A Semana do Milagre de um Minuto

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Agosto de 1975

Semana 5

Na segunda-feira o Manel surgiu à minha porta de manhã, todo entusiasmado com uma gaiola que tinha construído. Fui vê-la, obra de artista improvisado, engenho de quem precisa sempre de fazer qualquer coisa com as mãos. Ao regressar a casa uma das minhas irmãs disse-me que a Dila tinha passado por ali e que voltaria a passar. O coração começou logo a bater como quem se ajeita numa cadeira antes de ouvir uma grande notícia.

Esperei. Esperei tanto que a espera se transformou em dúvida, depois em inquietação, depois naquelas pequenas suposições que só fazem sentido a quem ama. Resolvi não ficar preso à porta. Fui chamar o Manel e partimos para o Centro de Saúde onde o pai dela trabalha.

E ela apareceu.

— Olá, Dila.

— Olá, António.

— Estava ansioso para te ver.

— Eu volto sempre — disse ela, quase num sussurro, desviando o cabelo do rosto. — Mas hoje pensei em passar depressa, não te queria incomodar.

— Nunca me incomodas. Sabes, ontem estava a pensar nas palavras que trocámos na última vez que estivemos juntos.

— Eu também. Às vezes é só isso que precisamos, não é? Pensar nas pequenas coisas.

Ficámos em silêncio por um momento, a observar o movimento do mundo à nossa volta.

— Até amanhã, António, tenho de ir embora.

— Até amanhã, Dila.

E aquele até amanhã carregava mais do que palavras. No regresso a casa pensei na tarde que acabara de viver. Nem sempre são os grandes acontecimentos que mudam o dia. Às vezes basta um encontro breve, um diálogo simples, um sorriso verdadeiro.

Na terça-feira o Manel apareceu de manhã com aquela energia que nunca parece cansar-se e perguntou-me se queria ir a pé com ele ao Porto. Obviamente disse que não, mas ofereci-lhe dinheiro. Pensou melhor e desistiu da ideia. À tarde fui até ao Monte, passei pelo caminho onde costumo encontrar-me com a Dila, mas nem sinal dela. Parei sem decidir parar. O corpo às vezes toma decisões que o pensamento só entende depois. Olhei a estrada de terra, as silvas que crescem sem pedir licença, o recorte do muro do quintal. Nada. Só o silêncio quente do fim da tarde. E ainda assim senti qualquer coisa. Como se a ausência dela tivesse por si só uma presença.

Ao anoitecer sentei-me no degrau da porta no meu posto habitual das noites mais pensativas. S. Pedro da Cova a adormecer é um espectáculo calmo, quase sagrado. Pensei nela, não com a urgência de outros dias, mas com uma serenidade nova. Como se o meu coração começasse finalmente a aprender que existem dias de encontro e dias de pausa, e que ambos fazem parte da mesma história.

Na quarta-feira cheguei atrasado ao encontro com a Dila. Não foi um atraso grande, mas foi o suficiente para estragar a exacta pontaria do destino. Ela não apareceu. Esperei três quartos de hora, teimoso, a desejar voltar atrás no tempo e recuperar os minutos que entreguei ao descuido. Voltei para casa devagar, como quem regressa de uma pequena derrota. À tarde fui ao café com o meu pai e o meu cunhado, mas a conversa deles parecia vir de muito longe. À noite o Benjamim apareceu e fomos até aos lados da casa da Dila. Ficámos ali perto de uma hora, sem a ver, só com a lua a espreitar pelas telhas e o nosso silêncio a pensar por nós.

Na quinta-feira a manhã trouxe uma inquietação leve. Fui à procura da Dila mas deparei-me apenas com o pai dela. O homem fitou-me de lado, como quem reconhece um rosto que preferia não rever. Engoli em seco e segui caminho, fingindo naturalidade. À tarde o Benjamim veio duas vezes, duas investidas rápidas, como quem empurra o tempo para ver se ele cede. À noite fomos os dois para os lados da casa dela. Esperámos longamente. Por instantes vi-a, um relance fugidio, quase um truque da luz. Tive a impressão de que me olhava, ou talvez fosse apenas o meu coração a inventar consolos. Depois deixou de aparecer. Vim embora devagar, a pensar no absurdo que é amar alguém que raramente se deixa ver e, ainda assim, nos ilumina as horas todas.

Na sexta-feira a manhã nasceu quente e baça. Eu e o Manel fomos procurar a esperança ao mesmo sítio de sempre. Esperámos muito, tanto que já me via a regressar com aquele peso mole no peito. Mas algo em mim disse para ficar mais um minuto. Só mais um.

E esse minuto foi o milagre do dia.

A Dila surgiu como quem acende uma luz com um gesto simples. Meia hora que soube a tarde inteira.

— Pensei que hoje não vinhas. Estive aqui bem… desde sempre.

— Desde sempre? Isso é a que horas?

— Antes do sol acordar. Ou quase. Eu só queria ver-te. Parece que, se não te vejo, o dia não corre bem.

Ela baixou os olhos num recato tão doce que me dava vontade de tocar o céu.

— Tu dizes essas coisas assim, tão facilmente. Às vezes pareces tu o mais novo.

— Só se for no coração. Não consigo esconder o que sinto. Quando te vejo fico com vontade de te contar tudo. E depois fico sem saber o que fazer às mãos ou às palavras.

— Eu gosto de te ouvir. Mas assusta-me um bocadinho quando és tão directo. Eu não sei falar como tu.

— Não precisas. Basta apareceres. O resto eu adivinho.

— Pois, mas às vezes parece que adivinhas demais.

— Culpa tua. Andas aí a sorrir assim e queres que eu fique calado?

Ela riu, baixinho, aquele som breve que parecia sempre curto demais.

— És impossível, António.

— Eu sei. Mas se fosse possível, tu notavas-me na mesma?

Ela hesitou. Um rubor ascendeu-lhe à face. Riscou o chão com a ponta do sapato, respirou devagar, e só depois levantou os olhos.

— Notava, sim.

E eu fiquei ali, com a alma toda a fazer força para não explodir. De tarde fui a casa do Manel. Falei um pouco, o tempo a escorrer sem grande ruído. Mas por dentro ainda estava na manhã, naquele breve encontro que me salvou o humor, a alma, e mais um bocado do Verão.

No sábado a manhã passou-se entregue à leitura. Pouco depois do meio-dia levantei os olhos da página. Lá estavam elas, a Dila e a irmã, a caminhar calmamente. Corri porta fora, calcei-me às pressas e fui atrás delas.

— António? Que surpresa.

— Não pensei que te encontraria tão cedo.

— Nem eu esperava ver-te. Estavas a fazer o quê?

— Ler. Mas o livro perdeu a graça assim que te vi.

A irmã dela riu baixinho e a Dila fez um gesto leve para a calar, olhando-me de novo.

— Então agora vais acompanhar-nos?

— Se me deixares.

Ficámos em silêncio por uns metros. Depois ela falou.

— Sabes, às vezes é bom simplesmente andar sem pressa, sem planos, só andar.

— É verdade. Mas contigo por perto até a caminhada parece mais longa e mais curta ao mesmo tempo.

Acompanhei-as até onde pude. Cada gesto dela parecia pequeno mas carregado de significado, o jeito com que segurava a mão da irmã, a forma como desviava o cabelo do rosto, o riso leve que escapava sem esforço. Quando chegou a hora de nos separarmos senti uma mistura de alegria e ansiedade que só ela conseguia provocar.

— Até à próxima, António.

— Espero que seja bem mais cedo.

No domingo a manhã arrastou-se lenta e eu permaneci deitado entre o calor dos lençóis e a inquietação que não sabia nomear. Pensava na Dila, nas tardes passadas à sua espera, nas conversas, nos sorrisos. Cada memória surgia com intensidade exagerada. À tarde o Manel apareceu duas vezes, breves visitas que me tiraram do mundo interior. À noite quando os meus pais saíram fiquei sozinho, sentado junto da janela, contemplando a luz difusa da rua e as sombras que o luar projectava.

Aceitei finalmente que a intensidade com que me deixava envolver não era sinal de experiência ou maturidade, mas da própria adolescência, do corpo que desperta, da mente que se perde, do coração que ainda não sabe distinguir entre realidade e fantasia. E mesmo no meio da confusão senti-me vivo. Um passo de cada vez, pensei, porque cedo ou tarde aprenderei a decifrar este coração imberbe.


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