A leve urgência de te encontrar

Sexta-feira, 14 de Janeiro de 1977

Há dias em que a pressa não pesa. Empurra-nos.

Hoje o Sol apareceu por detrás das serras, como se também ele soubesse. Saí de casa com um sorriso que não disfarcei. Ia mais leve, mais certo, como quem já sabe onde vai parar.

A meio do caminho vi-a.

Caminhava devagar, sem surpresa, como se me estivesse à espera sem o admitir. Aproximei-me e toquei-lhe no ombro.

- Então vieste mais cedo e não passaste por minha casa?

- Olá António. Calculei que nos íamos encontrar no caminho...

- Então fizeste de propósito?

- Não tinhas dito que mesmo que fizesse Sol eu deveria vir mais cedo?

- Tens razão... mas não paraste à minha porta.

- Não sejas demasiado exigente, senão passo a vir mais tarde. disse, a fingir-se zangada.

- Não... não... está muito bem assim, não me recrimines por querer estar mais tempo contigo.

A seriedade não lhe durou. Riu-se, leve, e abriu aquele sorriso que me resolve o dia.

- Continuas igual a ti mesmo. Achas mesmo que eu te ia castigar?

- Pelo sim pelo não, nunca irei hostilizar-te. És implacável...

Seguimos juntos até ao trólei. Sentámo-nos lado a lado, em silêncio confortável, como se não fosse preciso dizer mais nada. Havia ali uma certeza tranquila, ainda sem nome, mas firme.

A manhã passou depressa. Não tive as duas últimas aulas e fui procurá-la ao liceu. Encontrei-a num furo de português. Saímos sem plano, apenas com tempo. Andámos pelas ruas durante uma hora, sempre juntos, sem necessidade de decidir caminho.

Estar com ela traz-me uma inquietação que não sei explicar. Não é desconforto, mas também não é paz inteira. Há momentos em que penso no que seria perdê-la, e esse pensamento instala-se sem pedir licença. Não tem razão de ser, mas não se vai embora.

Voltei mais cedo para casa. Depois de almoçar fui esperá-la à paragem. Quando chegou, seguimos pelo caminho mais longo, como se o curto não nos servisse.

Olhei-a várias vezes. Nos olhos dela há qualquer coisa que me prende e me acelera ao mesmo tempo. Falava com calma, como sempre, e eu deixava-me ficar ali, dentro daquela voz. O mundo, nesse instante, cabia todo naquele passeio.

Deixei-a perto de casa. Afastei-me devagar, como quem sai de um lugar onde queria ficar.

Fui para o Centro. Levei-a comigo, nos pensamentos. O resto passou por mim sem deixar marca. A assistente social pediu mais do que eu tinha vontade de dar. Fiz o que era preciso, entre ficheiros e papéis, mas sem estar verdadeiramente ali.

No treino de Karaté o corpo puxou por mim. A mente acabou por ceder. Por momentos, fiquei inteiro.

À noite, já em casa, revi o dia. Não pelos acontecimentos, mas pelo que ficou entre eles.

Percebi que não foi um dia importante por ter sido diferente. Foi importante porque, sem esforço, tudo me levou até ela. E talvez seja isso que mais me inquieta. Quando não fazemos nada para que aconteça, e mesmo assim acontece, deixa de ser acaso.

Talvez haja coisas que não se procuram. Apenas se reconhecem quando aparecem.


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