Sob a chuva, o que não ousei dizer
Segunda-feira, 24 de Janeiro de 1977
O dia nasceu cinzento, enrolado numa névoa que escondia as serras. Saí de casa sem pressa, mas com a cabeça adiantada no tempo. Desde sábado que não sabia como ela me iria olhar.
Ao virar a esquina, vi-a a descer a rua, leve, como se o frio não lhe tocasse.
— Dila!...
Voltou-se e sorriu como sempre. Aproximei-me mais depressa do que queria mostrar. Já não estava pálida. Respirei fundo. Talvez não houvesse nada para dizer.
— Olá António. Vens todo sorridente...
— Claro... está um dia lindo...
— Um dia lindo? Com este frio e humidade? Estás novamente no mundo da lua?
— Eu estou sempre no mundo da lua... quando estou contigo...
Ela sorriu, com aquele jeito de quem já me conhece antes de eu acabar a frase.
— És sempre o mesmo. Então é por isso que está um dia lindo?
— Tiraste-me as palavras da boca... Quando estou contigo o sol aparece sempre.
— Pois... quero ver quando começar a chover...
No trólei, deixei o assunto morrer. A minha mãe tinha razão. A Dila falava, ria, saltava de tema em tema como se o mundo fosse leve. Eu ouvia-a e ficava preso no movimento dos lábios, no brilho dos olhos. O tempo passava sem dar por ele.
Saímos no Bonfim. O céu fechava-se. Apressámos o passo. Um “até logo” ficou suspenso entre nós, como se ainda houvesse mais para dizer.
Quando saí do liceu, a chuva já caía sem piedade. Corri até ao dela. Estava à minha espera.
— Porque vieste? Podias ter esperado que a chuva parasse?
— E deixava-te ir à chuva... sozinha? — sorri — Assim vais acompanhada.
Corremos rua acima. Não vencemos a chuva, mas também não nos rendemos. Encostámo-nos a uma parede. Ela ficou junto ao muro. Eu à frente, com a capa dos livros a tentar proteger-lhe o rosto.
No trólei, percebemos o estado em que estávamos. O cabelo dela caía em fios desfeitos sobre os ombros. Pequenas linhas de água desciam-lhe pela testa.
Sem pensar muito, tirei o lenço. Ela ergueu o rosto. Fiquei preso nos olhos dela mais tempo do que devia. Só depois consegui abrir o lenço.
Passei-o devagar pela testa, pela face. Demasiado devagar. O mundo à volta afastou-se. Os solavancos, as vozes, tudo ficou longe.
Quando dei por mim, a minha mão estava nos cabelos dela. Parei. Não avancei, não recuei. Fiquei ali, suspenso.
Ela sorriu.
O calor subiu-me ao rosto. Não consegui esconder.
Saímos em S. Pedro. Abrigámo-nos numa mercearia. A dona emprestou-nos um guarda-chuva pequeno demais para dois. Caminhámos juntos, apertados naquele espaço curto.
Pensei em pôr o braço sobre os ombros dela. Não o fiz. Havia sempre essa linha invisível que eu não atravessava.
Ficámos algum tempo à porta da casa do Manuel, à espera que a chuva abrandasse. Não abrandou.
Disse-lhe para ficar com o guarda-chuva. Despedimo-nos. Corri pela quelha acima, com a chuva a bater-me nas costas.
A tarde ficou presa ao vidro da janela. As gotas desciam devagar, e em cada uma via o rosto dela. Tentei estudar, mas não saí do mesmo lugar.
Toquei-lhe na face. E ela não recuou.
Foi isso que ficou.
A noite chegou sem aviso. Só voltei ao presente quando a minha mãe me chamou para jantar.
Hoje percebi que há gestos que dizem mais do que tudo o que se pode dizer. E que, às vezes, o que não fazemos pesa mais do que aquilo que fazemos. Talvez o amor comece exactamente aí, nesse instante em que o coração avança e o corpo fica para trás.
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