O instante antes de cair o pano
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Terça-feira, 10 de Janeiro de 1977
De manhã levantei-me sem pressa, como se o dia soubesse ao que vinha. Tomei o pequeno-almoço quase por hábito, sem dar grande conta dos gestos, e fui para a paragem. Esperei pela Odília com aquela calma inquieta de quem já se habituou a esperar por alguém que importa.
Durante a viagem pouco falámos. O trólei ia cheio, o ruído das pessoas, dos movimentos, das paragens, tudo à nossa volta parecia excessivo. Mas entre nós não fazia falta dizer nada. Havia uma espécie de acordo silencioso, bastava-nos estarmos ali, próximos, a dividir o mesmo espaço como quem divide um segredo.
Acompanhei-a ao liceu. Caminhámos lado a lado, sem pressa. Nem devagar, nem rápido, apenas ao ritmo certo para prolongar o caminho. Às vezes olhava-a de soslaio, só para ter a certeza de que ela estava mesmo ali.
Quando as aulas acabaram, fui almoçar à cantina, mas mal dei conta do que comi. A cabeça estava noutro sítio. Depois fui esperá-la. Havia em mim uma ansiedade mansa, dessas que não apertam, mas também não largam.
Chovia.
Abriguei-me na soleira de uma porta. A chuva caía pesada, contínua, como se tivesse decidido ocupar o dia inteiro. Fiquei a olhar a rua, à espera daquele instante em que ela surgiria.
E surgiu.
Apressada, a fugir das gotas, com o cabelo já marcado pela chuva. Corremos os dois, quase ao mesmo tempo, até à paragem. Ficámos ali encostados, debaixo de um abrigo que mal chegava para os dois. Ainda assim, parecia suficiente. Partilhámos o espaço, o frio leve da roupa molhada, e aquele silêncio que, outra vez, dizia mais do que qualquer conversa.
Em S. Pedro a chuva tinha parado, como se já não fosse necessária. O ar estava limpo, e nós seguimos pelo caminho mais longo. Não havia pressa, e, talvez mais importante, não havia vontade de chegar.
Parámos em frente da casa do Manel. O momento ficou suspenso sem aviso, como se algo tivesse decidido acontecer ali.
— Sabes, Dila… — fiz uma pausa curta, mais para ganhar coragem do que por falta de palavras — o quanto eu gosto dos nossos encontros?
— Sim… — respondeu, mas havia nela uma atenção nova, como se estivesse a tentar perceber o que vinha a seguir.
— Para mim é mais do que isso…
Ela olhou-me de frente. Já não era distração, era cuidado.
— Não há dia nenhum em que não pense em ti…
— António, porque me estás a dizer isso? — perguntou. Não era rejeição. Era defesa.
— Não quero cometer o mesmo erro do passado… — comecei, mas ela interrompeu-me. Havia um leve rubor no rosto, quase imperceptível, mas suficiente.
— Eu também gosto dos nossos encontros e… — hesitou, como se escolhesse cada palavra com medo de se denunciar — também penso em ti todos os dias…
Fiquei em silêncio. Sentia que ainda não tinha terminado.
— Sabes o que eu sinto — continuou — conheces as razões que me impedem de ser o que gostaria de ser… — suspirou — creio que me entendes…
— Conheço — disse, devagar. — Mas eu não tenho nada que me impeça de ser o que sou… e de mostrar o que sinto… — parei um instante — à pessoa de quem gosto.
Baixei os olhos, não por vergonha, mas porque dizer aquilo exigia mais do que coragem.
— António… eu… — começou — também sinto o mesmo que tu…
O ar ficou mais denso. Não havia vento, não havia som, só aquele instante a crescer entre nós.
— Para mim somos mais do que amigos, Dila. Independentemente de tudo…
O silêncio que se seguiu não foi vazio. Foi confirmação.
— Eu também gosto de ti, António… e aquilo que temos… é mais do que uma simples amizade, no entanto…
— Não digas mais — interrompi, quase numa súplica. — Quero guardar assim este momento.
Ela aceitou. E isso disse tudo.
Ficámos a olhar um para o outro. Sem necessidade de provar nada. Pela primeira vez, parecia que as palavras tinham cumprido o seu papel e podiam desaparecer.
O tempo passou sem darmos conta. Como passa quando não é vigiado.
Ela acabou por subir a rua. Fiquei a vê-la afastar-se, passo a passo, até desaparecer. Só então percebi que o dia tinha mudado de lugar dentro de mim.
Cheguei a casa e sentei-me sem fazer nada. Não havia nada para fazer. Ainda estava ali, naquele instante, preso ao que tinha acabado de acontecer.
Mais tarde fui ao centro. Não estava ninguém. Mexi em papéis, vagueei de um lado para o outro, como quem procura ocupar um espaço que já não consegue preencher.
À noite, no quarto, escrevo.
Hoje não foi um dia como os outros.
Foi o dia em que deixei de esconder o que sentia. E, mesmo sem respostas completas, percebo agora que há coisas que não precisam de estar resolvidas para mudarem tudo.
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