A Semana em que as Mãos se Encontraram
Maio de 1975
Semana 3
Na segunda-feira as aulas passaram numa névoa. A cabeça andava noutro sítio, talvez junto à janela onde a Dila costuma sentar-se. À tarde joguei à bola com o meu pai. Ele riu-se quando falhei um passe fácil e chamou-me sonhador. Tinha razão. Mais tarde saí e fui até ao recanto onde, há semanas, a mãe da Dila nos surpreendeu. Sentei-me e fiquei a olhar o céu a mudar de cor. O entardecer tinha um tom de saudade. Regressei com um pressentimento estranho, uma esperança disfarçada de medo.
Na terça-feira a Dila respondeu ao papel.
Tinha-lho entregue dias antes, aquele pequeno desafio inventado para esconder o que eu sentia. Um truque de rapaz que ainda acredita que os sentimentos se podem medir e arrumar em gavetas com nomes. Escrevi várias possibilidades, cada uma representando um grau de amor, de cujo resultado não havia fuga: qualquer resposta seria sempre uma confissão da parte dela.
Quando a vi, o coração parecia um bicho engaiolado.
— Ainda tens o papel que te dei?
— Tenho — respondeu, a brincar com ele entre os dedos finos, deixando o silêncio crescer entre nós.
— E então? O que decidiste?
Ela riu, uma risada curta, quase secreta.
— Dou-to quando o troleicarro chegar.
Fiquei preso entre o desejo e o desconcerto. O tempo arrastou-se como se carregasse pedras. Quando o troleicarro se aproximou ela virou-se, olhou-me nos olhos e estendeu-me o papel.
— Está aqui a tua resposta.
Peguei nele. Tremia. Abri-o. E o que vi não cabia em nenhuma das minhas hipóteses.
O papel estava rasgado, amarrotado, queimado num canto. E ainda cheirava a fumo. Cada marca, cada dobra, cada ferida daquele papel era uma resposta. Ela tinha vivido cada uma das possibilidades que eu lhe propusera. E destruído-as todas, como quem recusa escolher entre caminhos demasiado pequenos.
— Dila… o que é que isto significa?
Ela inclinou ligeiramente a cabeça.
— Significa que o amor não é para medir, é para viver.
Depois subiu para o troleicarro, voltou-se e disse apenas:
— Até amanhã.
E foi-se, como o vento quando muda de direcção. Fiquei parado com o papel a queimar-me a palma da mão. O sol já se punha e a luz tinha um tom de cobre gasto. O resto das horas dissolveu-se. O papel está aqui, no bolso, como um segredo vivo.
Na quarta-feira a irmã do Benjamim abriu-me a porta com um ar entre o gozo e o segredo.
— António, a tua irmã Zulmira quer fugir de casa.
Ri, ou tentei rir. A frase ficou a ecoar dentro de mim. Fui para a escola com o Benjamim, falámos de futebol e de professores, e na terceira aula desisti da rotina.
— Vamos ao cinema. Hoje não aguento estar fechado aqui.
O filme falava de amores impossíveis e cidades distantes. Ao sair para a rua o ar pareceu mais denso, como se o mundo tivesse envelhecido enquanto eu estive na penumbra. Ao regressar a casa ouvi miúdos gritarem do outro lado da rua.
— A irmã do António fugiu de casa!
Corri. A porta de casa estava entreaberta e dentro dela o silêncio pesava. A minha mãe olhou-me com aquele olhar que mistura medo, raiva e cansaço.
— A tua irmã não voltou desde manhã.
Já depois das sete a porta abriu-se e lá estava a Zulmira. Os olhos baixos, o rosto molhado de pó e sombra. A mãe não gritou. Não houve lágrimas nem castigos. Apenas um olhar demorado, um daqueles silêncios que dizem tudo. Fiquei quieto a olhar para as duas, sentindo pela primeira vez que cada um carrega o seu pequeno desespero, o seu impulso de fugir, e que talvez crescer seja apenas aprender a ficar.
Na quinta-feira pedi ao Guilherme que pedisse dispensa por mim ao professor de Educação Física.
— Está bem. Mas ficas a dever-me uma.
Cheguei à paragem e vi o trólei afastar-se pela Rua do Bonfim. Fiquei parado olhando o rasto de pó e luz. Foi então que a vi. A Dila vinha ao longe com as amigas e ao ver-me veio ter comigo.
— Olá, António!
Começámos a caminhar juntos. De repente mãos nos olhos, o susto, o riso. Era o Benjamim.
— Sempre a melgares a Dila, hã?
Ela corou, e aquele rubor ficou-me gravado. Quando ele se afastou o mundo pareceu encolher até caber no pequeno espaço entre nós.
— Ainda me faltam duas ou três perguntas para completar o estudo vasto que estou a fazer sobre ti.
Ela sorriu, arqueando uma sobrancelha.
— Ah, é? E posso saber quais são?
— Ainda estou a escolher.
O trólei aproximava-se. Num impulso estendi-lhe a mão.
Durante um segundo que se estendeu como um fio de eternidade o tempo parou. O gesto nasceu antes de o pensamento o autorizar. Senti o sangue a subir-me à face, um calor que vinha de dentro, misto de receio e coragem. Ela olhou a minha mão, primeiro com surpresa, depois com uma doçura contida. A hesitação dela, breve mas real, foi uma pequena morte e um renascimento.
Então, sem dizer nada, estendeu-me também a sua.
O toque foi leve, quase tímido, e fez-se sentir até aos ossos. Não era apenas pele a tocar pele, era tudo o que eu nunca tinha dito a ganhar corpo. Tive medo de apertar demais, de quebrar o encanto, e por isso apenas deixei que as nossas mãos se encontrassem, como se já se conhecessem há muito tempo e estivessem apenas a confirmar um pacto antigo.
Quando ela retirou a mão ficou-me na palma uma ausência quente, um vestígio quase físico, como o calor que a luz deixa numa pedra ao fim da tarde.
— Até amanhã, Dila.
— Até amanhã, António — respondeu com um sorriso e ao mesmo tempo uma tristeza nos olhos pelo momento efémero que tinha sido.
O resto do dia passou como um eco distante.
Na sexta-feira as aulas correram invisíveis. Às seis e dez saí devagar com o sol a cair de lado sobre os muros. Em casa a minha irmã Celeste apareceu à porta com ar de quem traz novidade.
— Sabes quem esteve aqui esta tarde?
— Quem?
— A Dila.
O nome caiu-me no peito como uma pedra no lago.
— A Dila? Aqui?!
— Aqui mesmo. Ficou um bocadinho a conversar comigo. Pegou na Sónia, a minha sobrinha, ao colo. Riu-se. Ela é bonita.
Que raio vinha fazer a Dila à porta da minha casa? Fiquei a remoer aquilo o resto do dia. À noite fui a uma festa em S. Pedro da Cova, falava-se de justiça e de futuro, mas a minha cabeça estava perdida noutra geografia, a rua onde a Dila tinha estado, o som imaginado da sua voz.
No sábado o dia nasceu radioso com um sol quente que dourava as ruas. Encontrei-me com a Dila de manhã.
— Olá, Dila. Hoje estás ainda mais bonita.
— Ai sim? — sorriu, corando. — Ou será que és tu que hoje estás mais simpático?
Conversámos como quem colecciona minutos preciosos. Quando nos despedimos senti um vazio miúdo que não tinha nome. Era suposto ir para as aulas mas o Benjamim estava por perto.
— Com este calor, vamos mesmo meter-nos enfiados na escola?
Seguimos para o jardim do liceu e sentámo-nos na relva. Mais tarde fomos ao monte. O vento soprava leve com cheiro de erva seca e terra quente, e a liberdade tinha sabor de sol e silêncio.
No domingo o encontro com a Dila estava marcado. Bastava esse facto para que tudo ganhasse outro peso, o ar, o espelho, até o acto banal de escolher uma camisa. Cheguei cedo demais. A espera arrastou-se, viscosa, e cada sombra que se movia ao longe parecia criada pelo desejo.
Até que a vi. E tudo se calou.
— Cheguei a pensar que não vinhas.
— Tive de ajudar a minha mãe antes de sair. Mas não queria faltar.
Falámos um pouco, ou fingimos falar, porque o que existia entre as palavras era o que realmente importava. Mas a vida interrompeu o instante. A irmã chegou primeiro, depois o Manel. E então veio a mãe.
O olhar dela não precisou de palavras. A Dila empalideceu, levantou-se depressa.
— Tenho de ir.
Fiquei sentado como um boneco de corda que deixou de funcionar. Vi-a afastar-se e dentro de mim algo se fechou. Caminhei depois sem rumo e encontrei-a mais à frente com a irmã. Quando passou olhou-me, e naquele olhar coube tudo o que as palavras recusam. Quis falar mas um leve movimento dos olhos dela ordenou-me silêncio. Obedeci. Vi-a entrar num carro e o mundo ficou imóvel.
Ao cair da tarde regressei ao mesmo lugar onde a esperara. Os bancos vazios pareciam zombar-me. Ela não veio. Fui ao cinema sem vontade. O filme passava diante dos olhos como um sonho alheio.
Em casa abri o diário. A fotografia dela estava lá. Peguei nela com o cuidado com que se pega numa ferida. Beijei-a, e algo doeu.
— Desculpa — sussurrei.
Não sabia bem porquê. Talvez por tê-la deixado partir sem lutar. Talvez porque amar é sempre, de algum modo, pedir perdão por existir.
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