Epílogo — O que não dissemos
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Maio de 1975
Maio foi-se embora como quem não quer incomodar.
Não houve despedidas formais, nem promessas que se possam guardar no bolso. Ficou apenas aquela sensação estranha de que algo terminou sem nunca ter começado verdadeiramente, ou pior, começou em silêncio e assim se manteve.
Vejo agora os nossos encontros como quem folheia um caderno antigo. Não eram muitos, nem longos. Às vezes bastava cruzarmo-nos num corredor, um olhar que demorava meio segundo a mais, um gesto suspenso. Outras vezes, sentávamo-nos perto o suficiente para sentir a tua presença, mas longe demais para que alguma coisa acontecesse.
E no entanto, acontecia tudo.
Havia dias em que quase falávamos. Lembro-me disso com uma nitidez que me incomoda. As palavras chegavam à boca, alinhavam-se, prontas. Bastava um passo, um desvio mínimo da coragem. Mas ficavam. Sempre ficavam.
Tu também sabias. Não tenho dúvidas disso agora. Havia no teu olhar qualquer coisa que não era distracção nem acaso. Era reconhecimento, como se estivéssemos os dois a ler a mesma frase, mas nenhum tivesse coragem de a dizer em voz alta.
Os desencontros foram mais frequentes do que os encontros. Bastava chegar cinco minutos mais cedo ou mais tarde. Bastava escolher outro caminho. Bastava que o mundo se inclinasse ligeiramente para o lado errado, e já não te via.
E nesses dias, tudo parecia excessivamente normal. As aulas, as vozes, o barulho dos outros. Como se a tua ausência tivesse o poder de tornar tudo mais vazio, mesmo quando estava cheio.
Houve um dia, em que te vi ao longe e pensei que ias aproximar-te. Fiquei imóvel, como se qualquer movimento pudesse quebrar aquele momento frágil. Mas não vieste.
E eu também não fui.
É curioso como duas vontades podem falhar ao mesmo tempo, com uma precisão quase perfeita.
O que ficou por dizer não é apenas o que nunca dissemos. É também tudo aquilo que poderia ter sido dito de mil maneiras diferentes, um “olá” mais demorado, uma pergunta banal, um comentário qualquer que abrisse uma brecha no silêncio.
Mas escolhemos o caminho mais difícil, o de sentir sem dizer.
Hoje percebo que não foi falta de palavras. Foi medo do que vinha depois delas.
Se falássemos, deixava de ser nosso, passava a existir no mundo, sujeito a respostas, a consequências, a finais possíveis. Assim, ficou intacto. Imperfeito, mas inteiro na sua impossibilidade.
Não sei o que pensas agora, quando olhas para trás, se pensas sequer. Talvez tenha sido apenas mais um mês para ti. Talvez não.
Para mim, Maio ficou como uma espécie de lugar. Não no tempo, mas dentro de mim. Um espaço onde tudo esteve prestes a acontecer e nunca aconteceu.
E, estranhamente, não sei se isso me entristece ou me protege.
Há coisas que só existem porque não chegaram a ser.
E nós, o que fomos, o que quase fomos, pertencemos a esse território.
Ficámos por dizer.
E talvez seja isso que ainda nos mantém.
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Não saberei quem envia, não conseguirei responder, mas ficarei grato pela sua presença.
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