Ecos do Abismo Invisível

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Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 1977

Algo está a mudar e não sei o quê, ou não quero ver. Foi com este pensamento que entrei pela noite adentro. Qualquer som qualquer movimento na rua  carros ao longe, o vento nas frestas da janela, acordavam-me. A noite não teve fim. O sono vinha a espaços, curto, desasado, e logo a seguir a cabeça acordava cheia de nada, cheia de um peso que não sei explicar. Abro os olhos com um peso na cabeça e uma imensa vontade de pôr o mundo em pausa.  Devia haver um botão para congelar tudo, os carros, as pessoas, as obrigações. Pensar nela era o que me fazia saltar da cama, mas hoje... hoje a ideia de caminhar até à paragem parecia um esforço desumano. Saí porque tinha de ser.

Arrastei os pés pela rua abaixo. A voz na minha cabeça, aquela que nunca se cala, dizia que não valia a pena correr. Para quê? Não sei se estava frio, se o céu estava cinzento ou lavado. A minha mente andava por aí, noutro sítio qualquer, longe desta rua, longe de mim. 

Quando cheguei, ela já lá estava. A Dila. Ela olhou para mim e desabotoou um sorriso... mas era um sorriso pálido, mecânico. Uma obrigação de ontem que se arrasta para hoje. Seremos isto agora? Uma rotina de manhã? Um hábito de paragem de autocarro? Dissemos um olá que não sabia a nada. Ficámos calados. 

O silêncio começou a crescer ali mesmo, no passeio. Sentámo-nos juntos no trólei, mas havia quilómetros de distância entre nós. Um abismo. Sentir o casaco dela contra o meu braço e, ao mesmo tempo, não conseguir chegar lá. O peito apertou. Uma dor física, uma linha cravada nas costelas. Onde está a alegria que ela me trazia? Sumiu-se. Só ficaram estas sombras frias, este encolher de ombros por dentro.

A meio do caminho para o liceu dela, ela travou o passo. Disse que não valia a pena continuar a acompanhá-la até ao portão do seu liceu. “Para não te atrasares”, disse. Não me doeu logo. Ou talvez tenha doído tanto que nem percebi. O afastamento ficou ali, escarrapachado no chão da rua. Senti-me tão pequeno. Miserável. Será que ela tem vergonha? Será que há alguém do liceu dela que não nos pode ver juntos? Ou será que ela... será que se cansou? Que se fartou de mim, das minhas conversas, do meu silêncio? Estes pensamentos entram e fincam-se, deixam um risco fundo na parede da cabeça. Nas aulas, os professores falavam, os rapazes riam-se nas carteiras de trás, mas eu não vi nada. Não ouvi nada. Uma ausência completa. A dor começa a ser mais forte do que a minha própria vontade de estar ali.

Depois das aulas, tentei fingir que mandava em alguma coisa. Saí sem pressa. Se a encontrasse, encontrava. Não ia ficar ali a fazer o papel de quem espera, a implorar atenção, se ela própria parecia querer distância ontem e hoje. Mas acabei por cumprir o caminho de sempre, sem saber porquê. Sou ridículo. 

Ela apareceu a subir a rua com um passo apressado, quase a correr, como se fugisse de um fantasma. Ou de mim. Deu-me um olá curtíssimo. Fiquei amuado, sim, admito, fechei-me. Entrámos no trólei que vinha a abarrotar. Ela esgueirou-se lá para o fundo, para um canto, rápido. Fui atrás, a empurrar as pessoas, mas a postura dela... os ombros caídos, o olhar fixo no vidro. Ela não queria que eu estivesse ali perto. Dava para ver. Mesmo assim, não aguentei. Aquele silêncio sufocava-me. Aproximei-me e perguntei se tinha acontecido alguma coisa. Ela olhou para mim. Os olhos dela estavam tão tristes... e ver aquela tristeza partiu-me ao meio. Um nó subiu-me à garganta, uma vontade de... não sei. Ela só disse: “Falamos depois”. E, de repente, antes do tempo, na paragem seguinte, que nem era a dela, levantou-se. Não disse adeus. Não olhou para trás. O trólei arrancou e ela ficou na berma, a sumir-se na esquina.

Sozinho. Completamente abandonado no meio de desconhecidos que me empurravam.

Cheguei a casa e tentei arrancar isto do peito. 

Abri os livros, estudei até os olhos arderem. 

Liguei o rádio, rodei o botão do volume ao máximo, a música aos berros a encher o quarto para ver se abafava o barulho que vai cá dentro. Para não me ouvir a reflectir. Para esquecer o muro que estou a tentar erguer à minha volta para que nada mais me toque. 

Mas o muro é pesado. 

Estou exausto de carregar estas pedras. 

E agora a noite volta a entrar pelo quarto e eu tenho medo. 

Tenho medo do escuro e do que o dia de amanhã vai trazer para deitar abaixo tudo o que tentei segurar.


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