Entre o que sonhei e o que calo

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Quinta-feira, 27 de Janeiro de 1977

Esta noite viajei por sonhos de fantasia. Foram momentos que guardarei para mim. Há coisas destinadas a ficar no escuro da noite.

A manhã despertou-me com o sol a entrar no meu quarto, desenhando sombras no balancear das cortinas da janela entreaberta. Fiquei ali uns instantes, deitado, a olhar esse movimento lento, como se o tempo tivesse abrandado só para mim. Sentia-me leve, como se ainda não tivesse regressado por completo.

Saí à rua com esse resto de sonho colado ao corpo.

O senhor Fernando, sapateiro, já tinha a loja aberta. O Raque e o Zé Caseiro expunham as frutas e os legumes à porta. Cumprimentei-os de passagem, sem parar. Segui caminho. A junta ainda estava fechada. No adro da igreja não se via vivalma, mas pela porta entreaberta vinha a ladainha das rezas, baixa, contínua, como um murmúrio antigo.

Mais abaixo, o chiar das charruas puxadas por bois enchia o ar. O cheiro da terra desbravada subia forte, húmido, quase quente. Em alguns campos, o fumo das queimadas erguia-se devagar, espalhando-se num odor que se colava à respiração.

Fixei-me nisso tudo mais do que o necessário. Como se olhar me impedisse de pensar.

Lá estava ela.

A Dila.

Sorria quando me viu chegar, e esse sorriso bastou para me puxar de volta.

Aproximei-me. Senti o corpo leve, mas por dentro havia qualquer coisa a crescer, uma vontade súbita de a agarrar, de a tirar do chão, de a rodopiar até perder o sentido das coisas.

Fiquei-me pelo sorriso.

Ela olhou-me com atenção.

- Hoje parece que dormiste bem. Está muito sorridente.
- É verdade. Dormi muito bem… — fiz uma pausa — e estou sorridente porque já estou contigo.

Corou ligeiramente, mas não desviou o olhar.

- Então é sinal que tiveste bons sonhos.
- Agora lês pensamentos? — hesitei — É verdade. Tive sonhos que não posso contar…

Ela ficou a olhar-me, presa entre o querer saber e o receio de perguntar. Nesse momento, o trólei chegou e abriu espaço entre nós.

Seguimos viagem.

Durante algum tempo não disse nada. Olhava pela janela, mas não via. Sentia-a ao meu lado, próxima, demasiado próxima para me ser indiferente.

- E então, o que esse teu sonho tem de tão secreto? — perguntou, por fim, num tom baixo.

Demorei a responder.

- Não tem nada de secreto… — parei — foi um sonho muito… privado.

Ao dizer isto, senti que a palavra não chegava. Ficava aquém do que tinha sido.

Ela percebeu.

O rubor subiu-lhe devagar às faces. Não disse nada de imediato.

- Se não me consideras a tua confidente, então não precisas de me contar.

O pequeno amuo, o beicinho quase imperceptível… prendeu-me mais do que devia.

- Também me contas os teus sonhos mais… privados?
- Se os tiver, sim.
- Então quer dizer que nunca sonhaste comigo?

Ela sorriu, rápida.

- Apanhei-te.

Fiquei sem saída.

- Sim… foi contigo.
- Então o que é que não podes dizer?… — mal acabou a frase, arrependeu-se — Se não queres dizer, então não digas.

As mãos dela inquietaram-se. Passou a língua pelos lábios secos. Evitava o meu olhar.

- Não te zangues comigo… — disse baixo — deixa-me só encontrar a forma de te contar. Não tenho segredos para ti.

Acompanhei-a ao liceu com essa promessa suspensa entre nós.

A manhã passou sem passar.

As aulas não me prenderam. O corpo estava lá, mas eu não. O coração batia alto demais, como se marcasse um tempo que eu não conseguia seguir. As palavras fugiam-me. A boca secava.

Tudo me levava de volta ao mesmo ponto.

Saí sem pressa. Não sabia como dizer sem trair o que tinha sentido… nem como esconder sem a perder.

Ela esperava-me à porta.

O sorriso era mais contido. Os olhos não.

Entrámos no Bonfim e subimos ao primeiro piso. Sentámo-nos atrás. Havia pouca gente. O silêncio instalou-se entre nós, pesado.

Ela não falou. Esperava.

- Ainda estás zangada comigo?

Olhou-me de frente, sem fugir.

- Não tenho motivo para estar zangada… mas estou com uma enorme curiosidade.

Engoli em seco.

- Foi contigo que sonhei.

Esperei qualquer reacção. Ela manteve-se imóvel.

- Sonhei que estávamos os dois junto ao mar…
- Prometes que não te zangas comigo? Foi apenas um sonho…
- Prometo.

Respirei fundo.

- Estava calor. Caminhávamos descalços. Tu trazias aquele vestido azul… — parei — estavas… diferente. Mais próxima.

Ela não desviou o olhar.

- O sol estava a pôr-se. Sentámo-nos na areia… lado a lado… de mãos dadas.

Senti esse momento de novo, com uma nitidez que me inquietou.

- Havia uma música no ar… — a voz falhou-me por um instante — encostaste a cabeça ao meu ombro…

Fiquei preso ali.

Lembrei-me do peso leve da cabeça dela. Do calor.

- Eu… — hesitei — levantei a mão…

Parei.

- Não sei bem porquê… — continuei mais baixo — talvez porque não consegui ficar quieto…

Aproximei a mão dos teus ombros. - No sonho, naquele instante, tudo parecia demasiado claro.

- Toquei-te… devagar… como se não tivesse a certeza de poder fazê-lo.

- Senti o teu corpo sob a minha mão. Não te afastaste.

- Isso foi o que mais me perturbou.

- Fiquei assim… sem saber se devia retirar a mão… ou deixá-la ficar…

A respiração dela mudou, quase imperceptível, mas senti-a sob a minha mão.

- E depois… — parei — levantámo-nos.

Não consegui ir mais longe.

- Dançámos… até aparecerem as primeiras estrelas.

O resto ficou preso dentro de mim.

Procurei os olhos dela.

Brilhavam. Havia ali qualquer coisa nova, que eu não sabia ler por completo.

Os lábios entreabriram-se, como se fosse dizer algo… mas não disse.

- António… foi um sonho lindo.

A forma como disse isto desarmou-me.

- Não sei o que te levou a pensar que me podia zangar contigo… — fez uma pequena pausa — entendo que tenhas esse tipo de sonhos.

Baixei o olhar.

- Perturbou-me.
- Imagino… — disse — és mais romântico do que pensava.

Houve um silêncio.

- Ainda somos muito jovens para… — parou, escolhendo as palavras — para certas coisas.

Olhei-a.

- Nós não somos assim.

A frase ficou entre nós, firme.

- Talvez tenhas razão… — disse devagar — mas não consigo evitar pensar em estar contigo…

Respirei fundo.

- Mesmo que isso fique por aqui.

Ela olhou-me com uma suavidade que não era recuo.

Chegámos.

Estendeu-me a mão. Segurei-a. Um pouco mais do que devia.

Desta vez, não a largou de imediato.

Foi ela que decidiu o momento.

Depois afastou-se.

A mãe surgiu de repente. Ela correu para ela, compondo o rosto, como se nada tivesse acontecido.

Fiquei a vê-la ir.

Subi a quelha sem olhar para trás.

Almocei, li, saí… mas nada disso aconteceu verdadeiramente.

Fiquei preso naquele instante.

Naquele quase.

“Ainda somos muito jovens…”

A frase repetia-se, mas já não soava igual.

A noite caiu sem aviso. A chuva começou a bater nos vidros. A trovoada trouxe-me de volta ao corpo.

Fiquei a ouvir.

E percebi que há coisas que não acontecem… não por falta de vontade, mas porque ainda não sabemos o que fazer com elas.

Hoje aprendi isso.

Que o que senti não cabia ainda em nós.

E que, às vezes, o mais difícil não é avançar.

É parar.


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