A Sombra de um Abraço em Papel

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Domingo, 27 de Fevereiro de 1977

Ontem não acabou. Ficou tudo aqui dentro, a pesar, a ocupar as frestas onde o sono devia ter entrado mas recusou-se. Foi uma noite revolta, daquelas em que os pensamentos ganham unhas e cravam-se nas paredes da morada que decidiram ocupar sem pedir licença. 

Acordei e a manhã trazia a mesmíssima carga. Tentei empurrar o dia para longe, enterrei-me nos cobertores, fechei os olhos com força a implorar que o esquecimento voltasse. Nada. Não aconteceu. Há dias em que o corpo acorda primeiro e a cabeça fica para trás, ou talvez seja ao contrário, já nem sei.

O dia chamou-me. Ou melhor, empurrou-me para fora da cama, aquela sensação física de ser arrancado de mim próprio. Saí. A manhã já ia alta e a luz do Sol bateu-me de frente, junto com o ar frio que me cortou a cara.

Fiquei ali, parado no meio do quintal, estático. Um vazio tão grande que não dava para decidir para onde ir. Sentei-me naquele banco de cozinha abandonado, velho, ali mesmo no fim do quintal. Fechei os olhos. Não sei quanto tempo passou. Senti os meus pés como se ganhassem raízes naquela terra húmida da horta, um peso que me prendia ao chão. À minha volta, as galinhas cacarejavam no galinheiro, uma rola algures... o arrulho constante, aquela sinfonia miúda de sons e odores que entrava sem pedir licença. Uma espécie de anestesia que eu tanto, tanto necessitava, mas que não cura nada, apenas adormece.

Chamaram-me. Aquela voz que quebra o deambular hipnótico. O almoço. O ritual familiar dos domingos que parece sempre uma peça de teatro onde me esqueci do texto. Carne assada, batatas douradas, o cheiro que noutros tempos... a gula seria quase um pecado de tão bom. Mas mal toquei na comida. Nada me sabia a nada. Mastigar por obrigação, engolir o silêncio da mesa. Nada me satisfez.

Veio a tarde e com ela o dilema de sempre. Ficar e alimentar esta apatia que me esmaga ou fugir, inventar uma fuga desta realidade que eu recuso, que não quero para mim, mas que está aqui. Saí de casa porque as paredes estavam a apertar-me o peito, sufocava ali dentro. Caminhei sem ver as ruas. Deixei que os passos decidissem por mim e, quando dei por mim, estava a olhar para o Alto do Gódio. 

Sentei-me naquela pedra. A pedra que guardava a sombra do depósito. O sítio onde dois corações... tantas confissões, tantos segredos que o mundo não podia ver. Mas hoje... hoje nada senti. Um gelo estranho. Apenas uma chama esmorecida, quase morta, ali a tremer no peito. Ela não vinha. Eu sabia que ela não vinha hoje com aquele seu sorriso dourado que costuma mudar a cor das coisas. Um aperto cá dentro, uma certeza amarga que vaticinava um destino que eu não queria, que odeio pensar. Olhava para a frente e o futuro parecia um muro cinzento, sem rasgos. Fiquei ali. Deixei-me ficar. As memórias dos tempos felizes tentavam aparecer, mas vinham obnubiladas, manchadas pelas recordações do presente que estragam tudo. 

O tempo foi escorrendo, aquelas horas imparáveis que não querem saber se estamos prontos ou não. O dia despediu-se devagar, trazendo aquelas sombras longas, fantasmagóricas, que vão anunciando a noite. E a noite traz sempre o que a gente tenta esconder.

Os passos trouxeram o corpo de volta. A mente continuava lá atrás, aprisionada, sem conseguir decidir um único milímetro do meu destino. Entrei em casa envolto naquela penumbra que ia crescendo e ocupando os cantos todos. 

Fechei-me no quarto. Sentei-me na borda da cama, sem forças nem para abrir o caderno, sem vontade para este diário... Procurei a única coisa que ainda me segura, que me amarra ao presente para eu não sumir, a fotografia dela. Encostei-a contra o peito. Apertei-a com força, de olhos fechados, a desejar com uma violência triste que fosse ela, a pele dela, o calor dela, e não este pedaço de papel frio que me devolve um abraço impossível. 

O dia de amanhã... não sei. Não sei como vai ser. Nem o futuro... nada.


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