A Semana da Fotografia
Maio de 1975
Semana 1
Na segunda-feira a escola passou como sempre, um intervalo forçado entre os bocados de vida que realmente importavam. À saída o Manel esperava-me encostado ao gradeamento com ar de quem já tinha visto o fim do mundo.
— Achas normal? Três testes esta semana? — bufou, braços no ar.
— Só querem ver-nos a sofrer — ri, empurrando-o de leve.
Depois do lanche seguimos os dois para perto da casa da Dila, como dois espiões. O nosso pacto era simples: durante um mês, só ao fim de semana, e sempre às escondidas. Para mim era mais do que um jogo. O Manel ia largando piadas e eu respondia a meio gás, os olhos fixos em qualquer sombra que pudesse anunciar a presença dela.
Ao cortar caminho pela estrada de trás, o destino pregou-me uma partida: lá estava ela, com a mãe e a irmã. Fiquei colado ao chão.
— Não me digas que vais ficar aí feito estátua — gracejou o Manel.
— Acho que ela me viu. E a mãe também.
— E então? Não fizeste nada de errado.
— O problema não é o que fiz. É o que ela pode pensar.
Fugimos do lugar como quem foge de uma armadilha invisível. Em casa o jantar perdeu sabor. O meu cunhado apareceu e convidou-me para ir ver um jogo de hóquei em patins. Disse que sim. Precisava de outro cenário, outro barulho. O jogo foi intenso, cheio de golos improváveis e disputas que quase rebentavam em pancadaria. Por momentos a vida pareceu simples.
Na terça-feira só tive três aulas. Saí com a tarde livre e pedalei até à mina, um lugar onde gostava de estar quando precisava de pensar. Lembrei-me de que estava perto da casa da Dila e fui pelo lado menos frequentado, atravessando o pequeno bosque atrás de sua casa. Aproximei-me devagar. A casa estava silenciosa. Não havia qualquer sinal dela. Fiquei mais um pouco à espera de um acaso feliz, mas nada aconteceu.
Ainda era cedo quando regressei ao centro da vila. A carrinha da biblioteca móvel da Fundação Calouste Gulbenkian estava estacionada no lugar do costume. Entrei, percorri as prateleiras com o cheiro a papel envelhecido e madeira encerada, e escolhi dois livros. A bibliotecária sorriu ao entregar-mos. Voltei para casa satisfeito com o pequeno achado.
Na quarta-feira as aulas terminaram às seis e dez. Em casa lanchei rapidamente, agarrei nos binóculos e fui de bicicleta até ao recanto perto da casa dela. Parei a uma distância segura e esperei. A rua mantinha-se vazia. Sentei-me na relva com a bicicleta tombada ao lado.
Aquele lugar não era apenas um esconderijo. Era um palco de outros dias. Ainda me lembrava do som das nossas vozes entrelaçadas, das palavras sussurradas com receio de serem escutadas, do riso contido que lhe escapava sem querer. Agora restava o silêncio. Esperei mais um pouco por teimosia. Depois pedalei de regresso a casa.
Na quinta-feira não tive as duas primeiras aulas nem a última da tarde. Vim embora com o Manel e fomos ao monte depois do lanche. Sentámos entre as pedras e lemos em silêncio durante quase duas horas, com o farfalhar das folhas e o canto de um melro a preencher o ar.
Quando o sol começou a descer passámos por um ponto alto de onde se avistava a casa da Dila. Peguei nos binóculos e procurei o rosto que não me saía da cabeça. Vi a irmã primeiro, que nos acenou, depois a mãe surgindo sem aviso como um alarme silencioso. Fechei os binóculos e segui caminho.
Depois do jantar saí outra vez levado por um impulso que já nem tentava disfarçar. Aproximei-me da casa dela, escondi-me entre as moitas e esperei. O tempo alargou-se em silêncio até que ouvi a sua voz. Foi o suficiente. Um arrepio percorreu-me o corpo e regressei a casa devagar, com a alma cheia e um sorriso que não pedia explicação.
Na sexta-feira acordei com a cabeça pesada, preso ainda ao sonho da noite anterior onde ela estava sempre no centro de tudo. Fui para a escola mais por obrigação do que por vontade. No último tempo saí com o Benjamim, escapámos discretamente como quem desafia o mundo sem grande convicção mas com prazer.
À tarde os três fomos ao monte. O vento vinha leve e por um instante esqueci tudo. De regresso parámos no ponto alto. A irmã acenou-nos, a mãe apareceu. Fechei os binóculos e segui sem olhar para trás.
Depois do jantar voltei à casa dela e escondi-me entre as moitas. Ouvi a voz dela outra vez. Regressei a casa embalado por essa memória.
No sábado encontrei-a de manhã conforme tínhamos combinado. Ao vê-la ao longe tudo à volta perdeu importância.
— Bom dia, Dila. Dormiste bem?
— Mais ou menos. Estive a pensar numa coisa.
— Em quê?
— Em nós.
Antes que pudéssemos continuar, a Gisela surgiu entre nós com um sorriso meio trocista.
— Ah, cá estão vocês os dois! Que cumplicidade tão bonita.
A Dila suspirou. Eu senti o aperto de quem vê um momento precioso ser interrompido. Quando a Gisela se afastou, os olhos dela encontraram os meus.
— Eu queria ter falado contigo com mais calma.
— Eu também — murmurei.
Então tirou da carteira uma pequena fotografia e entregou-ma.
— Para ti.
Segurei-a com cuidado, consciente de que não era apenas uma imagem. Tirei da mochila uma rosa que havia colhido no jardim da escola e entreguei-lha num gesto simples.
— E esta é para ti. Prometo que também te darei uma fotografia minha.
Os olhos dela brilharam. Algo se consolidava entre nós, silencioso mas firme.
Quando ela partiu fiquei com a fotografia na mão. O resto do dia passou entre aulas e momentos de sol no jardim do liceu, com a fotografia entre os dedos e o rosto dela a gravar-se em mim com a paciência dos dias lentos. À noite fui com o meu pai ao café e depois ao cinema. A rotina tinha agora outra densidade.
No domingo saí com o Benjamim e o Manel. A Dila tinha dito que se não aparecesse no sítio de sempre era porque tinha ido com a irmã à festa no Passal.
— Vamos para lá — disse, e partimos sem hesitar.
A festa envolvia-nos com ranchos folclóricos, cheiros de comida e burburinho de vozes. Sentei-me nos degraus da escola do Passal a absorver o movimento e então os meus olhos encontraram-na. O coração bateu com força. Levantei-me e chamei por ela. Virou-se e veio ao meu encontro com um sorriso que apagou todas as incertezas do dia.
— Queres mostrar-me a exposição?
— Claro. Anda comigo.
Percorremos a exposição lado a lado. Eu perguntava, ela sorria sem precisar de palavras. Mais tarde, enquanto os ranchos dançavam, caminhei ao lado dela a absorver o mundo e, ao mesmo tempo, apenas a ela. Num movimento quase imperceptível inclinou-se ligeiramente na minha direcção, uma sugestão tão subtil que podia ser imaginação. O coração reconheceu o momento. Não avancei. Havia coisas que não se apressam.
A despedida foi breve mas carregada. Fiquei a vê-la afastar-se com uma mistura de alegria e promessa silenciosa. O mundo parecia maior do que de manhã.
O dia acabou com um desentendimento em casa que me deixou exausto. Deitei-me tarde com o sorriso dela e o peso das palavras duras a rodopiarem na mesma cabeça.
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