A Semana do Papel com Armadilha
Maio de 1975
Na segunda-feira as aulas passaram sem que eu estivesse realmente lá. As palavras do professor entravam e saíam sem deixar rasto. À tarde fui com o meu pai buscar vinho a um lavrador. Enquanto ele conversava, eu caminhava entre sombras longas e vinhas alinhadas, com a Dila a ocupar todos os pensamentos. O jantar trouxe o mundo de volta com vozes e champanhe, mas mesmo entre os brindes ela estava lá, leve e insistente.
Na terça-feira combinei encontrá-la de manhã antes das aulas. Cheguei ao local alguns minutos antes e a rua estava silenciosa. Quando ela surgiu o resto desapareceu.
— Olá, António! — disse, e o meu nome na sua boca tinha o som das manhãs claras.
— Olá, Dila. Agora melhor.
Ela corou e riu-se. Falámos do teste de Matemática, dos professores, de coisas pequenas que eram apenas pretexto para estar perto. Quando o trólei apareceu ela deixou-o passar. Sorri, cúmplice de um segredo que não precisava de ser dito.
— Estás a fazer isso de propósito, não estás?
— Quem, eu? Imagina! — respondeu, com aquele sorriso que guardava mundos inteiros.
Quando o trólei seguinte surgiu a despedida foi inevitável.
— Queria que ficasses mais tempo.
— Eu também. Mas prometo que nos vemos outra vez, em breve.
Vi-a desaparecer e percebi que o coração aprende a doçura da ausência exactamente assim.
Na quarta-feira houve um boato de bomba na escola. Fomos evacuados, e o riso nervoso misturava-se com a apreensão. Depois a vida voltou com a sua doçura simples. O Benjamim apareceu e jogámos à bola. À noite saímos com o violão e passámos pela casa dela. O coração bateu mais rápido ao passar pela janela onde a sua presença se insinuava apenas em sombras. Sentámo-nos num recanto, ele dedilhava melodias e eu ficava, com o olhar inevitavelmente pousado na sua casa. Quando as luzes lá dentro se apagaram a noite encerrou-se também para mim.
Na quinta-feira estudava sem vontade quando a minha mãe chamou.
— Tono, anda ajudar-me a fazer um ninho para os coelhinhos. Estão ao frio e não sobrevivem assim.
Larguei os livros sem hesitar. Os coelhinhos tremiam no seu canto, minúsculos e frágeis. Fizemos-lhes um abrigo com palha. A minha mãe olhou-me com aquele olhar que diz tudo sem precisar de dizer.
Ao meio-dia saí e pedi dispensa ao professor de ginástica. Antes de chegar à paragem do trólei vi-a do outro lado da rua. O cabelo preso num gesto descuidado, o passo leve.
— Dila!
Ela parou, hesitou, e depois sorriu. Esse instante em que ela me reconheceu foi como uma revelação.
— Olá, António! Não esperava ver-te agora.
— Também não sabia se te encontraria. Mas tive esperança.
Ela baixou os olhos e sorriu outra vez. Caminhamos lado a lado. Contei-lhe dos coelhinhos e ela pareceu enternecida.
— Pobrezinhos! E conseguiram aquecê-los?
— Acho que sim.
O trólei chegou e ela deixou-o passar. Ficámos mais um pouco com o tempo suspenso entre nós.
— Amanhã vens para o liceu à mesma hora?
— Sim. Talvez nos voltemos a encontrar.
O "talvez" ficou a ecoar entre a certeza e o sonho.
Na sexta-feira saí com o Benjamim e o Manel às seis e dez. Quando o trólei parou despedi-me apressado com a sensação de que algo estava prestes a acontecer.
E aconteceu. Ela vinha na minha direcção com aquele andar leve de quem parece não tocar o chão.
— Dila!
Ela sorriu. Disse que vinha comprar comida para os periquitos e eu invejei os pássaros. Conversámos sobre tudo e nada até ela olhar o relógio e suspirar. Disse-lhe que esperava por ela. Encostei-me a um muro a vê-la através do vidro da mercearia, numa estranha serenidade. Era como assistir a um sonho sem querer acordar.
Voltámos a caminhar juntos. Antes de nos despedirmos arrisquei um convite. Ela disse que sim.
À noite saí sozinho. Virei uma esquina e o destino mostrou-me a Dila com a família. Ela chamou o meu nome e o som foi tão real que quase me doeu. A mãe olhou-me de alto a baixo, rápida mas suficiente. O Benjamim apareceu então com o violão às costas.
— Vamos tocar um bocado?
Tocámos e cantámos, e entre os acordes eu sentia o olhar dela pousar em mim, leve e curioso. Quando nos despedimos já passavam das onze.
No sábado encontrei-a perto da Papelaria Pirata no Bonfim. Ela já lá estava encostada á parede com o vento a brincar-lhe no cabelo. Há dias atrás tinha-lhe falado num papel com um enigma. Era uma declaração de amor disfarçada de perguntas, de cujo resultado não havia fuga: qualquer resposta seria sempre uma confissão da parte dela.
— Tens o papel? — perguntou, com a voz entre o riso e o segredo.
Tirei a folha dobrada do bolso com uma solenidade fingida.
— Aqui está ele. Mas aviso-te já que não há saída.
Ela leu. Primeiro com curiosidade, depois com surpresa. Vi um rubor leve a anunciar-se no rosto. Baixou o papel e olhou-me, e o mundo suspendeu-se.
— Isto é uma armadilha! — disse, entre o riso e a defesa.
— Eu avisei. Tens vinte e quatro horas para decidir como vais sair dela.
Ela abanou a cabeça, mas os olhos brilhavam.
— E se eu não quiser responder?
— Então é essa a tua resposta.
Ficámos em silêncio. Quando nos despedimos ela levou o papel consigo e eu fiquei com o vazio que ele deixava.
No domingo a manhã nasceu sem cor. Fiquei na cama tempo demais. Havia uma quietude quase solene, como se o silêncio tivesse ganho autoridade sobre tudo. Todos os meus amigos me pareceram esquecidos. Eu sei que o coração tem tendência a dramatizar quando se sente só. Mas havia ali um fundo de verdade.
Saí à rua com passo hesitante. Pensei na Dila, como sempre. Fui até à sua casa. As janelas estavam fechadas, o portão trancado, a rua em silêncio. Fiquei um momento parado a olhar a casa sem saber bem o que esperava. O silêncio respondeu por ela. Voltei com o coração pendurado num fio.
Jantei sem vontade e depois fui ao cinema por impulso, para fugir do que doía. O filme era de amor. Sentado entre desconhecidos vi-me a viver tudo de novo, o primeiro olhar, a primeira vez que o meu coração tropeçou no dela. Cada gesto dos actores parecia uma tradução imperfeita do que sinto.
No escuro da sala percebi que o amor é uma ferida bonita: dói, mas ilumina.
Voltei para casa e escrevi sob a luz fraca do candeeiro. Amo-a. Não há metáfora possível. É simples e brutal como a própria vida.
Comentários
Enviar um comentário