O Gelo que Arde nas Mãos de Febre

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Sábado, 19 a 23 de Fevereiro de 1977

Início das férias. O corpo pesado, colado aos lençóis, recusando-se. Uma constipação vinda do nada, ou talvez não do nada, mas de tudo o que ficou ontem a latejar na cabeça. Febre. Momentos de um vazio cinzento, depois o calor na testa. A minha mãe traz o caldo, o carinho que alimenta o corpo, mas a mente está noutro lado, perdida.

Entre a semi-consciência e o delírio, sinto a mão da Dila. Uma mão pequena, suave, que descarrega um frio bom na minha testa a aplacar este fogo. Alucinações, claro. O que havia de ser?

No domingo, a mesma nuvem pesada. Não consigo levantar-me. Outra vez ela, nos sonhos, na imaginação, a cuidar deste enfermo que se julga entre a vida e a morte. Um exagero dramático, eu sei, sinto-me o senhor da situação no meu próprio teatro de cama, mas a verdade é que essa imagem é o fio que me prende. O único sustentáculo. Ao fim do dia, o corpo cede um pouco, as melhoras chegam, mas prefiro ficar hoje no mesmo sítio de ontem, resguardado.

A segunda-feira nasce mais pacificada. Sem dores. Só uma tontura ligeira quando me sento à mesa com a família. Eles olham para mim com um sorriso indisfarçado, a rir-se do meu drama de doente. Vou para a sala, ligo a televisão, mas os sons ferem. O quarto acaba por ser o destino. Sempre o quarto. Fecho os olhos e juro que a mão dela está na minha, fria, a inundar o coração de uma chama ardente. Aquele passeio de sexta-feira... as mãos dadas, a proximidade que me desnorteia a cada passo. Os dedos entrecruzados no trólei, o balanço do carro, o silêncio cúmplice. A noite fecha-se e eu só quero que o tempo corra.

Terça-feira de Carnaval. A folia dos miúdos na rua começa cedo, as matracas, os gritos. Isso já não é para mim. Estou restabelecido. Há qualquer coisa no ar que me anima, mas não é a festa, é o fim destas férias curtas que não servem para nada. Também não são as aulas, passava bem sem elas. É a quinta-feira. Ansiava por quinta-feira de manhã, pelo momento de voltar a estar com ela. A saudade aperta tanto que parece falta de ar. Voltar a segurar-lhe a mão.

Para enganar o tempo, vou até ao CRM. A sala do grupo está cheia, o pessoal está a trabalhar nas maquetes para a nossa primeira exposição. Excelente. O tempo mexe-se quando as mãos se ocupam. Passamos a tarde a colar papel, a inventar foguetes e naves espaciais, a tentar replicar a maquete daquela série da televisão, o Espaço 1999. Mas a minha cabeça está no Monte. Quase corro até lá, só para a ver à distância, um vislumbre que fosse. Quando pego numa ferramenta fria de ferro, o meu coração acelera. Não sinto a rigidez do metal, sinto o frio da mão dela, aquela electricidade que me ilumina por dentro. A noite chega sem aviso. O cansaço arrasta-me para a cama. Falta só mais um dia. Um dia para ver a Dila. Para sentir o calor do coração dela através do frio das suas mãos.

Quarta-feira acorda com sol. Um dia excelente, menos frio. Saio animado, quase a voar em direcção ao CRM. Mas ali, nas minas, logo a seguir à casa do Manel... o meu coração pára. Parece-me ver a Dila. Corro. O peito a estalar. Quando chego perto... não é ela. Não é. É como um balde de água gelada na cara. Esmoreço. O dia desaba ali mesmo. Encolho-me dentro do casaco, o humor pesado, os pés arrastados. Pensei que o destino a estava a colocar no meu caminho... que estupidez. O gelo de fora não consome o calor que me afogueava por dentro, mas a manhã já era. Estou ali de corpo, mas o espírito ficou lá em cima, no Alto do Depósito, a reviver encontros passados. À hora do almoço, volto para casa. Os pés levam-me, eu só os sigo.

Se a manhã foi desolação, o almoço destrói o resto. O meu pai, entre garfadas, larga a bomba, "não saias de casa à tarde, vais comigo à sede do PCP para colher informações sobre a possibilidade de irmos para Moçambique".


Fico estarrecido. O sangue foge-me das faces. Pensei que isso já estava esquecido, que tinha ficado para trás. Mas não. Estava a marinar na cabeça deles. Agora, a realidade crua, deixar de ver a Dila. Partir.

A tarde arrasta-se, demolidora. Imagino-me num barco, a ver a Dila a ficar pequenina no cais, a despedir-se com um lenço... Era demasiado doloroso para mim pensar em deixar para trás aquela que secretamente amo… Que dor insuportável. Apetece-me fugir, correr até à casa dela, abraçá-la com toda a força do mundo e nunca mais largar. Mas que força tenho eu? Isto é o mundo dos adultos. Nós, os miúdos, não temos voz. Uma verdadeira ditadura.

O fim da tarde chega cinzento. O meu pai aproxima-se, não pergunta nada, não pede opinião. Apenas diz: "Vamos!". Tento esboçar uma palavra, uma recusa, mas o olhar dele empurra-me para fora. Quando chegamos à sede, fico na rua. Recuso-me a entrar. Se o assunto é de adultos, então que tratem disso eles, eu não quero saber. Uma hora depois, o regresso em silêncio. Olho para o meu pai de soslaio, a tentar adivinhar nos olhos dele o que me está destinado. Nada. O semblante está fechado. Nem preocupado, nem meditativo. Apenas fechado. Uma parede.

Entro em casa, digo à minha mãe que não janto. Fecho-me no quarto. A cama outra vez. Os pensamentos rodam como um turbilhão violento. Ontem ansiava pela quinta-feira, agora, esse momento está assombrado por esta notícia que não sei como lhe dar. Como vou dizer-lhe? Abracei a única imagem que acalma a tempestade no peito, amanhã vou estar com ela. Vou dar-lhe a mão. Segurá-la tanto, tanto, para que ela não possa partir, ou para que eu não consiga ir embora. O tumulto abranda um pouco, o silêncio da noite recolhe o meu medo.


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