O peso leve de um dia que começa diferente
Quarta-feira, 12 de Janeiro de 1977
Depois dos últimos dias sinto que algo mudou. Não sei explicar o quê. Talvez seja a forma como agora caminho até à paragem, sem a pressa de antes, como se já não fosse à procura de alguma coisa, mas apenas ao encontro dela.
Esta manhã cumpri o meu ritual de sair de casa. Estava frio. O céu, limpo, abria-se por detrás das serras. Desci a rua devagar, atento ao silêncio, até a Dila chegar com o Manel.
O sorriso dela foi o verdadeiro começo do dia.
Conversámos os três, mas com cuidado. Eu e ela travados pela presença do Manel, que falava alto, ria-se sem medida, como se o mundo ainda fosse simples. Havia nele uma leveza que já não sabíamos usar.
Acompanhei-a até ao liceu. Antes de nos separarmos, ficou combinado encontrarmo-nos depois da cantina.
A manhã arrastou-se. Números no quadro, mapas abertos, linhas traçadas sem destino. Tudo passava por mim sem ficar.
Quando voltámos a encontrar-nos, já no trólei, viemos de pé. A viagem foi aos solavancos, empurrados de um lado para o outro. Acabámos encostados num canto, quase sem espaço. Por vezes éramos levados um contra o outro e sorríamos, como se aqueles encontrões fossem desculpa para uma proximidade que não ousávamos procurar.
Não falámos quase nada. E, ainda assim, não faltou nada.
Saímos em S. Pedro e caminhei com ela até perto de sua casa. Sem pressa. Como se o tempo, por uma vez, não tivesse urgência.
De tarde tentei concentrar-me na matemática e nas ciências naturais. Os testes aproximam-se, dizem. Mas a cabeça fugia-me para outros sítios.
A noite caiu sem aviso. Jantei e recolhi-me ao quarto. Abri o diário. A fotografia ficou ali, quieta, a olhar-me como se soubesse mais do que eu.
Hoje não aconteceu nada de extraordinário. E, no entanto, há dias assim, quase vazios por fora, que começam a encher por dentro. Talvez seja isso que mudou. Talvez já não precise que aconteça muito para sentir que aconteceu o suficiente.
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