O silêncio onde tudo cabia

Quarta-feira, 19 de Janeiro de 1977

Hoje o dia passou sem esforço, como se o mundo tivesse acertado o passo com o meu. Acordei leve, sem pressa, com a tranquilidade de ontem ainda pousada em mim.

Descia a rua no caminho de sempre, distraído, quando apanhei o Manel e mais adiante a Dila. O sol abria o dia e nós entrámos nele a rir, como se fosse nosso. Entre palavras e brincadeiras, olhava-a em silêncio. Havia momentos em que o coração se recolhia, quase quieto, para não estragar aquilo que se desenhava à minha frente.

Seguimos assim, embalados, sem precisar de muito. Eu não escondia o que sentia, também não sabia. E ela olhava para mim e sorria, como se dissesse o suficiente sem dizer nada.

A manhã passou por mim sem resistência. Estive lá, mas por dentro estava noutro lugar, mais próximo dela do que de tudo o resto.

De volta a S. Pedro, sentámo-nos perto demais para ser indiferente. Falámos de coisas simples, aulas, professores, colegas. Ela falava e eu perdia-me nos olhos dela, deixando as palavras pousarem devagar. Quando nos despedimos, foi rápido, mas ficou mais do que o tempo que durou.

Depois de almoçar fui para o CRM. Fiz o que havia a fazer, entre papéis, pastas e registos. O corpo cumpria, a cabeça mantinha-se serena, como se aquele sossego não quisesse sair de mim.

O dia terminou sem sobressaltos. Cheguei a casa e descansei. O corpo apenas. A mente não precisava. Ficou onde tinha estado o dia inteiro, num lugar tranquilo, onde bastava um sorriso para tudo fazer sentido.

No fim, percebo que há dias assim, quase invisíveis, onde nada acontece e, ainda assim, tudo se confirma. Não foi um dia de grandes gestos. Foi um dia em que estivemos, e isso chegou.


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