O Teu Muito que é Muito Pouco
Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 1977
Os dias... um peso que se repete. Um cansaço mecânico. Sinto as coisas a descolarem-se cá dentro, como se a vida perdesse o ponto de apoio, o centro. Não há centro.
Acordei com a claridade cinzenta a lamber os vidros da janela. Lá fora, o burburinho habitual, os passos apressados de quem sabe para onde vai, a Vila que acorda cedo para a labuta. E eu sem forças para empurrar os lençóis. Um vazio antes de começar.
Saí. Caminhei pela rua abaixo como um fantasma entre as paredes húmidas. Estava ali, mas a minha cabeça... um mal-estar difuso, um nó cego que não sei explicar. Pensei na Dila. Se calhar com ela tudo muda. Muda sempre. Ou talvez seja só hum disfarce. Cheguei à paragem. O frio colava-se à pele. Esperei. Não havia pressa para ir a lado nenhum.
Estava longe, perdido, quando senti a presença dela ao meu lado. Um sobressalto físico no peito. Era ela. Primeiro o rosto sério, fechado, e depois... aquele sorriso. Um raio de sol a forçar a passagem pelas nuvens de Inverno.
— Olá, António. Estás muito pensativo hoje.
— Olá, Dila. Pois. Não sei... Acordei assim.
Ela olhou-me fixamente. Aqueles olhos que parecem escavar o que eu próprio tento esconder.
— Alguma coisa te preocupa?
— Não sei. Sinceramente. É um pressentimento... parece que algo de mau vai acontecer.
O silêncio estendeu-se entre nós, pesado, misturado com o fumo do cigarro de alguém que esperava ao lado. Ela franziu o sobrolho.
— É aquilo dos teus pais? De quererem ir para Angola?
— Não. Eles não têm falado disso. Não é isso. Não sei o que é.
O trólei chegou com o chiar do costume, quebrando tudo. Entrámos. Subimos os degraus estreitos para o piso de cima, sentando-nos naqueles bancos frios. O balanço do carro começava a embalar o silêncio.
— Não sei, sinto-me... deixa lá. Não pensemos mais nisto. Agora que estás aqui... estou bem.
Ela olhou para o vidro, para as ruas que passavam rápidas. Um meio sorriso, como se soubesse de algo que me escapava.
— Eu estou contigo. Sempre que posso.
"Sempre que posso". A frase bateu. Um estalido seco na minha cabeça. Então era isso. O eco daquelas palavras a abrir um buraco.
— Pois... mas é cada vez menos — a frase saiu-me antes que a pudesse travar.
— Cada vez menos? — perguntou, voltando-se para mim, intrigada.
— Sim. Pensa bem. Já não nos encontramos no Alto do Depósito, nem no Monte. Os fins-de-semana... já não existem. E agora nem sequer voltamos juntos depois das aulas. Nada.
Ela calou-se. O trólei oscilava nas curvas e o silêncio dela parecia mais pesado que o burburinho dos passageiros. Olhava para as mãos, depois de novo para a janela.
— Tens razão. Vemo-nos menos. Mas... o que importa é que ainda temos um tempo para nós. Este tempo.
— Para ti... o teu pouco é muito. Mas o teu muito... para mim é muito pouco. É tão pouco. — Desviei o olhar, apertei os dedos uns nos outros. — Quer dizer... se calhar estou a exagerar. Tu deves ter razão. Sabes que eu gosto... — ia dizer de ti, curvei o corpo para a frente, quase desisti da frase — ...de estar contigo.
— Sim... eu também gosto...
Gosta de quê? Ela não acabou. Deixou as palavras suspensas no ar abafado do trólei, cortadas a meio. Um vazio que magoava.
— Temos... tenho de aproveitar — corrigi-me, sentindo hum aperto na garganta, raiva de mim próprio por me expor assim — porque, a este ritmo, daqui a bocado não há nada para aproveitar.
— Não sejas pessimista, António. Vamos aproveitar o que temos, está bem?
Abanei a cabeça. O que podia eu fazer? Consentir. Ceder para não perder o resto. O meu espírito tinha razões que a minha lógica não conseguia domar.
— Se tu o dizes... assim farei.
Deixei-a no liceu. Um adeus rápido, sem demoras, com o tempo a morder-nos os calcanhares. Depois... as aulas. O rigor da rotina, as vozes dos professores, mas a minha cabeça tinha ficado presa nos bancos de cima daquele trólei. As palavras dela a magoarem, a marcarem a ferro. No fim, o regresso a casa foi lento. Sozinho. Não havia ninguém para partilhar o caminho. O mundo lá fora fazia um barulho ensurdecedor, mas eu não ouvia nada. Tudo mudo.
A tarde arrastou-se. Livros abertos na mesa, cadernos, as linhas azuis que não faziam sentido nenhum. Monotonia pura. O foco estava longe. Queria aquele raio de sol da manhã... não, não queria. Censurei-me por ser tão fraco, por depender assim de um rasgo de luz que se apaga quando quer. Tenho de seguir adiante. Tenho de...
Agora estou aqui. Deitado por cima da colcha, com a roupa vestida, os sapatos ainda calçados. Olho para o tecto, para as fendas no gesso que parecem linhas de um mapa impossível. Olho, mas a minha vista atravessa o tecto e perde-se no vazio. Fiquei assim, ausente, enquanto a noite entrava devagarinho pelas frestas, trazendo o prenúncio da insónia que já me conhece o corpo. Baixei os braços ao longo do colchão. Não luto mais. Deixo-me levar pela escuridão, que me apague de mim, que me dissolva neste quarto frio onde o teu silêncio ainda faz barulho.
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