O dia em que o coração se adiantou ao tempo
Terça-feira, 25 de Janeiro de 1977
Há dias que parecem nascer já com destino traçado. Este acordou assim, com uma inquietação que não compreendia.
Levantei-me cedo, sem pressa. Saí para a rua ainda meio dentro de um sonho. O frio acordou-me o corpo, mas a cabeça resistia, presa noutra parte qualquer.
Na paragem, ela.
A Dila estava lá. Trazia um vestido azul e um casaco de malha bege. O cabelo solto, a mexer com o vento como se tivesse vontade própria.
Sorriu quando me viu. Senti o coração a tropeçar em si mesmo.
Aproximei-me. Sem pensar demasiado, encostei o ombro ao dela. Inclinei-me, levei os lábios ao seu ouvido. Senti-a retrair-se, quase um recuo instintivo.
— Bom dia Dila… não fujas… — murmurei — só te quero dizer que estás muito bonita hoje.
Fiquei eu próprio surpreendido com o que tinha acabado de fazer.
Ela olhou-me em silêncio, ainda a recompor-se.
— Não me assustei… fiquei só surpreendida… — fez uma pausa curta — não sabia o que ias fazer…
— Surpreendida?
— Sim… pensei que… — corou — te tivesses desequilibrado…
Desviou os olhos.
Senti o calor subir-me ao rosto. Se alguém nos tocasse naquele momento, queimava-se. O trólei chegou como uma espécie de salvação discreta.
A viagem seguiu calma. Falámos de música, de televisão, de coisas leves. Como se nada tivesse acontecido. Mas havia sempre qualquer coisa suspensa no ar.
O cheiro do cabelo dela ficou-me. E aqueles fios soltos que me tocaram na face à revelia.
Deixei-a no liceu. Continuei para o meu.
O corpo foi, mas não fui inteiro.
As aulas arrastaram-se. O tempo parecia preso. As mãos não paravam quietas, como se procurassem alguma coisa que não sabiam o que era. Os professores falavam, mas as palavras passavam ao lado. Eu tinha ficado na paragem, no ombro encostado ao dela.
Quando as aulas terminaram, saí quase sem dar conta. O almoço não teve sabor. A rua puxava-me.
Ela apareceu, no seu passo leve. Sorriu.
Senti-me perdido.
— O que se passa António? Aconteceu alguma coisa?
Queria dizer tudo. As palavras ficaram presas.
— Tenho uma coisa para te dizer, Dila…
Ficou séria.
— Fiz alguma coisa…?
— Não… não é isso…
— Então?
Olhava-me de frente. Não havia fuga possível.
— Gostava… que passássemos mais tempo juntos…
O silêncio que se seguiu pesou.
— Mais tempo? Como? — perguntou, quase incrédula — em S. Pedro é arriscado… só temos estes momentos…
Respirei fundo.
— Há uma forma… quando estamos no Porto… às vezes os professores faltam… podíamos… nesses dias… ficar a manhã para nós…
Disse-o e baixei os olhos. Como se o chão fosse mais seguro do que o olhar dela.
Demorou a responder.
— Já chumbei o ano passado… — disse por fim — os meus pais não me perdoam outra vez…
Cortei-lhe a frase, quase em pânico.
— Tens razão… desculpa… nem sei o que pensei…
Ela abanou ligeiramente a cabeça.
— Não estou a dizer que não… mas só quando faltem professores… aos dois…
Foi o possível.
Quis abraçá-la. O corpo pediu, com uma força quase absurda. A cabeça segurou-me.
Ficou combinado assim.
Acompanhei-a até perto de casa. Quando se despediu, estendeu-me a mão. Segurei-a com cuidado, como se fosse algo frágil.
E, no entanto, tudo em mim se desordenava.
Cada gesto parecia novo. Cada sensação, uma descoberta.
A tarde não passou, arrastou-se. Tentei ler, ouvir música. Nada me prendia. O pensamento voltava sempre ao mesmo lugar.
Amanhã.
A palavra tinha peso.
Fui para a Academia ao fim da tarde. O treino trouxe-me de volta ao corpo, ao chão, ao ritmo certo da respiração. Como se alguém me tivesse puxado de dentro de mim.
No fim, uma surpresa. Fui graduado em 6º Kyu. Uma fita verde. Um pequeno passo.
Guardei-o como quem guarda uma vitória discreta.
Agora, ao escrever, sinto que o dia não foi apenas um dia.
Foi um desvio.
Uma linha que se abriu no caminho habitual. Não sei ainda onde leva, mas sei que já não posso fingir que não existe.
Hoje percebi que o coração não espera pelo momento certo.
Adianta-se.
E depois é a vida que tem de o alcançar.
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