O Que Fica Quando Não Estás

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Domingo, 13 de Fevereiro de 1977

Acordei com as sombras da figueira a mexerem-se nas paredes. Não era bem luz, não era bem sombra, qualquer coisa entre as duas, como se o quarto ainda não tivesse decidido acordar. Fiquei a olhar, sem perceber logo o que estava a ver. Ainda vinha de dentro de um sonho que não quis ficar.

A cabeça latejava. Aqui atrás, na nuca. Não era sonho nenhum.

Olhei para o relógio. Já era tarde. O dia começado sem mim… ou fui eu que não quis começar com ele. Virei-me. Fechei os olhos outra vez. Como se desse para voltar atrás. Não deu.

Hoje não a vou ver.

Nem sequer posso passar por lá, fingir que… não. Não estão. A casa vazia. É estranho como uma casa vazia pesa mais.

Tentei dormir. Forçar. Como se o corpo obedecesse assim. Não obedece. Levantei-me sem vontade, com aquela irritação que não é bem com ninguém… mas também não é só comigo.

Levei um livro para o quintal. O frio ainda estava no chão, mas o sol já começava a empurrá-lo devagar. A horta da minha mãe soltava aquele vapor baixo, quase a roçar os pés. Passei por ele. Parecia que andava por cima de qualquer coisa que não era terra.

Sentei-me no banco velho, encostado à laranjeira. Dali vê-se a serra. E os tróleis a subir e a descer, sempre com gente, para a missa, da missa. Sempre alguém a ir ou a voltar. Nunca parados.

Fiquei ali. O livro aberto. Não li.

A cabeça voltou ao sítio onde tinha ficado ontem à noite. Como um fio que não se partiu, só ficou à espera. E eu… disse a mim próprio que não. Que não ia outra vez por ali. Que não ia inventar coisas que ainda não aconteceram. Que talvez nem…

Senti um alívio. Pequeno, mas senti.

Almocei. Voltei para o quarto. Liguei o rádio, baixo, só para não estar tudo em silêncio. Arrumei livros. Abri o de História. Vi os sumários. Há teste. Não estudei nada. Fechei.

A tarde avançou sem dar por ela. Peguei outra vez no livro. Li duas, três páginas. Não ficaram. Nada ficava. A música também não ajudava. Ou talvez fosse eu que…

Arrumei mais coisas. As mãos ocupadas, dizem que ajuda. Não ajudou.

Fui para a sala. Um filme na televisão. Deitei-me no sofá. Olhei. As imagens passavam. Só isso. Não entravam. Era como se houvesse um vidro… eu de um lado, tudo do outro.

Voltei para o quarto.

Nem sei bem para quê.

Peguei nos diários. Fui folheando. Um atrás do outro. Como se estivesse à procura de qualquer coisa que justificasse este dia. Como se tivesse de haver uma razão.

E havia.

A tua fotografia.

Tirei-a com cuidado. Sempre com cuidado. Como se o papel pudesse partir-se. Fiquei com ela na mão. Fria.

Passei o dedo pelo teu rosto, não sei porquê. Não dá para sentir nada. E no entanto…

Um arrepio.

Fiquei a olhar. Preto e branco. E mesmo assim… vi-te. Não sei explicar. Não é ver como se vê uma coisa. É outra coisa. Ouvi a tua voz, ou achei que ouvi. A dizer o meu nome. Devagar. Como dizes.

E o teu sorriso… não estava ali, mas estava.

Não sei.

Durante o dia inteiro não encontrei nada que me segurasse. Nada. E agora isto. Um pedaço de papel.

Talvez seja suficiente.

Ou talvez seja só isto que há.


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