O que ficou no ar entre nós
Quarta-feira, 26 de Janeiro de 1977
O dia de ontem fechou-se com um gosto doce que não soube guardar. A noite demorou a chegar. Fiquei preso ao que ficou por dizer. Quando adormeci já o cansaço era mais do corpo do que da cabeça.
Acordei pesado. Como se o dia não me quisesse. Levantei-me à força e o frio da rua tratou de me acordar de vez. A Dila já devia estar na paragem. Corri.
Lá estava ela. Quieta. Como se estivesse noutro lugar. Quando me aproximei, sorriu.
— Bom dia Dila. Estou novamente atrasado. Desculpa...
— Bom dia António. Não te preocupes, eu espero o tempo que for preciso.
Ficámos ali, sem saber o que fazer com o silêncio. Ela olhava-me como quem procura uma resposta antes da pergunta.
— Estás outra vez com olheiras... isso está a tornar-se um hábito. O que foi desta vez?
— Dormi mal, foi o que foi...
Ela não desviou o olhar.
— Depois da nossa conversa de ontem... — comecei — ficou-me cá dentro um peso.
— Sim? Porquê?
— Fiquei com a sensação que não gostaste do meu pedido.
— Não fiques com essa ideia. Apenas sou cautelosa.
— Eu sei... mas pareceu-me que pensaste mal de mim.
— Creio que te conheço o suficiente para saber que não me farias mal.
Fiquei em silêncio. Aquilo chegou-me mais fundo do que esperava.
— Obrigado. Precisava de ouvir isso.
A mão dela pousou no meu braço. Leve. Quase sem peso. Aproximou-se e o mundo ficou mais pequeno.
— Sei que será muito bom quando tivermos essa oportunidade... — disse, num sopro junto ao meu ouvido.
O coração perdeu o ritmo. Olhei-a. Ela não disse mais nada. Não era preciso.
A viagem passou depressa demais. Ia ao meu lado, a falar de coisas simples. Eu via-lhe os lábios a mexer e ficava por aí. Quando a deixei no liceu, levei o corpo para as aulas. A cabeça ficou com ela.
Esperei-a à saída. As alunas saíam em massa, como se o dia acabasse ali. E no meio delas, ela. Mais leve. Mais clara. Ainda não me tinha visto.
Quando me viu, sorriu como se nada tivesse passado.
Havia outros casais à volta. Mais ousados. Mais livres. Nós ficávamos no nosso espaço. Perto. Mas com cuidado. Como se cada gesto tivesse um peso maior do que devia.
No regresso parámos à porta do Manel. Trinta minutos que passaram sem pressa. Era o nosso tempo. Sem mais ninguém.
Depois, como sempre, um “até amanhã”.
De tarde fui para o CRM. Trabalhei. Arrastei móveis, mexi em papéis, inventei tarefas. Mas a cabeça não ficou quieta. As palavras dela voltavam, sempre iguais.
“Sei que será muito bom...”
Por vezes parava. Sem razão. Só para voltar a sentir aquele instante. O sussurro. O arrepio. Como se o corpo se lembrasse antes de mim.
A tarde passou. Mas eu ainda estava de manhã.
A noite chegou com a promessa de descanso. E com ela, a certeza de que amanhã tudo recomeça.
Hoje percebi que há coisas que não precisam de acontecer para começarem a mudar-nos. Basta um gesto. Um olhar. Ou uma frase dita quase em segredo. E ficamos diferentes, mesmo sem saber explicar porquê.
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