O peso de um olhar que não existiu

Segunda-feira, 17 de Janeiro de 1977

Aquele olhar não me largou durante a noite. Andou comigo no escuro, sem descanso, como se tivesse ficado por dizer alguma coisa que eu não soube ouvir.

Quando o sono finalmente me venceu, já o dia começava a entrar. Ouvi a minha mãe chamar-me, distante, como se viesse de outro sítio. Acordei sobressaltado. Olhei para as horas e percebi logo que já nada havia a recuperar.

Saí a correr rua abaixo. A Dila já devia ter partido. Cheguei ao liceu com as aulas a decorrer. Ao quarto tempo não tive aula e fui ao liceu dela, ainda com a esperança de a ver. Não apareceu.

Depois do almoço fui esperá-la. Quando me viu, parou por um instante, surpreendida, e logo a seguir abraçou-me com aquele sorriso que me desfaz sempre.

- Então António, está tudo bem contigo? Pensei que estivesses doente.

- Acordei tarde. Não tive uma noite boa.

- Estavas doente?

- Creio que se pode dizer isso - respondi, sem lhe facilitar.

Ela franziu a testa, a olhar-me com atenção.

- Não percebi. Estavas ou não doente?

- Dormi mal por causa do teu olhar...

- Do meu olhar? O que queres dizer? Tiveste um pesadelo comigo?

- Não foi bem isso... ficou-me uma preocupação desde aquela cena de ciúmes...

- Continuo sem perceber o que é que o meu olhar tem a ver com isso...

- Quando me perguntaste se desconfiava de ti, olhaste para mim de uma forma que me gelou.

- Não me lembro disso - disse, surpreendida.

- Mas ficou em mim. Desde sábado.

Ela ficou em silêncio por um instante, como se procurasse dentro de si alguma memória que não encontrava.

- Podias ter dito. Eu tirava-te essa ideia da cabeça. Nunca faria um olhar que te magoasse... não penses mais nisso.

- É uma ordem?... - perguntei, a tentar aliviar o peso.

- É. Deixa de pensar nisso.

- Sim, mãezinha... - respondi, deixando escapar um suspiro que já vinha de trás.

A viagem para S. Pedro passou tranquila. Não falámos muito. Não era preciso. Havia qualquer coisa entre nós que dispensava explicações.

A tarde correu leve. No Centro ocupei-me a reorganizar o arquivo que tinha sido vandalizado no Domingo. As mãos iam fazendo o trabalho, mas por dentro já não havia desordem. Aquela inquietação da noite tinha ficado para trás.

Quando cheguei a casa, a noite recebeu-me com um cansaço bom. Como se o corpo, finalmente, tivesse posto as emoções no lugar certo.

O Diário ficou com estas palavras, como quem guarda algo que ainda não terminou de se perceber.

Hoje aprendi que nem todos os medos vêm daquilo que o outro faz. Às vezes nascem dentro de nós, em silêncios mal interpretados. E basta um gesto simples, uma palavra dita sem peso, para devolver tudo ao lugar. Talvez seja isso crescer. Começar a distinguir o que é real do que apenas imaginámos sentir.


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