O Crepúsculo das Mãos Proibidas
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Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 1977
A noite não teve fim, ou teve demasiados. Os sonhos a desfazerem-se em imagens pesadas, depois os olhos abertos no escuro, a contar os minutos até à manhã. Tanto tempo a querer que o sol nascesse, a desejar este dia, e agora... agora o medo. Uma coisa no peito que apertava, o mundo a parecer que ia cair a qualquer momento. Havia palavras cá dentro. Palavras que se prendiam na garganta, que eu não queria dizer, que preferia esquecer que existiam.Saí à rua. O corpo foi. A mente dizia para parar, mas os pés continuaram a andar pelo passeio calcário, a descer a rua. Não era doença, era... um terror no estômago, um peso absurdo à medida que a paragem do trólei se aproximava.
Cheguei. Nada. Ninguém. O vazio da rua fria. A Dila não estava lá. E, por um segundo, um segundo terrível que me envergonhou, desejei que ela não viesse. Desejei que o trólei passasse e a rua continuasse vazia. Que pensamento... sacudi a cabeça, a tentar afastar as sombras. Começou a chegar gente, os rostos cinzentos da manhã, os casacos grossos. Ela não. O nervoso a crescer, miudinho, a roer por dentro.
Depois, a esquina. Ela dobrou a esquina. O caminhar era o mesmo, sereno, mas havia um desalinho qualquer na postura. Viu-me. Não houve sorriso. Nenhum. Só quando chegou mesmo perto é que os olhos se cruzaram, carregados, umas olheiras profundas a escurecer-lhe o rosto. O frio instalou-se antes de qualquer palavra.
— Olá, Dila, o que tens?
O medo de que ela já soubesse. De que tudo estivesse descoberto.
— Olá, António… não é nada, apenas uma dor de cabeça.
Não era. A voz dela não era aquela.
— Soubeste de alguma coisa? — a pergunta saiu-me pequena, quase num sopro.
O olhar dela mudou. Havia um sobressalto ali, um pânico que nunca lhe tinha visto. Ela sabia.
— Disseram-te alguma coisa? Como soubeste? Quem te disse? — as palavras dela vieram depressa, atropeladas, os olhos fixos nos meus, a implorar e a temer.
— Disseram-me alguma coisa? De que falas? Eu é que pergunto se ouviste dizer alguma coisa...
As perguntas a baterem umas nas outras, sem nexo. Nenhum de nós a largar o que guardava. O trólei chegou, o barulho do trânsito a cortar o resto das frases. Subimos os degraus em silêncio.
No primeiro piso, fomos para trás. O banco do costume, longe dos olhares. Ela sentou-se encostada ao vidro, um desconforto que a encolhia. O silêncio estava a sufocar-me.
— Então que se passa? Dizes-me o que tens ou o que aconteceu que te deixou nesse estado...
Ela virou o rosto para a janela. O reflexo no vidro mostrou um brilho rápido. Uma lágrima. O aperto no meu peito duplicou.
— Por favor, diz-me o que tens. Estás a assustar-me.
Nada. O ruído do trólei no empedrado da estrada, os solavancos. Depois, o rosto a virar-se para mim, devagar.
— Aconteceu uma coisa má, António… — e a frase ficou ali, suspensa no ar cinzento do autocarro.
— Má como? Diz-me como posso ajudar.
— Não podes.
Virou-se outra vez para a janela. O perfil rígido. Outra lágrima a descer, livre agora. Não consegui ficar a olhar. Levei a mão ao rosto dela, os dedos a sentirem a pele fria, e curvei-lhe o rosto para mim. Ela limpou o rasto húmido depressa, num gesto mecânico, mas os olhos... aqueles olhos que costumavam ser claros estavam fundos, cheios de uma névoa pesada.
— Por amor de Deus, diz-me o que posso fazer.
A voz já me saía desesperada. A dor dela estava ali, exposta, a pedir para ser dividida. E então as palavras vieram, saídas do peito com esforço:
— Na sexta-feira, quando cheguei a casa, a minha mãe mandou-me ir para o quarto até o meu pai chegar à noite. Ainda perguntei o que tinha acontecido, mas ela recusou responder. À noite, quando o meu pai chegou, ouvi a minha mãe a conversar com ele. Chamaram-me à sala e mandaram os meus irmãos irem para os seus quartos. Estava muito assustada. Então o meu pai disse que foram contar lá a casa que me tinham visto de mão dada com um rapaz. Perguntaram-me se era verdade. Primeiro hesitei, mas depois não desmenti. Ainda tentei explicar que éramos amigos e que não se passava nada de mal. Não me escutaram. Começaram por reforçar o que já haviam dito. Era muito nova para “essas coisas”. Chorei, disse que não era nada do que eles estavam a pensar. Não me escutaram. Disseram que ou acabava contigo ou que deixava o liceu. A decisão era minha. Chorei todo o fim de semana. Não sabia como te contar isto…
Um soluço cortou o final. Os olhos dela voltaram a fugir para a rua que passava depressa lá fora.
O ar faltou-me. Uma pancada seca no meio do peito, a certeza física de que o chão tinha desaparecido. Não a voltar a ver. O liceu vazio. A paragem vazia. Doeu. Uma dor que parecia não caber no banco daquele trólei. Mas olhei para ela, para a fragilidade daqueles ombros, e engoli o que tinha para dizer. O meu problema... o meu problema ficava para depois. Não podia atirar-lhe com mais peso.
— Dila... Vamos pensar em algo. Não quero prejudicar-te em nada. Vamos encontrar uma solução.
Ela olhou-me. Um sorriso que não era um sorriso, a coisa mais triste que já vi.
— Sabes, António, na nossa idade só temos que obedecer aos nossos pais. Mesmo que isso signifique colocar-mos em pausa aquilo… — os lábios hesitaram, a procurar o limite da palavra — que nos faz sentir bem e… de quem gostamos.
Havia uma demolição a acontecer dentro de mim, mas a voz saiu-me, quase sem eu mandar nela, a tentar segurar o que se estava a partir.
— Eu não quero perder… o que temos. Mantemos distância. Não precisamos de dar a mão... — cada palavra parecia arrancar alguma coisa por dentro — Prefiro ter sentido pelo menos uma vez o contacto suave das tuas mãos do que passar a eternidade a imaginar como seria fazê-lo.
Os olhos dela encontraram os meus, húmidos, cheios de uma gratidão que doía tanto como a perda. Dois condenados numa manhã fria.
Caminhámos até ao liceu. Um espaço vazio entre os nossos corpos, dois palmos de distância que pareciam quilómetros, o rigor do mundo a impor-se na calçada. Uma distância necessária, disseram.
Quando ela entrou nos portões, a luz apagou-se. O resto do dia não existiu. As aulas, as horas, os rostos dos outros, os passos pelos corredores, nada disso deixou marca, nada disso mereceu um pensamento. Eu não estava lá. Era só um corpo a flutuar no cinzento, à espera que as horas passassem depressa, a desejar o quarto escuro, a cama, a noite. O silêncio total. Apenas o silêncio para ver se a cabeça parava de doer e os pensamentos finalmente se calavam.
Depois, a esquina. Ela dobrou a esquina. O caminhar era o mesmo, sereno, mas havia um desalinho qualquer na postura. Viu-me. Não houve sorriso. Nenhum. Só quando chegou mesmo perto é que os olhos se cruzaram, carregados, umas olheiras profundas a escurecer-lhe o rosto. O frio instalou-se antes de qualquer palavra.
— Olá, Dila, o que tens?
O medo de que ela já soubesse. De que tudo estivesse descoberto.
— Olá, António… não é nada, apenas uma dor de cabeça.
Não era. A voz dela não era aquela.
— Soubeste de alguma coisa? — a pergunta saiu-me pequena, quase num sopro.
O olhar dela mudou. Havia um sobressalto ali, um pânico que nunca lhe tinha visto. Ela sabia.
— Disseram-te alguma coisa? Como soubeste? Quem te disse? — as palavras dela vieram depressa, atropeladas, os olhos fixos nos meus, a implorar e a temer.
— Disseram-me alguma coisa? De que falas? Eu é que pergunto se ouviste dizer alguma coisa...
As perguntas a baterem umas nas outras, sem nexo. Nenhum de nós a largar o que guardava. O trólei chegou, o barulho do trânsito a cortar o resto das frases. Subimos os degraus em silêncio.
No primeiro piso, fomos para trás. O banco do costume, longe dos olhares. Ela sentou-se encostada ao vidro, um desconforto que a encolhia. O silêncio estava a sufocar-me.
— Então que se passa? Dizes-me o que tens ou o que aconteceu que te deixou nesse estado...
Ela virou o rosto para a janela. O reflexo no vidro mostrou um brilho rápido. Uma lágrima. O aperto no meu peito duplicou.
— Por favor, diz-me o que tens. Estás a assustar-me.
Nada. O ruído do trólei no empedrado da estrada, os solavancos. Depois, o rosto a virar-se para mim, devagar.
— Aconteceu uma coisa má, António… — e a frase ficou ali, suspensa no ar cinzento do autocarro.
— Má como? Diz-me como posso ajudar.
— Não podes.
Virou-se outra vez para a janela. O perfil rígido. Outra lágrima a descer, livre agora. Não consegui ficar a olhar. Levei a mão ao rosto dela, os dedos a sentirem a pele fria, e curvei-lhe o rosto para mim. Ela limpou o rasto húmido depressa, num gesto mecânico, mas os olhos... aqueles olhos que costumavam ser claros estavam fundos, cheios de uma névoa pesada.
— Por amor de Deus, diz-me o que posso fazer.
A voz já me saía desesperada. A dor dela estava ali, exposta, a pedir para ser dividida. E então as palavras vieram, saídas do peito com esforço:
— Na sexta-feira, quando cheguei a casa, a minha mãe mandou-me ir para o quarto até o meu pai chegar à noite. Ainda perguntei o que tinha acontecido, mas ela recusou responder. À noite, quando o meu pai chegou, ouvi a minha mãe a conversar com ele. Chamaram-me à sala e mandaram os meus irmãos irem para os seus quartos. Estava muito assustada. Então o meu pai disse que foram contar lá a casa que me tinham visto de mão dada com um rapaz. Perguntaram-me se era verdade. Primeiro hesitei, mas depois não desmenti. Ainda tentei explicar que éramos amigos e que não se passava nada de mal. Não me escutaram. Começaram por reforçar o que já haviam dito. Era muito nova para “essas coisas”. Chorei, disse que não era nada do que eles estavam a pensar. Não me escutaram. Disseram que ou acabava contigo ou que deixava o liceu. A decisão era minha. Chorei todo o fim de semana. Não sabia como te contar isto…
Um soluço cortou o final. Os olhos dela voltaram a fugir para a rua que passava depressa lá fora.
O ar faltou-me. Uma pancada seca no meio do peito, a certeza física de que o chão tinha desaparecido. Não a voltar a ver. O liceu vazio. A paragem vazia. Doeu. Uma dor que parecia não caber no banco daquele trólei. Mas olhei para ela, para a fragilidade daqueles ombros, e engoli o que tinha para dizer. O meu problema... o meu problema ficava para depois. Não podia atirar-lhe com mais peso.
— Dila... Vamos pensar em algo. Não quero prejudicar-te em nada. Vamos encontrar uma solução.
Ela olhou-me. Um sorriso que não era um sorriso, a coisa mais triste que já vi.
— Sabes, António, na nossa idade só temos que obedecer aos nossos pais. Mesmo que isso signifique colocar-mos em pausa aquilo… — os lábios hesitaram, a procurar o limite da palavra — que nos faz sentir bem e… de quem gostamos.
Havia uma demolição a acontecer dentro de mim, mas a voz saiu-me, quase sem eu mandar nela, a tentar segurar o que se estava a partir.
— Eu não quero perder… o que temos. Mantemos distância. Não precisamos de dar a mão... — cada palavra parecia arrancar alguma coisa por dentro — Prefiro ter sentido pelo menos uma vez o contacto suave das tuas mãos do que passar a eternidade a imaginar como seria fazê-lo.
Os olhos dela encontraram os meus, húmidos, cheios de uma gratidão que doía tanto como a perda. Dois condenados numa manhã fria.
Caminhámos até ao liceu. Um espaço vazio entre os nossos corpos, dois palmos de distância que pareciam quilómetros, o rigor do mundo a impor-se na calçada. Uma distância necessária, disseram.
Quando ela entrou nos portões, a luz apagou-se. O resto do dia não existiu. As aulas, as horas, os rostos dos outros, os passos pelos corredores, nada disso deixou marca, nada disso mereceu um pensamento. Eu não estava lá. Era só um corpo a flutuar no cinzento, à espera que as horas passassem depressa, a desejar o quarto escuro, a cama, a noite. O silêncio total. Apenas o silêncio para ver se a cabeça parava de doer e os pensamentos finalmente se calavam.
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