Quando o ciúme aperta
Sábado, 15 de Janeiro de 1977
O dia nasceu limpo. Acordei leve, com aquela sensação rara de estar bem sem saber porquê. Sorri ainda antes de me levantar.
Saí cedo, sem pressa. O frio da manhã não chegava para arrefecer o que levava no peito. Quando cheguei à paragem, a Dila ainda não tinha chegado. Esperei. O tempo foi passando e a calma começou a ganhar nervos. Olhei a estrada mais vezes do que queria admitir.
Quando a inquietação já começava a apertar, ela apareceu. Vinha a sorrir, a falar com o Manel.
Respirei fundo. Cumprimentámo-nos como se nada fosse, como se a preocupação não tivesse existido. Seguimos os três para o Porto.
A manhã correu sem peso. Um professor faltou e aproveitei para sair do liceu. Fui procurá-la. A sorte, por vezes, sorri aos apaixonados. Lá estava ela.
Estava junto ao portão, com umas colegas. Quando me viu, veio ter comigo com aquele sorriso que me tira sempre qualquer defesa.
— Olá António, por aqui? Não faltaste às aulas... — começou.
— Não te preocupes. Um professor faltou e eu vim procurar-te.
— Aqui me tens. Porque me procuravas?
— Ora... queria estar contigo.
— Até parece que tinhas saudades. Estivemos juntos de manhã.
— Com o Manel. Não é bem a mesma coisa.
— Claro que é. Estás a ser dramático.
— Se calhar foram ciúmes...
— Ciúmes? Do Manel? Estás a brincar?
— Pois... estavas muito conversadora com ele...
— Mau. Agora desconfias do Manel? E de mim?
— Não. Claro que não — disse logo, rápido demais.
Ela ficou a olhar de forma intensa para mim. O sorriso apagou-se por um instante.
— Tens razão. Tu sabes o que eu sinto por ti... e isto dos ciúmes é novo para mim. Desculpa.
— Não tens de pedir desculpa. Apanhaste-me desprevenida... se fosse ao contrário, talvez reagisse igual.
— A sério? Eu prometo que nunca te farei sentir assim...
Hesitei um segundo.
— ...porque custa.
Ela abanou a cabeça e voltou a sorrir.
— És um tonto. Não se fala mais nisso.
A campainha salvou-nos. Despedimo-nos. Antes de sair, disse-lhe que ia embora mais cedo.
De tarde, o céu continuava limpo. Dentro de mim já não.
Fui para o Centro quase sem dar por isso. Atendi pessoas, mexi em papéis, subi e desci escadas. As mãos faziam o trabalho. A cabeça andava noutro sítio. Só ao fim da tarde o cansaço conseguiu empurrar os pensamentos para trás.
Depois de jantar, a luz foi-se. A casa ficou em silêncio. Nem televisão, nem café.
Fechei-me no quarto. À luz de uma vela, com o diário aberto, olho para este dia e quase me rio. Começou claro, tropeçou sem aviso e termina assim, numa chama pequena que teima em não se apagar.
Talvez seja isso que fica. Nem a luz inteira, nem a escuridão completa. Apenas esta coisa incerta que se sente quando se gosta de alguém e ainda não se sabe bem como se há-de gostar.
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