Entre a Chuva e o Toque

Quinta-feira, 13 de Janeiro de 1977

O dia acordou cinzento. A chuva caía desde madrugada e o vento fazia tremer as persianas. Saí para a rua com a água a correr pelos passeios como se não tivesse destino. Desci a rua apressado, a segurar os livros contra o peito, a gola levantada, o guarda-chuva a resistir como podia.

A Dila esperava-me na paragem, encolhida junto ao muro, sem grande sucesso a fugir da chuva.

- Olá Dila, isto é que é um temporal.

- Nem me digas nada. Estou ensopada.

Encostámo-nos um ao outro, os guarda-chuvas quase colados. O trólei chegou e entrámos à pressa. Lá fora, o tempo continuava a bater como se tivesse vontade própria.

- Já estavas há muito tempo à minha espera? Podias ter apanhado o primeiro trólei...

- Não António, tinha acabado de chegar.

- Quando for assim passa por minha casa. Abrigamo-nos melhor.

- Sim, estou mesmo a ver a tua mãe a deitar-me um olhar...

- Não tens que pensar nisso. Começa a passar por minha casa... nem que esteja Sol.

- Sol?... Estou a perceber-te...

- Pois é, assim estaríamos mais tempo juntos...

- Mais tempo juntos? Estou mesmo a ver o tempo que iríamos demorar a chegar à paragem...

- Ora... nesse caso vinhas mais cedo...

- Mais cedo? Se calhar querias que viesse de madrugada...

- Ou mais cedo. Por mim não saía da tua beira nunca.

- António, regressa à terra. Lá estás tu a fantasiar. Dá-te cada uma...

O sorriso dela não combinava com as palavras.

Seguimos até ao liceu. A chuva deu-nos uma proximidade que o tempo seco nunca permite.

A manhã passou entre aulas. Depois do almoço, voltei à rua. A chuva não tinha abrandado. A Dila já estava à minha espera e fomos juntos para a paragem, a passo apressado.

O regresso foi apertado e instável. Entre empurrões e travagens, acabámos encostados nos fundos do trólei. Sem apoio, segurávamo-nos um ao outro para não cair. Ela mantinha-se serena, com um sorriso leve, apesar de tudo.

O cabelo molhado colava-se-lhe ao rosto. Tentava afastá-lo sem conseguir. Levei a mão e puxei uma madeixa para trás da orelha. Ficou ali, por um instante, como se tivesse decidido ficar.

Só então me apercebi do gesto. Afastei a mão. Ela olhava para mim com uma ternura quieta.

- Obrigado António, esse cabelo já me estava a irritar.

Fiquei sem resposta. Senti o rosto aquecer.

- Eu vi... nem pensei...

- Fizeste bem. Obrigado.

Seguimos em silêncio. Mas o toque ficou. Não na mão, mas em qualquer coisa mais funda.

Despedimo-nos como sempre, mas com uma ausência maior do que o costume.

O CRM ocupou-me a tarde, mas não me levou dali. Entre papéis e idas ao arquivo, voltava sempre ao mesmo instante, àquele gesto simples que parecia ter aberto um espaço novo entre nós.

Agora, no quarto, com a chuva ainda a bater lá fora, escrevo para não deixar fugir este dia. Há momentos que não mudam nada por fora, mas por dentro deslocam tudo. Hoje foi um desses dias.


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