O peso que não se diz

Domingo, 16 de Janeiro de 1977

Depois de uma noite tumultuosa, acordei com a cabeça pesada, como se os sonhos ainda não me tivessem largado. Levantei-me sem vontade. Se o Manel não tivesse aparecido com o seu bom humor de sempre, talvez tivesse ficado mais tempo escondido entre os lençóis.

- Hoje não está com bom humor - disse-me ele

Fiquei calado. Como lhe explicar que aquela má disposição também vinha dele. Os ciúmes de ontem, sem sentido, continuavam a roer-me por dentro. Para não mexer mais no assunto, acabei por aceitar sair com ele de bicicleta, sem rumo.

Ao fim de algum tempo a pedalar, o corpo foi aliviando o peso da manhã. Mas não tudo. Havia qualquer coisa que ficava para trás a cada pedalada, mas o essencial continuava preso. O olhar da Dila não me saía da cabeça.

A tarde começou vazia, sem prometer nada. Saí de casa e deixei os passos decidirem por mim. Levaram-me ao Centro. A cabeça, essa, parecia ter ficado algures mais acima, perdida.

“O CRM foi assaltado”, diziam à porta.

Entrei. Tudo virado do avesso. Cadeiras tombadas, gavetas abertas, vozes cruzadas num nervoso miúdo. Os adultos gritavam para não se mexer em nada. A polícia vinha a caminho.

Fui até ao gabinete do grupo. Também ali tinham passado, mas parecia não faltar nada. Na biblioteca, o chão estava coberto de livros espalhados, como se alguém tivesse querido rasgar o silêncio à força. Fiquei a olhar aquilo sem perceber. Tanta desordem não explicava nada.

Quando a polícia chegou, saí.

Em casa, contei o que tinha visto. As conversas cresceram depressa, cheias de teorias e certezas. Afastei-me. Não era ali que eu estava.

Esperei pela noite como quem espera um lugar mais sossegado.

No quarto, sentei-me. A esferográfica na mão, o diário aberto sobre a mesa, iluminado por um candeeiro cansado. Escrevo o dia devagar, como se assim conseguisse perceber melhor o que ficou por dentro.

Hoje ficou-me um peso estranho. Não foi o assalto, nem os gritos, nem a confusão. Foi aquele olhar. Há coisas que não se resolvem com o tempo nem com o cansaço. Ficam. E é nelas que o dia acaba.


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