A Semana do PPD

Abril de 1975

Semana 3

A segunda-feira começou mal. O Manel apareceu cedo e logo se gerou um desentendimento por nada, palavra atrás de palavra, até o silêncio entre nós ficar espesso. Fui para a escola com a cabeça pesada. Dois professores faltaram, o que noutro dia seria uma vitória, mas naquele dia não adiantou nada. Saí com o corpo molhado pelo chuvisco fino e a alma no mesmo estado.

O Benjamim veio a minha casa à tarde com o violão. Tocámos, falámos, rimo-nos de coisas sem importância. O meu pai juntou-se para jogar cartas e o mundo foi ficando um pouco mais leve. Antes de adormecer, ela voltou ao pensamento como sempre volta, sem aviso e sem pedir licença.

Na terça-feira o Manel voltou com as suas certezas e eu voltei a não as engolir. Outra discussão, outro vidro embaciado entre nós. O dia foi cinzento por dentro e por fora, a chuva miudinha a entrar pelos ossos, a escola a não dizer nada, os colegas a soarem distantes. Deitei-me tarde a pensar que talvez no dia seguinte tivesse coragem para lhe pedir desculpa.

Na quarta-feira, a tarde salvou tudo. Estava a estudar matemática quando o Benjamim bateu à porta.

— A Dila está ali à frente.

Larguei tudo. Do outro lado da rua ela conversava com o Manel. Sentei-me no cruzeiro em frente de casa sem criar cena. Mal me viu, ela despediu-se dele e atravessou a rua.

— Que surpresa. Não estás de mau humor hoje?

— Na tua presença não tenho motivo nenhum para estar de mau humor.

Ela riu-se e sentou-se ao meu lado. O sol a declinar pintava-lhe o cabelo com tons quentes. Falámos de coisas simples, planos para o fim de semana, pequenas frustrações da escola. Depois contei-lhe que tinha uma prenda para ela.

— Ainda é surpresa.

— Ao menos diz-me o que é! — insistiu, os olhos a brilhar com aquela impaciência que lhe ficava bem.

— Está numa lição do nosso livro de Português.

Ela arqueou uma sobrancelha, desconfiada e divertida.

— Qual é a lição?

— Não te posso dizer, mas dou-te o número da página.

Passei-lhe o número e ela ficou a olhar para ele como se fosse capaz de decifrar qualquer segredo só por força do olhar. Despediu-se quando a noite começou a cair. Combinamos encontrarmo-nos no domingo. Por enquanto bastava.

Na quinta-feira só tive duas aulas. Depois, o Benjamim arrastou-me até uma loja de peças para rádios e televisões, onde ficou a procurar um componente que eu não percebia. Observei os expositores com atenção dispersa, resistores alinhados como soldados, tubos de rádio que pareciam cápsulas de mundos antigos.

Como a última aula foi cancelada voltámos mais cedo, e o Benjamim sugeriu passarmos pela casa da Dila. A clareira estava silenciosa, apenas a irmã dela a espreitar de canto. Não tardou a aparecer, com o sorriso rasgado e os olhos azuis que brilhavam sem explicação.

— Vocês aqui? Que surpresa.

Falámos, e a certa altura ela disse com aquela confiança que media cada palavra antes de a lançar:

— Sabes, eu acho que tu pertences ao PPD.

Franzi a testa.

— O quê? Eu? Ao PPD?

— Como é que chegaste a essa conclusão?

Ela sorriu, enigmática.

— Não te vou dizer.

— Isso é algum jogo?

— Talvez.

Fiquei a olhar para ela, a tentar ler alguma coisa naquele sorriso. Não encontrei nada. Ou encontrei demasiado. Deitei-me tarde com o brilho indecifrável dos olhos dela ainda na cabeça.

Na sexta-feira só tive três aulas. Ao sair encontrei-me com o Benjamim e fomos até ao Largo da Farmácia. Ele afastou-se para visitar o tio e eu fiquei encostado ao muro com a pasta escolar. Ouvi o meu nome. Era ela, a aproximar-se com aquele sorriso que sempre me desarmava. Fomos até à clareira e a conversa começou, leve e nervosa, pretextos para estarmos perto.

Mais tarde juntaram-se o Manel e o Benjamim. Joguei às cartas com a Dila como parceira. Ganhámos as duas partidas, a trocar olhares cúmplices e risos.

Depois a irmã dela quis andar de bicicleta. A Dila estava relutante e aproximei-me.

— Por que não sobes?

— Não sei… talvez por vergonha — murmurou.

Segurei-lhe o braço por impulso, senti a pele quente, e por um instante o mundo parou. Ela olhou para mim com aquele brilho. Depois, quase em segredo, disse:

— Partido Pessoal da Dila.

Percebi então o que significava o PPD. E percebi outra coisa também, que não sabia dizer em voz alta mas que sentia com uma clareza estranha.

À tarde os colegas começaram uma guerra de torrões de terra e a irmã dela ria e corria. Quis juntar-se mas eu impedi. Quando o sol começou a ceder acompanhámo-las até casa. A despedida foi silenciosa, um encontro de olhares que guardou tudo o que palavras não podiam dizer.

Mais tarde fiz as pazes com o Manel. Pequena vitória, mas vitória.

No sábado saí mais cedo com o Manel para apanhar o trólei, ostensivamente para não chegar atrasado à escola.

— Sabes bem porque é que saímos mais cedo, não sabes? — disse ele com ar de conspirador.

— Não faço ideia — respondi, embora o coração já suspeitasse.

— Para vermos a Dila!

Na paragem havia um mar de alunas do liceu vizinho. Demos duas voltas discretas à procura do rosto dela. Na segunda, lá estava, encostada a um poste a conversar com uma colega. Fiz-lhe um sinal com a mão. Ela ergueu uma sobrancelha e indicou-me que esperasse.

Quando a colega se afastou ela aproximou-se.

— Então, António? O que é que queres?

— Queria avisar-te que não posso ir a tua casa hoje. Tenho aulas o dia todo.

Ela suspirou.

— Está bem. Nem sei se seria boa ideia. Ontem houve discussão lá em casa por minha causa.

— Outra vez? O que aconteceu?

Contou-me algumas peripécias da véspera com a mãe, que se tornava cada vez mais vigilante. O trólei chegou antes de podermos continuar.

— Bom, depois falamos! — disse, subindo.

Fiquei parado na paragem com um nó no peito e um sorriso tímido.

O domingo era o dia do nosso encontro combinado. Os meus pais saíram cedo e eu fiquei em casa à espera. Os colegas apareceram e fomos juntos ao ponto de encontro. Cinco horas. Seis horas. Sete horas. A esperança a teimar, a certeza a infiltrar-se devagar. Às oito já não restavam dúvidas. Ela não vinha.

Não consegui ficar parado. Fui até à sua casa e espreitei para o quintal. Estava lá, sentada ao lado do pai, com aquele ar de quem tem a cabeça noutro sítio. Não tinha faltado por escolha. Simplesmente não pudera vir.

O alívio e a tristeza chegaram ao mesmo tempo. O caminho de volta foi pesado. À noite fui ao cinema mas não me lembro do filme. Saí para a rua sem saber bem o que tinha visto, a cidade indiferente à volta, e eu um vulto a caminhar sem pressa com uma tristeza que não tinha urgência em partir.

Adormeci a ouvir a chuva nos vidros.


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