A Semana em que o País Votou
Abril de 1975
Semana 4
A segunda-feira começou com bruma e com um exercício na escola que correu mal. Tinha-me preparado, mas quando a caneta tocou no papel as respostas fugiram-me. A última aula foi cancelada e voltei a casa sem pressa. Joguei à bola no largo com os amigos até anoitecer. Um desses dias que não dizem nada mas ficam na memória pelo silêncio que têm.
Na terça-feira não havia aulas. Soube quando cheguei ao portão do liceu e a notícia espalhava-se em meia dúzia de gargantas. Um presente inesperado. Fui até à paragem do autocarro sem saber muito bem o quê fazer com tantas horas livres, e foi lá que a vi.
A Dila estava de pé, distraída, com aquele jeito impossível de ser. Sentei-me atrás dela no autocarro, fingindo não a ter visto, incapaz de desviar o olhar. Quando desci, esperei-a.
— Então, Dila, também tiveste uma surpresa com este dia sem aulas?
Ela riu. Aquele riso fez o mundo ficar leve.
— Não esperava encontrar-te aqui. Mas é uma boa surpresa.
Falámos. Simples e natural, sem truques nem máscaras. Antes de nos separarmos arrisquei:
— Encontramo-nos mais tarde?
Ela hesitou um segundo e acenou que sim. Fui para casa com o coração a galope. O Manel e o Benjamim estavam à minha porta e tentámos jogar às cartas, mas a cabeça estava noutro sítio. As horas arrastaram-se e a Dila não aparecia. O Benjamim foi o primeiro a desistir, depois o Manel. Fiquei sozinho e dei uma volta perto da rua dela, sentindo-me tolo mas sem conseguir ir para casa.
E quando já ia a desistir, vi-a ao fundo a caminhar.
— Dila!
Ela voltou-se e sorriu.
— Não pensei que ainda estivesses por aqui.
Ficámos a conversar sem dar conta do tempo. Rimos, contámos histórias, deixámo-nos levar por silêncios que não pesavam. Num rasgo de coragem disse:
— Hoje foi um dia cheio de surpresas. Mas a melhor foi encontrar-te.
Ela baixou os olhos e respondeu baixinho:
— Para mim também.
Despediu-se e vi-a afastar-se com o vento a brincar-lhe no cabelo. Esperei que se voltasse, só uma vez. Não aconteceu.
Na quarta-feira o Manel apareceu cedo com uma notícia que me abanou: o pai da Dila proibira-o de se aproximar da casa dela, alertado pelo próprio pai dela. Fui ter com ela decidido a dizer-lhe que, para evitar problemas, só a veria aos domingos. O caminho parecia mais comprido do que nunca.
Ela saiu sorrateiramente e veio ao meu encontro.
— O que fazes aqui, António? O meu pai…
— Eu sei. Foi por isso que vim. Não quero trazer-te problemas, Dila.
Ela baixou os olhos.
— Ele proibiu-te, não foi?
— Disse ao Manel que eu não me devia aproximar. Não quero que sofras por minha causa.
— E achas que é isso que me preocupa? Eu não me importo!
— Mas eu importo-me. Não quero que discutas com o teu pai por minha culpa.
— E então qual é a solução? — a voz tremeu-lhe. — Fingimos que não existimos? Só nos vemos aos domingos, como se fôssemos desconhecidos?
— É melhor assim. Até ele acalmar.
Ela abanou a cabeça.
— Melhor para quem, António? Para mim não é.
— Para nós. Pelo menos se nos virmos aos domingos, talvez ele não te pressione tanto.
Dila mordeu o lábio, tentando segurar o que lhe vinha aos olhos.
— Isso não é viver. Isso não é…
Baixei a cabeça. A palavra que faltava no meio das nossas frases pesava mais do que qualquer palavra dita. Ela tocou-me no braço.
— António, eu prefiro enfrentar tudo do que afastar-me de ti.
— Eu queria poder prometer-te que tudo vai ficar bem.
— Então promete-me que não vais desistir.
Olhei para ela, tentando guardar aquele instante.
— Nunca desistiria de ti.
Ficámos ali parados, como duas sombras que ainda se tocam antes de se afastarem. Quando ela se foi embora, o silêncio que ficou era imenso.
Na quinta-feira acordei tarde e sem vontade. À tarde, na Quinta Amarela onde o tio do Benjamim guardava o cavalo, estávamos a dar de comer ao cavalo quando a Dila apareceu à porta do estábulo. O sol entrava oblíquo e nos cabelos dela desenhava reflexos que me fizeram parar. Ela sorriu e o nó que me apertava o peito desfez-se.
Marcámos encontro para as três. Esperei e nada. Quando finalmente a vi, vinha com o rosto fechado.
— Dila, o que aconteceu?
— Eu devia perguntar-te isso a ti. Estive lá às duas e meia. Esperei até achar que tinhas mudado de ideias.
— Houve um engano. Só isso. Nunca faria uma coisa dessas.
Ela suspirou, os dedos perdidos no cabelo.
— Talvez tenha sido mesmo um mal-entendido. Mas senti-me tola, António. Tola por estar ali sozinha à espera.
— Nunca serias tola. Muito menos para mim.
O olhar dela suavizou-se. Combinámos novo encontro e ela apareceu, mas trouxe a irmã. Estávamos a conversar quando a mãe surgiu. O olhar que me lançou foi uma condenação silenciosa.
À noite, ao passar perto da sua casa, julguei ouvir gritos. O peito apertou-se e quase não respirei. Corri, mas não havia nada, apenas o silêncio da noite a brincar com a minha cabeça. Voltei mais tarde com o Benjamim e do quintal ouvi a voz dela tranquila. Senti alívio, mas não descanso.
Na sexta-feira era 25 de Abril, o primeiro aniversário da Revolução, e os meus pais foram votar pela primeira vez. Quando os vi sair de casa, de roupa engomada e expressão firme, percebi que carregavam nas mãos um peso que ia muito além de um simples papel. A democracia estava a ganhar raízes mesmo ali, diante dos meus olhos.
À tarde encontrei-me com o Benjamim e mais tarde fui de bicicleta até à rua da Dila. Os pais dela estavam à porta com ela. O olhar deles gelou-me. Segui caminho com o coração apertado. O Benjamim foi buscar um binóculo e tentámos observar de longe, mas só víamos sombras.
À noite voltámos com tele-comunicadores. De uma clareira víamos parte da janela do quarto dela. Vi um vulto. O coração disparou. Era ela, mas desapareceu depressa. Contornámos a casa e de repente ouvi uma voz a sussurrar:
— António! Sou eu, a Dila!
Procurei a origem daquela voz com o coração na boca.
— Dila? Onde estás? Estás bem?
Ela surgiu da penumbra com a irmã. O rosto sereno, mas os olhos com uma nuvem.
— Estou aqui. Estou bem, não te preocupes assim.
— Ontem juro que ouvi gritos. Pensei que os teus pais te tinham batido. Passei a noite em claro.
— Houve discussão, sim. Estão zangados comigo. Mas não passou disso.
Larguei o peso que carregava há horas.
— Só quero que estejas bem. Se precisares de mim, estou aqui. Sempre.
O sorriso dela, pequeno mas verdadeiro, dissipou tudo.
— António, só o facto de te importares tanto já é muito para mim.
Quis avançar. Não avancei. Guardei o impulso no peito onde ficou a fervilhar. Antes de nos separarmos combinámos ver-nos no dia seguinte.
No sábado acordei sobressaltado com vozes abafadas na sala. O meu pai estava no sofá a contorcer-se de dor, o suor a escorrer-lhe pela testa. Saímos de urgência para o hospital ainda de madrugada. Na ambulância, com a sirene a acordar a vila, sentia-me pequeno diante daquilo. Nunca tinha visto o meu pai assim. Na noite anterior o coração galopava por amor, agora batia de medo. Deram-lhe oxigénio e medicação e ele abriu os olhos. Voltámos para casa.
O resto do dia correu lento. A televisão falava da contagem dos votos, do país que se reinventava. À tarde o Benjamim apareceu e ficámos juntos. À noite fui até à rua dela como sempre, mas uma tempestade rebentou e fiquei preso em casa, frustrado e impotente.
No domingo tinha combinado encontrar-me com o Benjamim para tocar violão. Subimos ao monte, as notas saíam tortas, o tempo escorria sem peso. Quando o Manel disse que não ia voltar à tarde, senti um aperto. Fiz-me de indiferente.
— Eu vou sozinho, então.
Horas depois ele apareceu-me à porta com ar maroto.
— Mudei de ideias. Vamos.
Do sítio onde nos instalámos víamos parte da casa dela. Levava os binóculos. O tempo esticava-se até que três vultos surgiram. Era ela, com a irmã e um rosto desconhecido. Então ela olhou na minha direcção. Não foi engano. Sabia que eu estava ali.
Depois sumiu-se. A chuva começou, primeiro mansa, depois violenta. O Manel foi-se embora a resmungar. Eu fiquei. A água a escorrer-me pelo pescoço, os sapatos colados ao chão, mas o olhar fixo naquela casa. Ela voltou por um instante. Encontrou-me outra vez. O mundo encolheu até restar só aquele olhar.
Exausto, fui para casa. Mas quando cheguei a chuva parou. Agarrei num guarda-chuva e voltei a sair como um louco.
Abriguei-me numa garagem a observar o céu cinzento. Então vi-a ao longe com uma senhora e com o irmão Pedro. Ele reconheceu-me e chamou-me. Quase me faltou o ar. Estavam numa sapataria abrigados da chuva. Cheguei devagar com o coração quase a sair-me pela boca.
A Dila disse, com um sorriso que me desmontou:
— Podes chegar-te, não há perigo.
A senhora não era a mãe. A conversa foi simples, quase natural demais para o turbilhão que eu sentia. Ela riu-se a ajeitar o cabelo molhado.
— Se quiserem posso acompanhar-vos até casa — arrisquei.
Ela olhou-me de lado, meio divertida.
— E tu? Não devias estar a caminho da tua em vez de andares por aí à chuva?
— Talvez. Mas quem disse que eu não tinha um motivo para estar aqui?
Ela corou e desviou o olhar.
— Sempre misterioso.
O Pedro, inocente, cortou o momento.
— Ele tem guarda-chuva! Pode levar-nos!
Ela sorriu.
— Sendo assim, aceitamos.
Seguimos juntos, lado a lado, debaixo do meu guarda-chuva. O som da chuva misturava-se com o ritmo dos nossos passos. Ao chegar à porta da casa dela parámos. O silêncio valeu mais que mil palavras.
— Obrigada — disse, tão baixinho que quase se perdeu no ar.
Quis dizer tudo o que me incendiava por dentro. A voz falhou. Apenas a olhei. E ela desapareceu na escuridão.
Fui ao cinema mas o filme passou diante dos meus olhos como sombras sem cor. A minha mente estava presa na chuva, no riso, naquele olhar.
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