O Espaço Entre Nós
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Sábado, 26 de Fevereiro de 1977
Apanhar a água com as mãos é impossível manter. Escoa-se toda, não fica nada, só os dedos húmidos e este frio. A Dila está a afastar-se. Eu sei que está. Quanto mais aperto os dedos, mais depressa ela…
Acordei com isto na cabeça. Um peso cá dentro. Moçambique? Que se lixe Moçambique, na segunda-feira logo se vê. Hoje não. Hoje o mundo é só este dia. Quero que seja só este dia. Viver um bocado de cada vez. Mentira. Não consigo. Mas vou correr para a paragem. Tenho de a ver. O peito aperta tanto que parece que vai estalar. Lá estava ela. O meu sol. Mas o sol hoje tem olheiras fundas, uma névoa cinzenta.
— Olá, Dila. Que bom ver-te.
O sorriso saiu-me limpo, mas ela…
— Olá, António… Vês-me todos os dias…
— E é isso que quero fazer o resto da minha vida.
Disse-o sem pensar. A boca anda mais depressa que o miolo. Uma promessa enorme, pesada, atirada para o meio da rua. Ela sorriu. Mas já não é a Dila. É outra pessoa, uma sombra que eu amo com uma força que me magoa.
— Para o resto da vida… — parou — …dizes palavras que falam do futuro… como eu gostava de falar assim…
Um nó na garganta. Não sei o que lhe vai na alma, não entendo esta guerra que ela traz lá dentro. Sinto-me tão pequeno. Tão inútil. O que é que eu faço? O que é que se faz quando a pessoa que amamos está a desaparecer à nossa frente?
O trólei chegou. Ainda bem. Aquele estrondo de metal salvou-me de pensar. Subimos os degraus. Ela hesitou outra vez para escolher o lugar. Aquele desconforto… Será de mim? Será que a minha presença a esmaga? Se calhar queria estar sozinha para não ouvir os pais, para não… Fiquei ali de pé, especado ao lado do banco. Não sei quanto tempo passou. Um estúpido a olhar para o vazio.
— Não te sentas?
A voz dela trouxe-me de volta. Limpou o nevoeiro.
— Desculpa. Ando com tantas coisas na cabeça que desliguei por momentos…
— Compreendo-te… também ando um pouco assim…
Silêncio. O trólei a abanar.
— Vejo pela tua cara que não tens dormido.
— É verdade. — E não disse mais nada. Ficou por aí.
— Os teus pais têm-te pressionado…
— Não. Não falaram mais… no assunto. Mas o olhar deles de censura e o seu silêncio doem mais do que quaisquer palavras.
— Que mais podem fazer? — Perguntei, mas no fundo já sabia. Não queria era ouvir.
— Estão à espera…
À espera de quê? O mundo inteiro cabe nessa frase. Medos, dúvidas, coisas que não quero ver.
Chegamos ao Bonfim. Um silêncio pesado. Nem nos tocámos. Parecíamos dois estranhos a andar para o mesmo sítio, mas a milhas de distância. Nem um cumprimento com a mão. Um "até logo" seco, solto no ar, e cada um para o seu lado.
No liceu, a cabeça não segurava nada. As aulas passaram por mim como fumo. Houve um furo nas aulas. Não saí a correr. Fiquei paralisado. Fui para a biblioteca porque na segunda-feira há teste, mas as letras fugiam das páginas. Não entrou nada. Não me importo.
As aulas terminaram. Voltamos juntos para a paragem. O trólei vinha a abarrotar. Encolhemo-nos num canto. Protegi-a dos encontrões, mas entre nós havia um abismo que eu não podia, ou não queria passar. Um fosso imenso, um abismo escuro. Eu queria puxá-la para mim, a minha mente gritava por ela, mas o silêncio dela era sagrado. Tinha de a respeitar. Tinha de a deixar no seu recanto, mesmo que isso me matasse.
Saímos. Cada um na sua paragem. O espaço entre nós cresce e faz um barulho ensurdecedor no meu peito. Entrei em casa sem forças, os braços caídos, a comida não me passa na garganta. E depois este pensamento a moer, eu estou mal, mas ela… ela está no meio daquele inferno, com aqueles olhares.
O dia fechou-se.
O quarto está escuro.
Tentei estudar, pus música, mas os pensamentos gritam mais alto que o som.
Não vale a pena esperar pela noite ou pelo amanhã. O sol não vai voltar tão cedo, e o quarto fica cada vez mais frio antes de eu fechar os olhos.
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