Receios infundados e o toque da tua mão
Ontem deitei-me com uma inquietação que não me largou. Dormi pouco. Quando a manhã chegou, já eu tinha desistido de lutar contra os pensamentos.
A minha mãe encontrou-me de pé, com o pequeno-almoço já tomado.
- Estás com umas olheiras? Não dormiste? - perguntou
- Está tudo bem, acordei mais cedo.
Saí antes que viessem mais perguntas.
O ar fresco ajudou-me a clarear. Daqui a pouco estaria com a Dila. Era só isso que importava.
Ela estava lá. Como se nada pudesse falhar quando sorria.
- Olá Dila, como estás? Está tudo bem contigo? Não aconteceu nada ontem? - disse quase sem respirar
- Sim, claro. Porque não havia de estar?
O peso saiu-me do peito.
- Estava com receio que alguém nos tivesse visto ontem, no largo da farmácia, e fosse dizer aos teus pais.
- Não aconteceu nada. Ninguém nos viu. Não precisas de estar assim.
- Tens razão. Sou um exagerado.
- Agora reparo... não estás com boa cara. Estás doente?
- Não é nada...
Ela aproximou-se e pousou a mão na minha testa. Estremeci.
- Estás com febre? Será gripe?
- Não... só dormi mal.
- Porquê?
Hesitei um instante.
- Estava preocupado contigo.
Ela olhou-me com uma ternura que me desarmou.
- És um exagerado... mas gosto de saber que te preocupas comigo.
- Sempre que há a mínima hipótese de te acontecer alguma coisa...
- Então espera por mim para te libertares dessas preocupações.
- Se houvesse maneira de falar contigo nesses momentos...
Ela sorriu, com aquele brilho de quem já decidiu brincar.
- Pombo correio.
- O quê?
- Arranja um pombo correio.
Fiquei a olhá-la.
- Estás a brincar comigo.
- Não leves tudo tão a sério, António. Queres que me zangue contigo?
- Não. Nem penses nisso. Faço o que disseres.
- Então promete que não voltas a exagerar.
- Prometo.
Disse-o baixo. E era verdade, naquele momento.
Havia nela uma calma que me punha no lugar.
Seguimos até ao Bonfim. Acompanhei-a ao liceu. As aulas passaram depressa, quase sem peso. Faltaram professores, como se o dia nos estivesse a dar tempo.
Fui ter com ela. Estava com uma colega, a Gisela, que se apresentou como guarda-costas. Rimo-nos.
Saímos os três sem destino. Parávamos nas montras, elas comentavam as saias, riam-se das modas que não aprovavam. Fui ficando em silêncio, a ouvi-la. Havia qualquer coisa na forma como falava que me prendia mais do que qualquer conversa.
Depois do almoço voltámos a S. Pedro. Fui quase todo o caminho calado, mas não por falta de palavras. Bastava-me estar ali, ao lado dela.
Despedi-me perto de casa. Voltei ao meu mundo.
A tarde passou no CRM, mas fiquei preso à manhã. Como se uma parte de mim ainda estivesse naquele instante em que a sua mão me tocou.
Mais tarde fui para a Academia. O corpo cedeu ao esforço, a cabeça acalmou.
Agora, com o diário aberto, tento guardar o que ficou.
Hoje percebi uma coisa simples. A minha inquietação nasce do medo de a perder. E o que me acalma não são respostas, é a presença dela. Talvez seja isto que nos liga, não o que dizemos, mas o que não conseguimos dizer e ainda assim fica entre nós.
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