Prólogo — Junho de 1975

Junho começa devagar, como se o tempo hesitasse antes de avançar.

A luz alonga os dias, empurra as sombras para mais longe, mas não alivia o que pesa. Há uma inquietação discreta que atravessa as horas, quase imperceptível, como um pressentimento que ainda não encontrou palavras.

Neste mês, nada acontece de forma isolada.

Cada gesto arrasta consequências.
Cada silêncio cresce para além do momento em que nasce.
E aquilo que parece pequeno, um olhar, uma fotografia, um encontro breve, começa, sem aviso, a ganhar um peso inesperado.

António ainda não sabe, mas está a entrar num território diferente.

Até aqui, o mundo cabia-lhe na leveza dos dias, amigos, ruas conhecidas, pequenas aventuras sem história. Mas Junho vai ensinar-lhe outra coisa, que a vida, às vezes, se inclina de forma inesperada. Um segundo basta. Um descuido. Um ruído mais alto. E o chão deixa de ser garantido.

Ele seguirá em frente. Como todos seguem.

Mas não voltará exactamente ao mesmo lugar dentro de si.

E depois há a rapariga. A Dila.

Não surge como revelação, já estava lá antes. Mas é neste mês que se transforma. De presença leve, quase natural, passa a inquietação constante. Uma espécie de pensamento que não se afasta, que cresce nos intervalos, que se instala mesmo quando ele tenta não pensar.

Não saberá explicar o que sente. Nem precisa.

Bastar-lhe-á perceber que há coisas que começam a mudar sem que se aperceba.

Mas o que cresce entre os dois não vive sozinho.

Há olhares à volta.
Há regras invisíveis.
Há uma vigilância silenciosa que não pertence ao mundo deles, mas que insiste em entrar.

E, pouco a pouco, aquilo que era simples deixa de ser livre.

Uma palavra surgirá, discreta, mas decisiva, cuidado.

E com ela, virão os primeiros limites.

Os encontros tornar-se-ão mais curtos.
Os gestos mais contidos.
Os silêncios mais carregados.

Até os objectos mais pequenos começarão a ter significado. Uma fotografia deixará de ser apenas lembrança para se tornar sinal, risco, motivo de tensão. Algo que pode ser encontrado, interpretado, retirado.

E nesse instante, sem saber bem como, ele começará a compreender.

Que sentir não é apenas descobrir.
É também esconder.
Proteger.
E, por vezes, temer.

Haverá dias de leveza, inevitavelmente. Riso, corridas, pólvora no ar, o calor das tardes que parecem não ter fim. Mas mesmo nesses dias, algo ficará por baixo, discreto, persistente, a consciência de que já nada é inteiramente simples.

Porque crescer não acontece de uma vez.

Acontece assim.

Num susto que não se esquece.
Num olhar que se prolonga.
Numa ausência que pesa mais do que devia.
Numa palavra dita a medo.

Junho será isso.

Um mês onde tudo começa a ganhar forma, mesmo aquilo que ainda não tem nome.

E quando terminar, António talvez não saiba explicar o que mudou.

Mas saberá, com uma certeza silenciosa, que já não é o mesmo que entrou.


« Continuar »


Comentários