O que o corpo cala

Sábado, 22 de Janeiro de 1977

Acordei devagar, como se o dia não tivesse pressa. Um melro cantava algures e o som entrava-me pelos ouvidos como uma promessa tranquila.

Levantei-me ainda com o sono agarrado aos olhos. O café com leite aquecia-me as mãos, o cheiro subia leve. O pão vinha quente da padaria, a manteiga rendia-se ao calor e escorria sem resistência.

Saí para a rua. O frio recebeu-me de frente. Encolhi os ombros, mas não abrandei. Havia um motivo que puxava por mim, mais forte do que o Inverno.

Ela estava lá.

Quieta, perdida num ponto que não era o mundo à sua frente. Cheguei perto sem que desse por mim.

- Um tostão pelos teus pensamentos.

Sobressaltou-se, recuou um pouco, depois sorriu ao reconhecer-me. Mas o sorriso não ficou inteiro.

- Olá António, não te vi chegar.

A voz vinha mais baixa, como se estivesse noutro sítio.

- Estás bem?
- Dói-me um pouco a cabeça... nada demais...

O trólei chegou. Subimos. Sentámo-nos juntos, mas ela virou-se para a janela. Ficou ali, presa ao que passava lá fora.

Olhei para ela mais tempo do que devia. Havia qualquer coisa desalinhada. Não era só o silêncio.

- Estás aborrecida comigo? Fiz alguma coisa que não devia?

Ela voltou-se. Tentou sorrir. Ficou a meio.

- Não António,.. dói-me mesmo muito a cabeça...
- Tomás-te alguma coisa? No Bonfim tem lá uma farmácia...
- Não estejas preocupado que isto passa... daqui a dois ou três dias...
- Dois ou três dias? Vais andar assim esse tempo todo?
- Sim... já é normal...
- Normal andares com dores da cabeça? Acho que devias ir ao médico...

Ela abanou a cabeça com um sorriso curto.

- Isto não é coisa que o médico possa fazer alguma coisa...

Fiquei sem resposta. Aquilo não encaixava.

- Estás a deixar-me maluco. Como podes dizer que vais sofrer três dias e que isso não é nada? Não aceito. Vamos à farmácia.

Corou. Baixou os olhos. Ficou por dizer o resto.

No Bonfim não cedeu. Acompanhei-a até ao liceu. A manhã, que prometia calma, perdeu-se algures no caminho.

Nas aulas, o corpo estava na cadeira. O resto andava à volta dela. Quando o professor de Ciências faltou, não pensei. Fui.

Encontrei-a num recanto do pátio, sentada, recolhida em si.

Sorriu quando me viu.

- Ainda bem que vieste António. Esqueci-me de te dizer para não esperares por mim depois do almoço. Vou com a minha mãe fazer umas compras à baixa.

O toque chamou-a. Levantou-se. Ficaram-me as palavras que não disse.

Voltei para S. Pedro com um peso miúdo que não saía. Em casa, a minha mãe olhou para mim como quem lê por dentro.

Disse-lhe que não era nada. Não acreditou.

Acabei por lhe falar da Dila. Ela ouviu, pousou-me a mão no ombro e sorriu com uma calma que não entendi.

Disse-me que era normal. Que as mulheres, às vezes, tinham dias assim. Uma vez por mês. Que eu ainda não percebia.

“Um dia vais compreender.”

Pediu-me apenas que não fizesse muitas perguntas.

Fiquei ali, a meio caminho entre saber e não saber. Mas mais leve.

De tarde fui para o Centro. Organizei o arquivo, folha a folha, como se arrumasse também a cabeça. O tempo passou sem dar por ele.

À noite, o cansaço fez o que eu não consegui. Silenciou tudo.

Amanhã, pensei, talvez veja melhor aquilo que hoje me escapou.

Hoje aprendi que nem todas as dores se explicam. Algumas pedem apenas que fiquemos ao lado, sem perguntar demasiado. E talvez seja isso que começa a separar um rapaz de um homem.


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