O Silêncio das Mãos Proibidas

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Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 1977

Ontem esmagou-me e a noite não levou nada embora. Acordei com este peso, uma culpa que não é minha, que não faz sentido nenhum. Que mal tem? Andar de mão dada. Olhar para ela. Toda a gente julga, as leis dão cabo de nós, os pais dela, a igreja deles… eu mudava de religião ontem mesmo, mudava de tudo, mas não serve de nada. O desassossego agarra-se ao peito.


Saí e as ruas estavam vazias de gente, mesmo cheias. O frio cortava, mas eu não sentia o frio, sentia outra coisa. Na paragem, lá estava a Dila. O sorriso que me deu… não era o dela. Faltava-lhe a luz, estava baço. Aquela tristeza colou-se-me aos olhos e eu só quis mentir, quis inventar um sol que não existia naquele céu cinzento de chumbo.


— Olá meu raio de Sol. Quem bom é ver-te logo pela manhã neste dia radioso.

— Bom dia António. É bom ver que pelo menos um de nós está feliz.


A voz dela pesava toneladas. Tive de continuar com a farsa, a rir por fora enquanto tudo cá dentro se torcia.


— Enganas-te se achas que estou feliz por causa do dia… não é o dia que anima o meu espírito, é a tua presença que ilumina o meu dia. Não importa se dormi bem ou se trago problemas que não vislumbro solução. O que importa realmente é estar contigo, juntinhos… ou afastados dez centímetros ou um metro.


Ela corou. O trólei chegou com aquele bambolear característico, interrompendo tudo. Sentámo-nos lá em cima, no lugar do costume, mas a distância parecia maior. Cada vez que os degraus rangiam e alguém subia para o primeiro piso, ela encolhia-se. O medo cravado nos olhos dela, a vergonha de ser vista comigo. Aquilo doeu-me.


— Sabes uma coisa Dila… pensei muito na nossa conversa de ontem e sabes que mais… não devemos deixar que aquilo que nos une seja limitado por barreiras físicas. Basta-me estar perto de ti… mesmo sem te tocar. Vamos deixar que o tempo amacie a postura dos teus pais e quem sabe se algum dia irão aceitar o nosso… - A palavra amor ficou presa, arranhou-me a garganta, berrou cá dentro mas não saiu. Resvalou para um escombro qualquer. - … a nossa amizade.

— É muito bom saber que vês o mundo dessa forma… Como eu gostava que fosse assim…


E o silêncio instalou-se, pesado como a humidade, até chegarmos ao Bonfim. Acompanhei-a até ao liceu sem dizer mais nada. À porta, disse-lhe que precisava do sorriso dela, que o meu dia dependia disso. Implorei com os olhos. Ela foi buscar lá ao fundo, no meio daquela névoa, uma réstia de brilho. Guardei-o como um segredo.


No meu liceu, a revolução continua a flutuar pelas salas vazias. Há uma liberdade estranha, ninguém sabe bem o que fazer com ela, os professores faltam, os contínuos desaparecem, tudo parece suspenso. 


Num furo, desci até ao Rainha Santa. A Dila estava lá com a Gisela. O coração deu um murro nas costelas. A Gisela, sempre com aquele tom protector, disparou:


— O que fizeste à minha “ama e senhora”?


A Dila olhou-me, a pedir silêncio com os olhos. Mas eu estava dorido.


— Nada de mal lhe fiz, por vezes nem sempre estamos com disposição de andarmos a saltitar em volta das pessoas.


Um tiro directo à Gisela. A Dila censurou-me com o olhar, mas houve um esgar de riso que lhe escapou. Caminhámos os três. Andámos sem rumo pelas ruas, afastados por convenções invisíveis, mas o espaço entre nós estava cheio. Eu sentia a presença dela na minha pele, como um casaco quente.


Depois, o regresso para São Pedro. O trólei outra vez. O nervosismo dela voltou, a electricidade do medo a congelar-lhe os ombros sempre que a porta abria. Falei de coisas sem importância, as notas, os rapazes da escola, o tempo, qualquer disparate para preencher o vazio e afastar os fantasmas.


— António, importas-te que saiamos em paragens diferentes?

O soco no estômago. O medo de ser vista a descer comigo. Disse-lhe que não, que estava tudo bem. Mentira. O peito apertou-se até faltar o ar.


Cheguei a casa e fechei a porta. O dia acabou ali. Não há mais linhas para escrever, não há mais nada para inventar. Só me resta ouvir a música no rádio, olhar para os livros e esperar que as horas passem depressa, que a noite caia e me devolva ao início de tudo, onde ela espera por mim na paragem, mesmo que seja para sofrermos em silêncio.



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