O que cabe num sorriso
Quinta-feira, 20 de Janeiro de 1977
Os dias parecem seguir um fio certo e isso tranquiliza-me. As manhãs repetem-se sem esforço, como se já soubessem o caminho antes de mim.
Fui sem pressa para a paragem. Era cedo. A Dila ainda não tinha chegado. Dei por mim a imaginar como viria vestida. Quase sempre os jeans, a blusa simples, o casaco de malha. E depois há o que não muda, aquele sorriso que me desarma e me puxa para dentro de mim.
Estava perdido nisso quando senti uma mão no braço.
- Bom dia António. Estás muito sonhador hoje que nem deste conta que estava ao teu lado.
Olhei para ela. O sorriso abriu-se devagar. Sorri também.
- Tens razão Dila... Estava a sonhar...
- Sim? Com quê ou com quem?
- Como se não adivinhasses... Contigo...
Ela não recuou.
- Agora sonhas acordado... se sabias que estava para chegar porque haverias de sonhar... comigo?
- Fantasiava...
- Fantasiavas? — disse, com um receio leve na voz.
- Sim. Imaginava... de que forma me irias encantar hoje...
Corou. Hesitou.
- Eu... encanto-te?... De que forma te surge esse encantamento?
- Desde que apareças e tragas esse sorriso... fico rendido.
Ficou em silêncio por um instante.
- Tenho todos os motivos para sorrir quando... — baixou os olhos — quando estou contigo.
O impulso veio e ficou a meio. Não a abracei.
Seguimos viagem em silêncio. Só os solavancos nos aproximavam, às vezes de surpresa, e nesses instantes trocávamos um sorriso cúmplice, como se ninguém mais existisse.
As aulas foram interrompidas aqui e ali por faltas de professores. Procurei-a nos corredores do liceu dela. Passei, voltei a passar. Não a encontrei.
Depois das aulas estava junto ao portão à minha espera. O sorriso dela, mais aberto do que o costume, como se me tivesse guardado aquele momento.
Na paragem do trólei, um carro parou diante de nós. Era um médico do Largo da Farmácia, perto de casa dela. Convidou-nos a entrar. Hesitei. Olhei para ela. O olhar dela pediu cautela. Ele insistiu.
Entrámos, um pouco rígidos. A viagem foi curta, mas pesada. Ao chegarmos, pedi-lhe que não referisse que eu vinha ali. Ele percebeu e anuiu com um sorriso discreto.
Ela saiu quase a correr. Não queria ser vista. Nem por vizinhos, nem pela mãe.
Depois do almoço fui para o Centro. Estive lá, mas não estive. Os papéis fugiam-me das mãos. Andava pelos corredores sem saber bem porquê. A cabeça estava com ela, presa naquele carro, naquele receio.
Voltei para casa com um peso que não sabia explicar.
No quarto, o silêncio fechou-se à minha volta. Pensei nela. No que poderia correr mal. No que já estava a correr.
A noite promete ser longa.
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