Onde o Infinito se Prende a Ti

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Sábado, 12 de Fevereiro de 1977

Mais um dia caído na rotina… ou talvez não. Talvez seja só isso que digo para não admitir o resto. Hoje não sinto inspiração para escrever. Ou então sinto demais e não sei por onde começar. Esta semana bateu no fundo, ficou lá, a arrastar-se, e eu com ela.

As perspectivas de sair do país não me largam. Não são ideias, são como mãos a empurrar-me. E tudo o resto, tudo o que me faz existir, vai ficando para trás, encostado, como se já não tivesse lugar.

Desculpa, Dila… hoje não estive lá. Estive ao teu lado, vi-te, ouvi-te… mas não estive. E isso é pior do que não ter ido.

De manhã estavas linda. Estás sempre, mas hoje doeu mais ver-te assim. O teu sorriso apareceu como sempre, tão natural… e eu ali, a tentar agarrar qualquer coisa que não se perdesse. Os teus olhos… não sei… há neles qualquer coisa que me prende e me acalma e, ao mesmo tempo, me faz ter medo. Como se eu soubesse que um dia vou deixar de os ver assim, tão perto.

Quando estás, o mundo ainda se segura. Há uma espécie de ordem, mesmo que frágil. Quando não estás… não sei bem o que sobra. Não te digo, porque nem eu quero saber ao certo.

Hoje não consigo escrever sobre o que foi estar contigo. Não consigo chegar lá sem que tudo o resto venha atrás. Passei o dia cheio de pensamentos que não quero. Não são pensamentos, são antecipações. Coisas que ainda não aconteceram e já me estão a doer.

Falei-te em fugir. Disse-o sem pensar… ou talvez tenha pensado demais. Foi como agarrar uma saída que não existe. Porque fugir só faria sentido contigo. E mesmo isso… mesmo isso… não sei se te podia pedir uma coisa dessas. Não sei sequer se teria coragem de te ouvir dizer que não.

Sair de S. Pedro. Ir para longe. Nunca mais te ver. Isto repete-se dentro de mim como se já estivesse decidido. Como se não dependesse de mim. E eu aqui, a tentar imaginar uma vida onde tu não entras e não consigo. Não é que não queira. É que não consigo mesmo.

Escrever isto… está a tornar tudo mais real. Talvez fosse melhor ficar calado. Mas calar também não resolve nada.

Se tudo falhar…
Se não houver maneira de ficar…
Se tiver mesmo de partir…

Não sei. Não sei o que fica de mim depois disso.

Não consigo continuar.

Talvez amanhã… talvez amanhã isto abrande. Ou talvez não.

Fico com a tua fotografia. Seguro-a contra o peito… e, por um instante, quase parece que ainda estás aqui.


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