na segunda-feira as férias tinham começado e o dia abriu-se sem pressa. Saí com o Manel a procurar fósseis, um ritual antigo, como se procurássemos nas pedras o passado do mundo. O sol batia na terra e fazia cintilar os grãos de pó, e nós, ajoelhados, virávamos as pedras como quem abre páginas de um livro esquecido.
À tarde estava pronto para um jogo de bola quando alguém chamou o meu nome. Voltei-me. Era a Dila.
Caminhei até ela com o coração descompassado.
— Olá, Dila. Como estás?
— Olá — respondeu, num tom que parecia um segredo. — Estou bem. E tu?
— Agora melhor — confessei, meio brincalhão, meio sério.
Ela corou. O sol parecia inclinar-se só para ver o que acontecia entre nós. Acompanhei-a até um local onde me pediu que esperasse. Quando regressou, caminhei ao seu lado e arrisquei.
— Para ti, eu sou importante?
O silêncio que se seguiu foi uma eternidade pequena. Então ela respondeu, com voz quase um sopro.
— Sim. És.
Antes de nos despedirmos estendi-lhe a mão. Ela pousou a sua sobre a minha. As mãos dela eram frias, e eu senti a urgência de lhes oferecer calor. Apertei-lhe ligeiramente os dedos. Quando ela me soltou ficou-me na palma uma ausência quente, como o calor que a luz deixa numa pedra ao fim da tarde.
Mais tarde fui com o Manel procurar fósseis outra vez, mas já não era o mesmo. As pedras pareciam todas vazias.
Na terça-feira esperei o Manel à porta para irmos juntos para o liceu. Ele não veio. Fui sozinho. No quadro das notas encontrei o meu nome com três negativas. Procurei os outros: o Benjamim tinha sete, o Manel apenas uma. Havia notícias que pesam mais quando ainda não foram ditas.
À tarde fomos ao monte com os cadernos de desenho. O Manel começou a desenhar a mina com aquela torre de betão cansada. Eu, sem pensar muito, comecei a desenhar a casa da Dila. Apenas um canto, uma janela, talvez o reflexo de um cortinado. Quando já descíamos o monte avistámos ao longe os pais dela. Cortámos caminho sem dizer nada.
— Achas que nos viram? — perguntou o Manel.
— De certeza. Mas o pior é se repararam no que eu estava a desenhar.
Ele deu de ombros.
— Se repararam, boa sorte.
Mais tarde encontrei o Benjamim sentado no muro com ar distante e contei-lhe as notas. Ficou a olhar para o papel como quem espera que ele se arrependa e apague os números sozinho. Fomos caminhar pelo monte, cada um a carregar a sua própria derrota.
Na quarta-feira o Manel acordou-me cedo.
— Preciso que venhas comigo a casa da Dila. A mãe dela tem uns bancos que quero pedir emprestados.
Fui. Fiquei à porta encostado ao muro enquanto ele entrou. O vento brincava com umas folhas secas. Quando ele voltou disse apenas que já os tinha emprestado e partimos.
Mais tarde cruzámo-nos com ela. Um instante simples, mas o coração disparou.
— Então, o que tens feito?
— O normal — disse ela, de ombros.
— Estás bem? Pareces um bocado...
— Estou. Só estou com a cabeça noutro sítio.
O silêncio caiu como uma cortina. Ela deu um passo atrás.
— Tenho de ir.
Partiu. Fiquei imóvel a sentir o vazio que deixou. Pouco depois voltou, como uma sombra gentil.
— Olha, sobre há bocado. Não sei se disse alguma coisa que te chateou.
— Não, não disseste nada.
— Então porque é que te foste embora assim?
— António... às vezes é melhor não complicar as coisas.
— Mas eu não estou a complicar nada. Só queria falar contigo.
— Pois. Mas às vezes falar só atrapalha.
Virou-me as costas e afastou-se. O Manel chamou-a e os dois ficaram a jogar às cartas a rir. Eu afastei-me, peguei na bicicleta e fui dar umas voltas sentindo o vento como se pudesse lavar a confusão que ela deixara.
Na quinta-feira era feriado mas dentro de mim havia um peso que nem o sol conseguia dissipar. Fui com o Benjamim e o Manel ao Alto do Depósito. À volta encontrei a Celeste com o braço enfaixado, queimado com água a ferver. Antes que pudesse dizer mais, acrescentou quase num sussurro.
— Vi a Dila há pouco. Estava a cortar erva ali perto.
Saí sem mais explicações. Ela estava lá, de cabeça baixa. Hesitei um instante.
— Dila. Queria pedir-te desculpa pelo que aconteceu ontem.
Ela ficou em silêncio alguns segundos e depois acenou.
— Eu também te queria pedir desculpa.
A tensão dissipou-se, mas havia qualquer coisa diferente nela. Ciúmes. Na forma como falava, nos olhares desviados.
— Vi-te hoje à tarde com aquelas raparigas — disse, num tom neutro mas carregado.
— Foi só conversa de nada. Nem sei os nomes delas.
— Pois. Mas divertiste-te, não foi? — O olhar que me lançou era um misto de desafio e mágoa.
— Dila, a sério? Estás a ser injusta.
Ela encolheu os ombros.
— Às vezes parece que tu não te importas tanto quanto eu.
Aquelas palavras bateram-me como um murro no estômago. Ela disse que tinha de ir e despediu-se apressada. Deitei-me tarde com um amargo desgosto no peito.
Na sexta-feira fui ao Alto do Depósito com o livro Mau Tempo no Canal. Sentei-me sob uma árvore larga e antiga e deixei que o mundo me esquecesse. A chuva chegou de mansinho, depois em ritmo constante, tamborilando nas folhas. O Benjamim apareceu e ficou ali comigo algum tempo.
Pelas três encontrei a Dila e a irmã. Havia algo que me pesava no peito e precisava de o dizer.
— Nestes últimos dias notei uma grande diferença em ti. Se achas que sou um estorvo, eu deixo de te ver. Nunca mais nos encontraremos.
Ela arregalou os olhos e abanou a cabeça.
— A culpa é minha. Toda minha. No primeiro dia fui-me embora porque estava com pressa, e no segundo foi por causa dos meus irmãos. Estavam demasiado perto. Não queria que falassem.
— Deixa-me acabar — disse, erguendo a mão. — Nunca foi minha intenção afastar-te. Eu gosto de estar contigo, mas às vezes é difícil.
Baixei os olhos.
— Tens razão. Desculpa.
Ela sorriu levemente e nesse sorriso coube o alívio do mundo inteiro.
Mais tarde no monte vi-a ao longe com o irmão e a irmã. Quando me aproximei ela de repente ficou tensa.
— Aquela senhora — murmurou, olhando para a estrada.
— Conheces?
— Prefiro evitar confusões.
Afastou-se com a irmã a correr em direcção ao monte. Quando voltou vinha apenas buscar o irmão. Despediu-se com um aceno discreto.
— Amanhã vens?
Hesitou antes de responder.
— Talvez.
E partiu. Fiquei com aquele talvez a ecoar dentro de mim.
No sábado a manhã nasceu cinzenta. Acompanhei a Celeste ao enfermeiro e levei o guarda-chuva. No caminho vi-a imóvel junto a um muro a proteger-se da chuva fina.
— Olá, tão cedo na rua?
— Tenho de ir a casa da minha tia. E tu?
Expliquei-lhe a minha missão e ela sorriu. Aquele sorriso que me toca por dentro. Continuei caminho com a Celeste, mas cada passo era acompanhado pelo fantasma desse sorriso.
Na volta ela surgiu do nada, sem guarda-chuva.
— Ainda por aqui?
— Fiquei retida na casa da minha tia. Depois meti conversa com a minha prima e perdi a noção do tempo.
Levantei o guarda-chuva e ela aproximou-se, colando-se ao meu lado. A chuva caía em cortinas cerradas mas não sentíamos o frio. Um trovão ribombou ao longe e ela agarrou-me pelo braço, rindo logo de seguida.
— Olha para mim, como se nunca tivesse ouvido um trovão na vida!
— Nunca se sabe. Pode ser um sinal dos deuses.
— Ou um castigo, quem sabe — disse, mordendo o lábio com brilho malicioso.
Meia hora passou sem que percebêssemos. Quando a chuva acalmou ela afastou-se, pisando as poças que pareciam espelhos de pequenos universos.
— Bom, já posso seguir sem me afogar. Obrigada pelo abrigo.
Hesitou por um instante e depois partiu.
No domingo fui com o meu pai buscar a bicicleta ao mecânico, mas a porta estava fechada. Fomos a casa da minha avó. Mais tarde o Manel veio chamar-me. Fui a casa da Dila mas encontrei a mãe dela a falar com alguém e continuei a caminhar.
À tarde fui com o Benjamim ao encontro da Dila. Avistei-a no Alto do Depósito e fui a pé a empurrar a bicicleta pela encosta. Chegado ao pé dela escolhemos uma sombra agradável junto a um caminho.
Ela olhava para a bicicleta e perguntei-lhe se queria andar.
— Queres tentar?
— Sim — respondeu.
Segurei a bicicleta e ela montou. Andou uns passos mas logo voltou para trás. Depois disse-me com tristeza que tinha perdido a minha fotografia. Disse-lhe que não se preocupasse, que lhe dava outra.
Levei-a ao largo da farmácia onde o chão mais liso tornava tudo mais fácil.
— Agora tenta pedalar sem medo.
A Dila montou, ajeitou o vestido e empurrou o pedal hesitante. A roda dianteira oscilou e ela soltou um pequeno grito agarrando-se ao guiador.
— Eu seguro! — ri, segurando pelo selim.
— Não me largues já!
Aos poucos ganhou confiança. Dei-lhe um leve impulso e ela pedalou sozinha alguns metros. O riso nervoso transformou-se numa gargalhada solta.
— Estou a conseguir!
Quando tentou travar apoiou o pé no chão de repente e desequilibrou-se. Corri para a amparar mas ela já estava meio caída apoiada num joelho.
— Estás bem?
Ela ergueu a cabeça e riu, sacudindo o pó das mãos.
— Só me arranhei um bocadinho.
— Queres tentar mais uma vez?
— Só mais uma. Mas desta vez segura-me melhor!
Pedalou mais um pouco, agora mais segura. Quando desmontou os olhos brilhavam.
— Foi tão giro! Obrigada, António.
Ia responder quando a sua expressão mudou. Segui o olhar. Era a mãe a aproximar-se. A Dila compôs o vestido rapidamente.
— A minha mãe.
Endireitei-me, montei na bicicleta e disse-lhe baixinho antes de partir com o Benjamim.
— Até amanhã.
Olhei para trás. Ela estava junto da mãe com ar sério, mas por um breve instante os nossos olhares cruzaram-se. E no dela ainda havia aquele brilho.
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