O Frio Entre Nós
Sexta-feira, 28 de Janeiro de 1977
Depois de uma noite revolta entre sonhos partidos e sombras sem rosto, a manhã apareceu contra a minha vontade.
Levantei-me devagar, empurrado apenas pela ideia de ver a Dila. Desci a rua quase sem sentir os pés. O frio entrava-me pelo corpo como água gelada a infiltrar-se na pedra. Até os meus passos pareciam abafados pelo gelo do empedrado.
Na paragem fiquei sozinho com os restos da noite ainda presos à cabeça.
A Dila apareceu na curva da rua. Caminhava depressa, encolhida dentro do casaco, os braços cruzados sobre o peito, como se quisesse defender o coração do inverno.
- Olá António. Estou gelada... — disse, esfregando as mãos.
- Olá Dila. Parece que trouxeste o frio contigo.
Sorriu de leve. E só esse sorriso abriu uma fresta de calor dentro de mim.
- Ontem tiveste problemas com a tua mãe?
Ela baixou os olhos por um instante.
- Não imaginas o que ela me disse...
Senti o corpo prender-se todo.
- Sim? O que foi?
- Apenas me disse para ter cuidado com o meu pai... — respondeu, olhando-me de lado.
Fiquei imóvel.
- Isso quer dizer... quer dizer que ela me viu?
- Viu. E foi por isso que falou comigo.
O coração começou-me a bater mais depressa.
- Então ela não se importa que andemos um com o outro?
- Como não disse nada em contrário... parece que não.
- E vamos poder estar mais vezes juntos?
A Dila sorriu outra vez. Devagar. Como quem percebe o efeito que tem em mim.
- Parece que sim.
Naquele instante a manhã mudou de cor.
Durante a viagem para o liceu falámos de tudo um pouco. Eu mal conseguia acompanhá-la. Havia qualquer coisa dentro de mim que continuava parada naquele momento da paragem do trólei. A mãe dela sabia. E mesmo assim não nos tinha separado.
Parecia impossível.
Depois de a deixar no liceu segui caminho quase a cantarolar. As aulas passaram por mim leves, irreais. Até os professores me pareceram menos distantes.
Num furo fui procurá-la. Estava à minha espera perto do portão. Quando me viu, sorriu daquela maneira que me desfazia por dentro.
Saímos sem rumo pelas ruas frias. Caminhávamos devagar, próximos o suficiente para eu sentir o calor do corpo dela através das mangas dos casacos. Por vezes os nossos braços tocavam-se ao acaso e nenhum de nós se afastava logo.
Parecia pouco.
Mas para mim era quase tudo.
Foi então que um homem surgiu no passeio. Ao passar, cumprimentou-a.
- Bom dia, menina Odília.
Ela respondeu automaticamente. Mas quando voltou o rosto para mim, tinha perdido toda a cor.
- O que foi? Quem era aquele homem?
- Trabalha com o meu pai... vamos embora.
A voz saiu-lhe baixa e presa.
Apressou o passo. O sorriso desaparecera. Caminhava agora com os olhos fixos no chão, como se cada segundo ao meu lado se tivesse tornado perigoso.
Tentei aproximar-me mais dela.
- Dila...
Ela não respondeu.
Chegámos depressa demais ao liceu. Antes de entrar, murmurou apenas um “até logo” quase sem me olhar.
Fiquei a vê-la afastar-se entre os outros alunos sem voltar a cabeça uma única vez.
E foi nesse instante que o frio regressou.
O resto da manhã passou arrastado. Já não conseguia ouvir os professores nem acompanhar as aulas. A imagem dela, pálida ao reconhecer aquele homem, não me saía da cabeça.
Que iria acontecer agora?
Depois do almoço fui esperá-la. Vinha diferente. Trazia a testa franzida e os olhos cansados. Nem sequer sorriu quando me viu.
Seguimos viagem quase em silêncio.
Houve momentos em que tive vontade de lhe agarrar a mão. Apenas para lhe dizer que estava ali. Mas havia qualquer coisa nela que me mantinha à distância. Como uma porta encostada que eu tinha medo de abrir demasiado.
Ainda tentei fazê-la falar.
Ela acabou por murmurar apenas:
- Não te preocupes. Isto não deve dar em nada.
Mas a maneira como evitou olhar para mim dizia exactamente o contrário.
Na paragem da Covilhã, a mãe dela esperava-a.
Não sei explicar porquê, mas ao vê-la senti logo um aperto no peito. Talvez fosse apenas impressão minha. Talvez não.
Afastei-me fingindo que não estávamos juntos.
Enquanto seguia caminho senti as mãos húmidas e a respiração curta, como se o ar daquela tarde se tivesse tornado mais pesado.
Em casa tentei ocupar a cabeça. Peguei num livro. Depois noutro. Lia páginas inteiras sem perceber uma palavra. A música do rádio confundia-se com os pensamentos e tudo acabava por voltar ao mesmo lugar.
À Dila.
Ao homem.
Àquela manhã.
Mais tarde chamaram-me ao Centro. Passei papéis de umas mãos para as outras, consultei arquivos, arrumei livros, mas era como se o meu corpo estivesse ali e o resto de mim continuasse perdido algures entre a paragem do trólei e o olhar dela.
Ao fim da tarde fui para a Academia.
Treinei até os músculos arderem. O cansaço físico ajudava a empurrar para longe aquilo que eu não conseguia dominar dentro de mim.
Mas só ajudava por instantes.
À noite, já no quarto, liguei o rádio e abri o diário.
Peguei na fotografia dela.
Fiquei algum tempo apenas a olhar aquele sorriso preso no papel, tão tranquilo e tão distante da confusão que me enchera o dia.
Lá fora o frio apertava as ruas. Dentro do quarto a música tocava baixinho enquanto a noite se espalhava devagar pelas paredes.
Antes de fechar os olhos pensei nela.
Na alegria daquela manhã.
No medo que veio depois.
E em como, às vezes, basta um instante para mudar completamente o rumo de um dia... ou de um coração.
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