Duas fotografias no bolso
Terça-feira, 18 de Janeiro de 1977
Depois do dia intenso de ontem, dormi profundamente. Acordei com a luz a subir pela parede do quarto, lenta, a tocar os móveis como se os fosse reconhecendo. Fiquei um instante deitado, a sentir o calor preso nos lençóis e o frio do ar fora deles.
Levantei-me sem pressa. O tempo, naquele instante, não me apertava.
Depois de um pequeno-almoço simples, desci a rua em direcção à paragem. O vento de norte vinha direito ao peito e obrigava-me a encolher-me dentro do kispo. As mãos frias, o rosto acordado à força.
Quando cheguei, a Dila estava com a irmã. Cumprimentámo-nos com uma formalidade que não era nossa. Os olhos demoraram-se mais do que as palavras. Ficou ali qualquer coisa suspensa.
A viagem fez-se longe. Sentei-me alguns lugares atrás. Via-lhe o perfil por entre os ombros das outras pessoas. Quase não falava. Nem com a irmã.
Saímos no Bonfim. Por fim, a sós. Aproximámo-nos sem dizer nada, como se o silêncio ainda viesse connosco. Caminhámos apressados. O tempo já não estava do nosso lado.
As aulas mal tinham começado quando soube que a professora de Geografia ia faltar. Saí e fui ao liceu ao lado. Encontrei-a à entrada. Quando me viu, endireitou-se ligeiramente, como quem já esperava.
Veio ter comigo com aquele sorriso que me desarma sempre.
- Então António, mais um furo?- É verdade e tu?
- Eu já sabia que o professor de história ia faltar.
- Então foi mesmo sorte eu ter-te encontrado.
- Sorte? Não sei. No entanto eu vim para a entrada do liceu pelo sim pelo não.
- De manhã foi uma seca a tua irmã vir contigo.
- Pois foi, mas podias ter-te sentado atrás de nós.
- Essa era a minha vontade... mas estar assim tão perto sem te falar...
- Podias falar connosco, não havia problema.
- Pois... a questão é essa... só queria falar contigo...
- Mau... ciúmes outra vez? - disse, a fingir-se zangada
- Não, claro que não. Nem penses nisso. Eu quando estou contigo não me apetece estar com mais ninguém...
- Pois, mas podias falar de qualquer coisa... do tempo por exemplo - disse, a sorrir
- Brincas com os meus sentimentos...
- Com os teus sentimentos não, contigo sim, que levas tudo muito a peito.
- Tens razão. Tudo que te diga respeito eu levo a peito...
- E porque é levas a peito?
- Tu sabes a razão...
- E que razão é essa, pode-se saber?
- Porque eu... - engoli em seco - porque gosto de ti.
Ela não respondeu logo. O sorriso ficou-lhe nos lábios, mais leve.
- Vês? Não custou muito... - fez uma pequena pausa - e tu sabes também o que eu sinto.- Sim? E o que é que sentes?
- Ora o que é que havia de ser?...
- Como é que vou saber se não me dizes?
- Está bem... eu também... sinto o mesmo de ti...
- É assim tão difícil dizer?
- Também gosto de ti.
Ficámos ali, sem saber muito bem o que fazer às mãos, ao tempo. Depois abriu a carteira.
- E para que não esqueças isto...Tirou duas fotografias e colocou-mas na mão. O papel estava frio. Olhei para elas com uma atenção quase absurda, como se pudesse encontrar ali mais do que já conhecia. O mesmo rosto, o mesmo olhar e ainda assim diferentes, como se agora me pertencessem de outra maneira.
O tempo chamou-nos de volta. Voltámos para as aulas. Guardei as fotografias no bolso com cuidado, sentindo-as contra o peito a cada passo.
No regresso, vinha leve. Ela também. Havia uma alegria contida no modo como falava, no brilho quieto dos olhos. Caminhámos devagar, sem o dizer, como quem tenta esticar o fim.
A tarde recebeu-me no Centro. Entre papéis e pastas, as mãos faziam o que era preciso, mas a cabeça estava noutro lugar. O dia foi cedendo à noite.
Fui para a Academia. Entre katas e kumité, o corpo encontrou um cansaço limpo.
Em casa, jantei, liguei a televisão sem grande interesse, folheei o jornal. Lá fora, o mundo seguia o seu ruído. Cá dentro, havia uma ordem nova, simples.
Antes de me deitar, tirei as fotografias do bolso e deixei-as na mesa de cabeceira. Fiquei a olhar para elas mais um instante.
Hoje deixou de ser apenas um sentir. Ficou dito, de parte a parte. E há dias assim, não fazem barulho, mas mudam o lugar onde passamos a viver por dentro.
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