O dia que coube inteiro em mim
Domingo, 23 de Janeiro de 1977
Hoje foi um daqueles dias em que o mundo se afastou um pouco e eu fiquei a ouvir-me.
A quebra da rotina deixa sempre um travo estranho, como se algo faltasse no lugar certo. Ainda assim, havia dentro de mim uma vontade quieta de não preencher esse espaço.
A Dila esteve comigo o dia todo, como está sempre. Às vezes basta um pensamento para me mudar o humor. Hoje não lutei contra isso. Deixei-a ficar, como quem aceita uma presença que já não se estranha.
De manhã, demorei-me a perceber que o dia não tinha dono. Era só meu. Não havia nada marcado, ninguém à espera, nenhum desvio.
A torre da igreja chamou para a missa das onze. Vi as pessoas a caminhar no mesmo sentido, como se o domingo tivesse uma direcção certa. Esperei que passassem.
Saí depois.
O ar frio entrou-me fundo no peito e acordou-me melhor do que qualquer pressa. Subi a rua devagar, escolhendo não ir por onde todos iam. O caminho estreito devolvia-me o som dos passos e isso bastava.
Segui para o Alto do Depósito como quem sabe onde quer chegar sem ter de pensar muito. O mato ainda guardava a geada da noite e o sol começava a insinuar-se por entre os pinheiros, levantando uma névoa leve que parecia respirar.
Encontrei a pedra de sempre. Sentei-me encostado ao tronco e deixei o calor chegar aos poucos.
Ali não precisava de a ver. Bastava saber que ela existia no mesmo mundo que eu. Por momentos imaginei-a a caminhar por aquele mesmo caminho, a ajeitar o cabelo com o frio, a olhar em volta como faz quando não sabe o que dizer. Sorri sem querer.
Fiquei até o som das horas, vindo do vale da mina, me puxar de volta.
À tarde deixei-me ficar em casa. Música baixa, um livro aberto nas mãos. Li sem pressa, mais a sentir as palavras do que a segui-las. A certa altura adormeci. Não sei quanto tempo. Hoje não importava.
O dia foi-se esvaziando sem ruído. Não houve nada de especial e talvez por isso tenha sido inteiro.
Senti a falta dela, mas não me doeu. Era uma ausência leve, como uma sombra que não incomoda.
Foi um dia de liberdade.
E percebo agora que estes dias são necessários. Não para esquecer o que sinto, mas para lhe dar espaço. Para que aquilo que existe entre nós não se desgaste no excesso, nem se perca no silêncio. Hoje não a tive, mas também não a perdi. E isso, de certa forma, basta.
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