O Incêndio dos Dias Breves
Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 1977
Ontem quando finalmente consegui adormecer trazia no peito o desconforto da conversa que tinha tido com a Dila. A noite foi de insónia. Tudo me pesava. O desconforto manteve-se por horas, um aperto surdo no escuro, até finalmente adormecer.
A alvorada entrou pela janela do meu quarto e com muito custo consegui empurrar o meu corpo para fora da cama. Um peso na cabeça dizia-me que a manhã não ia ser fácil, as têmporas a latejar contra o dia que começava.
O ar frio penetrante da rua, acordou-me definitivamente. Tinha de me mexer para aquecer. Estuguei o passo em direcção à paragem. A Dila já lá estava. Distraída olhava para as serras distantes.
Aproximei-me sorrateiramente para a surpreender, mas algo me fez parar… A sua figura recortada pelo sol a nascer para uma imagem retirada de uma história de fantasia. Um fada irradiante de luz. Os seus cabelos flamejavam em tons dourados. O perfil do seu corpo, todo ele era um fogo fátuo. A sua face, serena, parecia trazer consigo sonhos de encantar. Os seus lábios… Parei demoradamente a observá-los. De contorno perfeito, ligeiramente abertos eram um chamariz para os meus mais profundos desejos. Tomara eu poder… se ao menos… se este medo não me travasse a respiração.
— Olá António. Há quanto tempo estás aí? Parecidas uma estátua. — disse.
— Olá Dila. Acertaste. Era como eu estava… em contemplação… — calei o que não conseguia converter em palavras sem me denunciar em demasia.
— Em contemplação? De quê? — Perguntou, adivinhando a minha resposta.
— Precisas de perguntar? — respondi.
— Se eu soubesse não perguntava. — insistiu numa tentativa de me denunciar.
— Estava a admirar o dia… que assim que cheguei se transformou num dia radioso. — respondi fugindo ao óbvio.
— Estás muito poético.
— Nem imaginas quanto — respondi de forma sonhadora que não lhe passou despercebida.
Continuamos o diálogo depois de entrarmos no trólei que entretanto chegara. O barulho dos passageiros o chiar do metal, o tubo de ferro frio onde aperto as mãos para disfarçar o tremor.
— Hoje estás muito diferente de ontem.
— Sim? Em quê? — perguntei.
— Quando chegamos ao Bonfim, parecia que estavas deprimido. Hoje estás outra pessoa.
— Foram as tuas palavras que retive. Disseste que o que importava era o tempo que ainda tínhamos para nós. Fiquei a pensar nelas o resto do dia. O “ainda tínhamos” deixou-me de rastos porque senti que era o prenúncio do fim… — neste ponto ela interrompeu-me.
— Interpretaste mal. Não era prenúncio de coisa nenhuma. Que horror pensares isso de mim…
— Sei agora que não é essa a tua vontade. Daí o meu ânimo. E digo-te mais, estou disposto a agarrar todos os momentos, mesmo os pequeninos, nem que seja para dizer um olá…
Ela nesse momento não imaginava o quanto eu sentia estas palavras. Era uma promessa minha para todo o sempre… nem que fosse para dizer um olá… Ela saberia que eu estaria sempre presente. Um voto secreto gravado no peito enquanto o trólei balançava pelas ruas.
— Agora compreendo a razão porque estás tão animado e fico feliz por isso.
Chegamos ao Porto, acompanhei-a ao liceu e na despedida o seu “até amanhã” recebeu como resposta “ou não” que a deixou por momentos pensativa. Partimos cada um para o seu destino. O meu espírito estava de tal forma animado que a manhã avançou sem o sentir. As aulas, os professores, as correrias de rapazes nos corredores, tudo passou levemente por mim, como uma névoa. Na hora de ir para a cantina, entreguei a minha senha a um colega e corri para o liceu ao lado. O suor na testa, as pernas a responderem a uma urgência cega.
Vinha ela rua acima e quando me viu, sorriu. Não parecia surpreendida.
— Já sabia que vinhas ter comigo. — disse.
— Como é que sabias?
— Sabes António, conheço-te bem e consigo ler os teus pensamentos.
— Isso não! — exclamei, continuando — Tudo menos ler os meus pensamentos…
— Porque não? São maus?
— Não… são bons… — respondi com um sorriso matreiro que a fez corar.
— Agora vai ser assim? Vais deixar de almoçar? — perguntou para mudar de assunto.
— Quando estou contigo só preciso de respirar…
— Não quero que deixes de almoçar, senão ainda ficas doente.
— Doente já eu estou… e tu és a cura… por isso tenho de estar contigo para andar bem.
— Dizes cada coisa… — começou por dizer, mas o embaraço fê-la desviar os olhos para o chão.
Entramos no trólei e seguimos novamente num aperto que me não incomodou. A proximidade dos nossos corpos não nos era estranha e ao mesmo tempo ela tinha dito que se sentia protegida, o calor do casaco dela contra o meu braço. Em S. Pedro seguimos lentamente pelo caminho mais longo para assegurarmos mais uns minutos na companhia um do outro. Despedimo-nos com um aperto de mão que não foi um aperto, mas mais uma carícia prolongada que não se despegava, a pele a resistir à despedida. Via desaparecer ao cimo da rua e voltei para casa em passo ligeiro, sem pressa. Sonhava com os encontros de hoje.
A tarde foi uma sucessão de minutos e horas em contagem decrescente. Passou, fluiu sem pressa nem conteúdo. Apenas imagens da manhã surgiam e ficavam por momentos. Isto num círculo perfeito. Iam e voltavam. A boca dela, o sol no cabelo, o toque dos dedos. A noite chegou e fechou o ciclo, também sem pressa. Eu estava em paz comigo e com o mundo, ou talvez apenas deitado na penumbra a morder o eco do sorriso dela antes que o escuro apague as linhas deste dia.
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