O Sol que não era meu

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Terça-feira, 15 de Fevereiro de 1977

Dormir bem muda tudo. Ou quase tudo. Ou apenas finge que muda.

Acordei com uma espécie de leveza que não sei onde se guarda durante a noite. Talvez se perca e depois volte. Ou talvez seja só o corpo a enganar o resto.

O Sol entrou pelo quarto, não inteiro, só em bocados, pelos buracos da persiana. Um risco claro na parede, outro na cabeceira. E eu ali, dentro desse halo como se fosse possível caber dentro da luz de um dia qualquer. Não era o meu Sol. Era outro. Indiferente.

Lá fora, os sons já anunciavam vida. Carros, passos, qualquer coisa a começar sem mim. E mesmo assim havia aquela ansiedade pequena, quase ridícula, a crescer devagar, a paragem do trólei, o encontro… como se isso pudesse decidir o resto do dia.

Levantei-me sem pressa. Não havia motivo para correr. Ainda não.

A minha mãe olhou-me de lado, a ver se a febre de ontem já tinha passado. Não disse nada, só aquele “até logo” curto. Ela sabe. Ou não sabe nada e sou eu que ponho o mundo inteiro nas palavras que ela diz para despachar o dia.

Desci a Quelha da Cuca. O Manel mora ali, mas os meus olhos procuravam outra esquina, mais acima, na Rua da Aldeia. Sentei-me no muro de pedra fria. As mãos guardadas nos bolsos para não tremerem. E de repente, o casaco dela a contornar o canto, o passo rápido que eu reconheceria entre mil. 

A Dila. 

Quando me viu, o rosto dela mudou, apressou-se.

— Bom dia, António.

Aquele sorriso. Parece que o mundo pára, ou que devia parar, mas os carros continuam a passar lá ao fundo.

— Bom dia, Dila.

Disse o nome dela devagar, a mastigar as letras, para ver se o momento não sumia no ar frio da manhã. Queria guardar isto. Se calhar já o estava a perder enquanto o vivia.

— Então? Já estás bom?

— Se não estava, agora que estás aqui estou de certeza.

Ela sorriu, olhou para o chão, depois para mim.

— Estás sempre a brincar.

— Não é brincadeira. Não brinco com as coisas do coração.

Disse isto e arrependi-me. Soa a livro, soa a falso, e no entanto é a verdade mais crua que tenho para dar. Caminhámos para a paragem, o tempo a fingir que corria a nosso favor. Falámos de coisas sem importância, do liceu, do frio, de nós… mas sem dizer nada. Dizer para quê? As mãos quase a tocar-se, o espaço entre os nossos corpos cheio do vapor da respiração e de coisas que o peito aperta e não deixa sair. Uma proximidade que é um muro. Eu queria mais, queria o avesso desta distância, mas o medo de falhar, de que ela se afaste… Sacudi a cabeça. Às vezes o pensamento é um traidor.

O trólei vinha cheio. No solavanco da rua, o corpo dela bateu no meu. O cheiro do cabelo dela, tão perto. Um embate suave, o calor do braço dela contra o meu casaco, e nós a sorrir, como se a culpa fosse só da estrada estragada, daquela inocência que nos impõem e que nós aceitamos porque não sabemos fazer de outro modo.

Depois, à porta do liceu dela, o chão fugiu.

— Já não almoço na cantina, António. Não voltamos juntos no trólei.

Um murro. Não, não foi um murro, foi um esvaziamento. O ar faltou-me, a rua mais cinzenta. Ficámos ali a dizer que era pena, que as circunstâncias, essas palavras vazias que se usam para tapar os buracos que a vida faz.

A manhã cresceu lá fora, o Sol ficou alto, mas eu… eu fui ficando cada vez mais pequeno, encolhido dentro do casaco. As aulas começaram, os professores a falar de coisas distantes, uma teia de rotinas para me prender àquela sala sombria. O que é que eu estou aqui a fazer? Almocei sozinho na cantina. O barulho dos talheres, a sopa morna, o trólei de regresso vazio, o lugar ao meu lado vazio.

A tarde apanhou-me em casa, desarmado. Olho para o quarto e não me reconheço nas minhas próprias coisas. Tanto para estudar, testes de História e de Matemática à porta, as fórmulas que é preciso meter na cabeça para esquecer o resto. Estúpido. É preciso encostar o coração a um canto porque o futuro não espera pelas nossas tontices.

A noite entrou sem se anunciar, o escuro a lamber os cantos do quarto. Estou cansado. Um cansaço que vem de dentro dos ossos, do esforço de parecer normal quando tudo cá dentro cambaleia. Amanhã… amanhã desço a Quelha outra vez, mas o trólei já não vai balançar da mesma maneira.


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