Entre o que se sonha e o que se ousa dizer
🢨 Página Anterior - Índice - Página seguinte ➫
Terça-feira, 11 de Janeiro de 1977
Depois do dia de hontem, a noite trouxe-me mais do que descanso, trouxe-me de volta aquilo que eu não queria largar.
De manhã levantei-me à pressa e fui para a paragem. A Dila já lá estava, à minha espera, com um sorriso que parecia saber mais do que dizia.
— Olá António, pareces afogueado…
— O dia chegou cedo demais.
— Vais dizer que não dormiste bem? Eu dormi como um anjinho.
Olhei para ela e hesitei.
— Dormi… mas não me apetecia acordar.
Ela inclinou ligeiramente a cabeça, como quem já adivinha.
— Então os sonhos foram bons…
Sorri.
— Foram.
O trólei chegou e subimos para o piso superior. Sentámo-nos lado a lado, com o barulho habitual a proteger o que não se diz logo.
Ela não largou o assunto:
— Posso saber ou é segredo?
— Não é segredo… — fiz uma pausa — só tu cabes neles.
Ela soltou um riso curto, meio a brincar, meio a esconder-se.
— Sonhaste comigo? Isso não promete…
— Descansa. Não foi nada de censurável.
Corou. E dessa vez não fugiu.
— Então?
Olhei pela janela um instante, como se ainda lá estivesse.
— Sonhei com o dia de hontem. Como se não tivesse acabado.
Ela aproximou-se um pouco mais. Demasiado perto para ser distraído, demasiado natural para ser evitado. E, em voz baixa:
— Eu também sonhei com a tarde de hontem…
Fez uma pausa. Senti-lhe a respiração.
— Por isso dormi como um anjinho.
Fiquei sem saber o que fazer às mãos, às palavras, a mim. Tudo parecia deslocado naquele instante.
— Eu… fico contente… — tropecei — quer dizer… estamos…
Nem eu sabia bem o que queria dizer.
Ela olhou-me, firme, sem me deixar fugir:
— Estamos, sim.
E não disse mais nada. Mas também não era preciso.
Acompanhei-a ao liceu. Separámo-nos como sempre, mas já não era como sempre.
O resto do dia passou como se tivesse perdido cor. As aulas, a biblioteca, o almoço, tudo aconteceu, mas sem presença. Como se o dia verdadeiro tivesse ficado preso naquela viagem de manhã.
À tarde fui ao DIFI. À noite, na Academia, magoei-me num combate. Doeu, mas não foi isso que me ficou.
Cheguei a casa cansado. A minha irmã fez-me um penso. Jantei, vi televisão, tudo no lugar certo, tudo no tempo certo.
Mas por dentro, ainda estava no trólei.
Há dias que não acabam quando o dia termina. Ficam suspensos em nós, como um eco que não se apaga. Hoje percebi que já não são só encontros, há qualquer coisa a crescer no que dizemos… e, sobretudo, no que deixamos por dizer.
Comentários
Enviar um comentário