Entre o que se sonha e o que se ousa dizer

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Terça-feira, 11 de Janeiro de 1977

Depois do dia de hontem, a noite trouxe-me mais do que descanso, trouxe-me de volta aquilo que eu não queria largar.

De manhã levantei-me à pressa e fui para a paragem. A Dila já lá estava, à minha espera, com um sorriso que parecia saber mais do que dizia.

— Olá António, pareces afogueado…

— O dia chegou cedo demais.

— Vais dizer que não dormiste bem? Eu dormi como um anjinho.

Olhei para ela e hesitei.

— Dormi… mas não me apetecia acordar.

Ela inclinou ligeiramente a cabeça, como quem já adivinha.

— Então os sonhos foram bons…

Sorri.

— Foram.

O trólei chegou e subimos para o piso superior. Sentámo-nos lado a lado, com o barulho habitual a proteger o que não se diz logo.

Ela não largou o assunto:

— Posso saber ou é segredo?

— Não é segredo… — fiz uma pausa — só tu cabes neles.

Ela soltou um riso curto, meio a brincar, meio a esconder-se.

— Sonhaste comigo? Isso não promete…

— Descansa. Não foi nada de censurável.

Corou. E dessa vez não fugiu.

— Então?

Olhei pela janela um instante, como se ainda lá estivesse.

— Sonhei com o dia de hontem. Como se não tivesse acabado.

Ela aproximou-se um pouco mais. Demasiado perto para ser distraído, demasiado natural para ser evitado. E, em voz baixa:

— Eu também sonhei com a tarde de hontem…

Fez uma pausa. Senti-lhe a respiração.

— Por isso dormi como um anjinho.

Fiquei sem saber o que fazer às mãos, às palavras, a mim. Tudo parecia deslocado naquele instante.

— Eu… fico contente… — tropecei — quer dizer… estamos…

Nem eu sabia bem o que queria dizer.

Ela olhou-me, firme, sem me deixar fugir:

— Estamos, sim.

E não disse mais nada. Mas também não era preciso.

Acompanhei-a ao liceu. Separámo-nos como sempre, mas já não era como sempre.

O resto do dia passou como se tivesse perdido cor. As aulas, a biblioteca, o almoço, tudo aconteceu, mas sem presença. Como se o dia verdadeiro tivesse ficado preso naquela viagem de manhã.

À tarde fui ao DIFI. À noite, na Academia, magoei-me num combate. Doeu, mas não foi isso que me ficou.

Cheguei a casa cansado. A minha irmã fez-me um penso. Jantei, vi televisão, tudo no lugar certo, tudo no tempo certo.

Mas por dentro, ainda estava no trólei.

Há dias que não acabam quando o dia termina. Ficam suspensos em nós, como um eco que não se apaga. Hoje percebi que já não são só encontros, há qualquer coisa a crescer no que dizemos… e, sobretudo, no que deixamos por dizer.



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