A Semana das Sombras e dos Grilos
Abril de 1975
Semana 5
Na segunda-feira o liceu arrastou-se como sempre. No intervalo fiquei encostado ao gradeamento do pátio a olhar para o liceu ao lado, onde a Dila estudava. Havia metros de distância apenas, mas por dentro parecia um oceano. Pensei em arranjar um pretexto para dar uma volta por lá. Não fui.
À noite combinei com o Benjamim irmos até à rua dela. Às nove em ponto ele ainda não tinha chegado. Quando finalmente apareceu seguimos como dois conspiradores encostados ao muro junto à cozinha de sua casa. Ouvíamos vozes lá dentro, e entre elas a da mãe dela com aquela autoridade que sempre me fez recuar. A luz da cozinha apagou-se de repente. O peito gelou-me. Depois a luz da varanda acendeu-se e eu soube que ela sabia que estávamos ali.
— Achas que ela vai aparecer? — perguntou o Benjamim.
— Se acendeu a luz da varanda, é porque nos viu.
— Ou então é um aviso para nos pormos a andar.
Dei a volta até à frente da casa. Através da janela vi a mãe imóvel na sala. A persiana começou a descer devagar, como um pano de teatro a encerrar a cena. O Benjamim deu-me uma palmada no ombro.
— Vamos andando antes que a tua futura sogra nos corra daqui à vassourada.
Voltámos para casa como soldados derrotados mas ainda vivos.
Na terça-feira as aulas repetiram-se sem novidade. À noite combinei de novo com o Benjamim. Ele atrasou-se e eu fui andando, deixando recado à minha mãe. O meu cunhado apanhou-me a passar à porta.
— Então, Tono, essa tromba de enterro?
— O Benjamim. Disse que vinha ter comigo e até agora nada.
— Esse rapaz perde-se mais do que os taxis de Lisboa.
Quando o fugitivo apareceu seguimos para as traseiras da casa da Dila. No meio da conversa senti olhos nas costas. Virei-me e gelou-me o sangue: era a mãe dela. Murmuriei ao Benjamim para andar devagar e seguimos sem dar nas vistas.
Voltámos mais tarde e ficámos encostados ao muro na penumbra. Da cozinha chegavam-nos fragmentos da voz dela como música proibida. Por um instante consegui vê-la ao fundo, iluminada pela fraca luz da lâmpada. O coração bateu como um tambor. Ficou ali, imóvel, a beber cada gesto, cada sombra.
Na quarta-feira saí mais cedo com o Benjamim. Depois fomos buscar uns bancos de madeira a casa do Manel para levar a casa da Dila. Pesavam como se guardassem dentro toda a história das árvores de onde vieram. Parámos várias vezes, rimos à força, atirávamos piadas baratas só para esquecer o peso.
A Dila apareceu no caminho pronta a ajudar, mas dissemos que já não valia a pena. Chegados à porta ficámos hesitantes. O Manel entrou sem cerimónias e nós ficámos cá fora encostados ao muro. Quando ele nos chamou para levarmos os bancos lá dentro, a Dila já tinha agarrado num e tentava levá-lo sozinha. Vi-lhe o esforço nos olhos semicerrados e os braços a tensionar. Corri com o Benjamim para lhe tirar o banco das mãos.
Ao passar a soleira da porta um arrepio percorreu-me as costas. A mãe dela estava sentada à mesa, os olhos pousados em nós sem dizer uma palavra. O silêncio dela durou uma eternidade. Depois agradeceu com uma voz lisa, sem emoção. Murmurei um obrigado apressado e saí a sentir que tinha escapado a um julgamento silencioso. Cruzei um olhar rápido com a Dila. Não dissemos nada.
Na quinta-feira era o Primeiro de Maio e a cidade estava pintada de bandeiras e palavras de ordem. Mas para mim o dia tinha outra cor. O Benjamim veio ter comigo e saimos. Chegámos ao monte por volta das duas e meia, encontrámos uma clareira, sentámo-nos e liguei o gravador que trazia comigo. As notas de uma música qualquer preencheram o espaço.
No Alto do Depósito, sentados em pedras ao sol, vi-a. A Dila estava ali com algumas colegas a observar-nos. A conversa fluiu naturalmente, como se o tempo entre encontros nunca tivesse existido. Quando ela anunciou que tinha de ir, voltei sozinho a casa, lanchei depressa e regressei ao monte com o gravador. Ela ainda estava lá com as colegas. Sentei-me discretamente à distância e ela aproximou-se.
— Voltaste?
— A tarde ainda não acabou, não é?
Falámos sobre tudo, até sobre a gravidez da mãe dela, mas desviámos com cuidado para temas mais leves. Quando o Manel chegou a paz do momento quebrou-se com a sua energia habitual. Quando ela se despediu segui-a por instinto. Caminhámos juntos, rindo, fingindo coincidências, até o pai delas aparecer na estrada. Cada um seguiu o seu caminho.
Na sexta-feira as aulas foram só duas. O ar da manhã cheirava a terra molhada e relva recém cortada. O Benjamim esperava-me encostado ao muro do liceu com um sorriso maroto.
De tarde fomos ao salão treinar uns movimentos entre gargalhadas e tropeções. Depois o Manel apareceu com uma ideia que não se recusa.
— E se fôssemos apanhar grilos? Conheço um campo aqui perto onde há muitos!
Partimos com frascos de vidro como se fôssemos caçadores em busca de um tesouro. Em pouco tempo cada um tinha dois grilos a saltitar dentro do frasco. Regressámos sujos de terra e satisfeitos.
À noite o Benjamim foi comigo até à casa da Dila. Instalámo-nos na penumbra e esperámos. Quando finalmente se mexeu algo na porta eu já tinha os binóculos na mão. Lá estava ela, mas de costas. Antes que eu conseguisse fazer qualquer sinal desapareceu. Esperámos mais um pouco. Ela não voltou. Os grilos nos frascos cantavam enquanto regressávamos a casa. No campo a caça tinha sido um sucesso. No coração nem tanto.
No sábado, ao dobrar a esquina de manhã, vi-a. A Dila.
— Olá, António! Para onde vais?
— Escola. Ainda temos aulas ao sábado.
— Que seca! Mas olha, já fizeste o trabalho de História?
— Ainda não. Vou acabar hoje à tarde. E tu?
— Também não. Estava a pensar pedir-te os apontamentos.
— Claro. Mas tens de me prometer que não vais copiar tudo.
— Eu? Copiar? — fez-se de ofendida mas logo desatou a rir. — Só preciso de uma ajudinha.
Falámos até ela ter de ir. Cada minuto valia mais que qualquer aula.
À tarde a minha irmã veio ter comigo.
— A Dila veio cá perguntar por ti.
Entrei em casa e ouvi a minha mãe a falar dela numa voz casual que a tornava pequena. Um desconforto cresceu dentro de mim. Fiz barulho de propósito para interromper a conversa.
— Estás sempre atrás dessa rapariga. Olha que nem tudo o que parece é… — disse ela.
— A mãe vê sempre as coisas de um modo muito superficial — respondi, já de costas a caminho da porta.
Fui ter o Benjamim e seguimos para casa da Dila. A noite avançou e ela não apareceu. Às dez e um quarto a rua estava silenciosa e imóvel.
— Achas que ainda vem? — perguntou o Benjamim.
— Não me parece.
Voltámos sem palavras.
No domingo tinha encontro marcado com a Dila para as duas e meia. O Manel que devia vir ter comigo não apareceu e fui sozinho. Cheguei ao local e não havia ninguém. Sentei-me numa pedra e esperei quase uma hora, olhando ao redor a cada instante. Quando o Benjamim e o Manel apareceram a caminhar despreocupadamente disse-lhes que ela ainda não tinha chegado. Algo que um deles disse caiu-me mal. Fiquei em silêncio, afastado da conversa.
Foi então que a vi. Vinha com a irmã e num instante o mal-estar dissipou-se.
— Vou ter com ela. Quero falar a sós.
Deixei-os para trás e caminhei na direcção dela. Ela sorriu e tudo o resto deixou de importar.
Passámos a tarde juntos, a falar de tudo um pouco, o tempo a escorrer depressa demais.
— Sabes que às vezes gostava de parar o tempo? — disse eu, encostado ao tronco de uma árvore.
— E porquê?
— Para ficar assim. Contigo. Sem pressa, sem fim.
Ela baixou o olhar por um instante e depois voltou a fixar-me.
— Se soubéssemos que este momento nunca acabaria, ainda o valorizaríamos da mesma forma? Ou só tem magia porque sabemos que vai terminar?
Fiquei em silêncio uns segundos.
— Talvez tenhas razão. Mas eu arriscava.
Ela soltou uma gargalhada suave.
— És um sonhador.
— E tu és o meu sonho.
Dila corou ligeiramente, mordendo o lábio.
— Isso foi um bocado lamechas.
— Eu sei. Mas não deixa de ser verdade.
Ela não respondeu. Apenas olhou para mim, e naquele instante soube que não precisava de dizer nada.
— Gostei de te ver hoje — disse ela, ao fim da tarde.
— Eu daria tudo para que houvesse mais tardes como esta.
A noite caiu e eu levei comigo a certeza de que certos momentos ficam para sempre.
Aqui vai a sétima semana.
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