A mão fria no jardim do tempo

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Sexta‑feira, 18 de Fevereiro de 1977

Ultimamente tenho sentido que cada dia me abre uma porta para o desconhecido. Não é uma porta bonita, nem segura. É só uma abertura qualquer, e eu passo. Hoje não foi excepção. Talvez fosse melhor. Não sei.

A manhã sorriu-me com o sol a espreitar pelos furos da persiana do meu quarto. A luz não entrou de rompante, veio em linhas finas, tímidas, como se também tivesse dúvidas. Levantei-me sem pressa, mas por dentro havia qualquer coisa que queria correr. O rádio da cozinha tocava uma música romântica que se ouvia por toda a casa, como se as paredes também precisassem de companhia. Dei por mim a trautear a canção enquanto procedia às minhas rotinas matinais. Não era bem cantar, era mais segurar-me a qualquer coisa que não fosse esta ansiedade que anda comigo.

A rua recebeu-me gélida, mas isso não foi suficiente para abrandar o ânimo que me afogueava. O corpo arrepiado, o peito em brasa. Havia uma ansiedade miudinha que beliscava o meu íntimo. Não era grande, mas insistia. Não estava a compreender, mas também não queria compreender muito. Porque mais abaixo, na paragem, estava a cura para todos males que me possam afligir. Ou eu acreditava nisso. Ou precisava de acreditar.

Cheguei à paragem, não havia vivalma. O silêncio também é uma espécie de frio. Ainda era cedo. Não havia pressa. O destino não se apressa. Eu é que me apresso dentro dele. Fiquei ali, a olhar para o nada, a fingir que não esperava por ninguém em particular.

Minutos passados e vejo-a no seu passo apressado como se viesse a fugir do frio. Ou de qualquer coisa que não me disse. A Dila. O nome dela chegou-me antes do corpo. Um sorriso maravilhoso iluminou aquele momento que quis guardar para mim, como se pudesse pôr aquilo num bolso e nunca mais perder.

– Olá António. Hoje está muito frio. – disse ajustando o casaco ao pescoço.
– É verdade Dila. Hoje está um frio de rachar.

Rimos da evaporação que saía das nossas bocas enquanto falávamos. Rimos do nosso próprio sopro, como se fosse graça ver o que normalmente não se vê. Talvez fosse só uma desculpa para não ficarmos calados.

– Estás muito bem disposto – disse chegando-se mais para mim para se proteger do frio e das pessoas que iam chegando.

Ela aproximou-se e eu não recuei. O corpo dela mais perto do meu, e eu a tentar parecer natural dentro de um momento que não tinha nada de natural.

– Um dia tu vais perceber – respondi de forma enigmática, mas um sorriso não conseguia esconder o que me ia no coração.

Eu próprio não sabia bem o que é que ela havia de perceber. Talvez nada. Talvez tudo. Talvez que eu já vivia à volta dela sem ela saber.

O trólei chegou e subimos para o nosso lugar de eleição. Um pouco afastado do mundo e das vistas de quem entrasse. Aquele canto era uma espécie de território neutro, onde eu podia fingir que o resto não existia.

– Sabes Dila, hoje só tenho as três primeiras aulas e tu por acaso não vais ter algum furo?
– Os professores têm faltado tanto que o mais certo é não aparecerem hoje também.
– Então fazemos o seguinte. Assim que eu terminar as aulas vou para a entrada do teu liceu, se não tiveres aulas vens ter comigo. Pode ser? – disse ansioso.
– Claro que sim… – depois de uma pausa continuou – Palpita-me que os professores das duas últimas aulas vão faltar. – disse isto com um sorriso matreiro.

Adorei a nossa cumplicidade. Não foi só o conteúdo, foi o tempo, o olhar, a pausa antes do “palpita-me”. A forma pronta como acedeu à minha sugestão encheu o meu coração. E ao mesmo tempo deu-me medo. Porque quando algo começa a parecer possível, também começa a parecer frágil.

Após uma breve despedida seguimos cada um para o seu liceu. A ansiedade era tanta que os minutos pareciam horas e os professores pareciam falar a um ritmo muito lento. As palavras deles batiam nas paredes da sala e caíam no chão, não chegavam a mim. Sempre que a campainha tocava eu era o primeiro a sair da sala, como se isso precipitasse o toque de entrada da aula seguinte. Como se eu pudesse empurrar o tempo com o corpo.

A última aula, quando terminou, foi como se houvesse um tiro de partida para uma corrida de cem metros. Saí ligeiro e quando cheguei à entrada do Rainha Santa já a Dila me esperava com um lindo sorriso. O coração disparou outra vez, como se não tivesse aprendido nada com as aulas todas.

– Já estás aqui há muito – perguntei.
– Não. Cheguei há dois minutos.

Dois minutos podem ser uma eternidade ou nada. Para mim, naquele momento, eram um alívio. Ela tinha vindo. Ela estava ali.

– Vamos até ao Jardim da Águas? – perguntei. Havia uma razão para isso. Pouca gente para lá ia. É um jardim frondoso, com árvores de várias espécies, algumas de grande porte, tem veredas onde podemos andar sem sermos vistos e sentarmo-nos nos bancos espalhados um pouco por todo o lado.

Eu sabia tudo isto de cor. Não era só um jardim. Era um lugar onde o mundo ficava mais longe. Ela olhou para mim, como que a ler o que me ia na mente, e concordou em seguirmos adiante.

Tal como previra, os portões enormes de ferro estavam abertos e não havia ninguém por perto. Seguimos por um carreiro e apercebi-me de que ela esfregava as mãos com o frio. O gesto era simples, mas em mim acendeu qualquer coisa. Sem reflectir peguei na sua mão. Estava gelada. Procurei aquecê-la com a minha outra mão.

Só depois reparei que a Dila olhava intensamente para mim. Parei, mas não recuei. Fiz frente àquele momento. Ela também não se afastou nem recusou aquele gesto inusual. O mundo podia ter parado ali e eu não teria dado por isso.

Por momentos ficamos mudos e quedos. Como se fosse algo natural ela colocou uma das mãos no bolso do seu casaco e aceitou a minha como abrigo para o frio. Uma mão dentro do bolso, a outra dentro da minha. Um esconderijo. Um segredo.

Virou-se dizendo:
– Vamos para diante que parados aqui ainda nos confundem com estátuas.

Estas palavras trouxeram-me de volta. Continuávamos de mão dada e ela sugeria continuarmos caminho… de mão dada. Não tive palavras para rematar a solidez da sua postura. Ela parecia mais certa do que eu. Eu sentia-me a tremer por dentro, mas por fora deixei-me ir.

Seguimos caminho por entre árvores e arbustos de que não sei o nome. Não precisava de saber. Debruçamo-nos sobre fontes seculares retiradas da cidade do Porto e trazidas para ali como repositório das fontes de antigamente. A água corria, indiferente a tudo. Nós não.

Não sei o tempo que passou, mas também não estive propriamente preocupado com o tempo nem com coisa nenhuma. Aquela nova proximidade, aquele contacto consentido estava para além do que sonhara para hoje. Eu nunca tinha ousado sonhar tanto. E, no entanto, parecia pouco para o que eu sentia.

Vagueamos um pouco por todos os recantos do jardim. Falámos do presente… de mãos dadas… como se esta tivesse sido sempre a natureza da nossa relação. Como se fosse óbvio. Como se não houvesse um antes. Absorvi todas as suas palavras, adorei todos os momentos que passamos juntos. E ao mesmo tempo tinha medo de cada segundo, porque temia que cada segundo podia ser o último também.

As horas, o malfadado tempo, nos momentos mais inoportunos lembra-nos que somos seus escravos. Tivemos de voltar ao liceu. O que mais doeu não foi o tempo que teria de esperar pela sua saída, mas libertar-me do contacto com a pele fria da sua mão que tanto aqueceu o meu coração. Largar aquela mão foi como largar um lugar onde eu finalmente cabia.

A espera foi dolorosa. Aqui o tempo foi padrasto, não ajudou. Voltei para a entrada do seu liceu até vê-la surgir no meio da turba feminina. Ela vinha no meio de tantas e, mesmo assim, era a única que eu via. Dirigimo-nos um para o outro. O meu coração batia tão forte que receava que fosse ouvido por quem passava.

Demos a mão e seguimos para a paragem. A naturalidade do gesto em nós contrastava com o medo do que os outros pudessem ver. Por contenção ou receio de ser vista retirou a sua mão da minha dizendo que era melhor assim. Compreendi. Aceitei. Pelo menos por fora. Por dentro, doeu.

No trólei, primeiro no aperto e mais tarde juntos no piso superior, perguntei-lhe se ela estava bem.

– Estás bem?
– Claro que sim. Porque não haveria de estar?

A resposta era simples, mas eu procurava outra coisa por baixo dela.

Perguntei-lhe se já tinha as mãos quentes.

– Já tens as mãos quentes?
– Como podes ver, estão sempre frias – disse, entregando-me a sua mão.

Aquele gesto foi mais do que um gesto. Foi um convite, um recomeço, uma continuação.

– Nesse caso terei de as aquecer até ficarem em brasa – respondi.
– Nesse caso vais ter muito trabalho – disse e rematando – Sempre tive as mãos frias.
– Então nunca as soltarei – disse segurando gentilmente a sua mão.

Sorrimos um para o outro numa aceitação deste pacto mudo. Não assinámos nada, não prometemos nada, mas qualquer coisa ficou dita ali. Ao chegarmos a S. Pedro ela retirou a mão dizendo que este era território dos pais delas e era um risco que não valia a pena correr. Assenti e seguimos caminho. Eu sabia que ela tinha razão. Saber não alivia.

No sítio do costume o aperto de mão já não foi algo fugaz mas sim mais sentido, intencional. Aquele contacto era a chave para uma porta que algum dia haveríamos de abrir. Não sabíamos quando, nem como, mas a chave já existia. Só voltei para casa depois de a ver desaparecer ao cimo da rua. Enquanto a via afastar-se, senti que uma parte de mim ia com ela e outra ficava ali, parado.

Não caminhei, levitei. Não senti a rua nem os passos. Não havia ninguém, não havia som, não havia nada. Apenas aquela mão fria que deixou em mim uma sensação permanente de pertença. Como se eu tivesse finalmente encontrado um lugar onde podia pousar o coração. E, ao mesmo tempo, como se esse lugar pudesse desaparecer a qualquer momento.

A tarde seguiu o seu caminho e eu o meu. Não estávamos sintonizados. Procurei usar o tempo arrumando, dando sentido a qualquer coisa que logo a seguir não sabia o que pretendia com ela e voltava ao início com um gato que procura agarrar o rabo. Eu senti-me assim o resto do dia. A girar em torno de algo que não conseguia apanhar, nem largar.

A noite trouxe o cansaço que não sabia que tinha. Acolhi-a com apreço. Deitei-me de mão dada com aquela mão fria que a minha mente retivera nesta manhã. O corpo na cama, a mente no jardim, no trólei, na paragem. A mão dela já não estava, mas eu continuava a segurá-la. E talvez seja isso o mais perigoso de tudo.


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