O dia em que o coração chegou antes do corpo

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Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 1977

Benditas segundas-feiras, penso eu, como se isso me salvasse de qualquer coisa que ficou para trás no fim de semana. Não quero lembrar. Não quero mesmo. E no entanto lembro, às vezes, sem querer.

Acordei com uma espécie de pressa dentro de mim, como se alguém me tivesse chamado sem dizer o meu nome. Energia a mais. Até me pareceu estranho a mim. Estava eléctrico, sim, mas isso não explica nada.

Pequeno-almoço feito à pressa. Livros debaixo do braço. E eu a tentar que os pés acompanhassem o coração, que já ia à frente, disparado, para a paragem do trólei.

A Dila não estava.

Fiquei ali, como quem não desiste de uma coisa que ainda não aconteceu. As pessoas iam chegando, enchendo os tróleis, indo embora dentro deles como se fosse natural desaparecer assim todas as manhãs. Eu fiquei. À espera de um sorriso que, quando não vem, muda tudo sem fazer ruído.

O tempo passou devagar demais. Ou rápido demais. Não sei. Comecei a pensar que algo tinha acontecido. Doente? Alguma coisa pior? E esse pensamento ficou ali, preso, sem saída.

Veio o último trólei. Aquele que me deixava a horas no destino.

Fiquei no fim, como se isso pudesse atrasar o inevitável. Entrei. Fiquei junto à entrada. Caso ela aparecesse eu gritava ao motorista para parar tudo. Ridículo talvez. Mas não me importei. Ela não apareceu.

E foi aí que a energia da manhã começou a fugir de mim, como água por entre os dedos. Ficou outra coisa no lugar. Uma inquietação profunda.

O trólei avançava aos solavancos. Gente apertada. Empurrões. Conversas soltas. Um mundo inteiro dentro daquele metal cansado que vai levando todos para algum lado.

Cheguei a horas às aulas.

Passei pelas disciplinas sem ficar em nenhuma. Ciências no laboratório. Música no anfiteatro. Educação física no ginásio. Matemática numa sala fria demais. Eu estive lá. Mas não estive.

À hora de almoço, a fila era longa demais para esperar. E eu não esperei. Não comi. Fui andando. Direcção ao liceu dela.

E esperei pouco.

Ela apareceu.

Sorridente.

E eu senti qualquer coisa a ceder por dentro.

— Fico feliz por te ver bem — disse-lhe.

Ela pediu desculpa. Não veio de manhã. A mãe quis que fosse com ela. Para o Porto. Depois foram para a Covilhã apanhar o trólei.

Covilhã.

Fiz que sim. Disse que fizeste bem. Mas por dentro havia outra coisa a mexer-se, sem ordem nenhuma.

— Deixaste-me preocupado. Pensei o pior.

Ela respondeu qualquer coisa leve. O pior seria a mãe nos encontrar juntos.

Sim… sim.

E nesse momento senti. Uma dor. Súbita. Pequena no início. Depois não tão pequena.

Ela reparou.

— O que tens?

— Nada… uma dor de cabeça.

Mentira meio verdadeira. Ou verdade mal dita.

Entrámos no trólei. Havia lugares. Sentámo-nos juntos. Dei-lhe o lugar da janela, como sempre. Sentei-me pesado. Mais pesado do que devia.

A dor crescia devagar. Insistia.

Fechei os olhos. O balanço do trólei ajudava e atrapalhava ao mesmo tempo. Não sei. Acho que adormeci um pouco. Ou quase.

Quando abri os olhos, ela olhava para mim.

Demasiado atenta.

— Não estás melhor, pois não?

Quis ser forte.

— Já me estou a sentir melhor.

Mas o corpo não acreditou na frase.

Quando chegámos, levantei-me e cambaleei. Senti a mão dela a puxar-me para trás.

— Ias caindo. Não estás nada melhor. Vamos directos a tua casa.

Quis discutir. Pouco. Só o suficiente para não parecer fraco. Mas não deu.

Fui.

Subi a rua devagar. Como se cada degrau tivesse uma opinião sobre mim.

Chegados a minha casa, ela disse-me para me deitar. Para comer qualquer coisa. Eu não tinha almoçado. Ficou à espera que eu entrasse. Depois foi-se embora.

A minha mãe olhou-me. Esse olhar dela que já sabe antes de perguntar. Mandou-me sentar. Fez comida depressa. Generosa. Como se isso resolvesse o mundo.

E talvez tenha resolvido um pouco.

As dores passaram. Ou esconderam-se.

Fome, disse ela.

Talvez fosse isso.

Fui para o quarto. Deitei-me por cima da roupa. O corpo finalmente a admitir o cansaço.

Adormeci sem aviso.

Quando acordei, já era noite.

Sem dor. Só alguma tontura, leve, como resíduo.

A minha mãe fez o jantar. Bom demais para eu resistir a ficar quieto.

Voltei ao quarto arrastando-me. Pijama vestido. Diário aberto.

Escrevi isto tudo, ou quase.

E agora fico só com uma ideia que não sei bem onde pôr:

amanhã… que ela esteja lá.


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