O Peso da Ausência e o Raio de Sol
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Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 1977
Voltei a acordar com um amargo na boca e um aperto no coração. O meu espírito amanheceu cinzento como o tempo lá fora. Arrumei automáticamente os livros na pasta, vesti-me sem foco e saí para a rua, que me acolheu numa ventania agreste, daquelas que fazem anunciar a chuva miúda.
Fui rua abaixo. Os pés sabiam o caminho e seguiram adiante, mecanizados, enquanto a minha cabeça rodopiava num burburinho de vozes que não se calavam.
Lá estava a Dila na paragem. Esperava-me. Sorriu sem muita convicção e, quando me aproximei, os seus lindos olhos sondaram-me, como que à procura de algum vestígio que explicasse o meu semblante fechado.
— Hoje não sou teu raio de Sol? — perguntou, na tentativa de me arrancar uma palavra, ou pelo menos um esgar de sorriso. Resultou.
— Olá, Dila. Estava com a cabeça noutro lado. Desculpa.
— Ainda a mesma questão de ontem? — perguntou, a voz caindo um tom.
— Sim. Os meus pais ontem à noite não se calavam. Parecia que o mundo vai acabar se não formos.
— Então… já estão decididos?
— É o que parece…
Ficámos silenciosos por um momento, asfixiados pelo que não sabíamos dizer. A chegada ruidosa do trólei, com o chiar característico das hastes nos cabos electricos, permitiu que respirássemos de novo. Já sentados lado a lado no primeiro piso, sentindo a vibração do trólei no peito, continuei:
— E eu também já tomei uma decisão…
Ela abriu os olhos desmesuradamente e perguntou com receio:
— Não vais fazer nenhuma asneira, pois não?
— Claro que não. Não me esqueci do que te prometi.
— Então em que é que estás a pensar? — perguntou a medo.
— Não posso ir… e deixar-te ficar aqui — comecei por dizer, ganhando coragem no som das minhas próprias palavras. — Vou dizer aos meus pais que quero ficar para acabar o liceu. Vou falar com a minha avó a ver se posso ficar em casa dela.
— Achas que eles vão aceitar? — perguntou ansiosa, os dedos apertando a alça da pasta.
— Vou tentar convencê-los. Se não conseguir, procurarei outras acções, outras soluções. Não quero sair de S. Pedro.
Ela olhou para mim sem saber como me ajudar ou confortar.
— Espero que consigas convencer os teus pais a deixar-te ficar. Seria bom… — Deixou no ar uma esperança ténue, um fio de prumo onde me agarrar.
— Eu também…
Chegámos ao liceu e uma multidão de alunos amontoava-se no exterior, num alvoroço de casacos escuros e fumo de cigarros. Diziam haver uma greve de professores. Do nada, surgiu a Gizela, rompendo o nosso compasso de espera.
— Dila! Já soubeste? Os professores estão em greve e só alguns vão dar aulas. Não vamos ter os dois primeiros tempos! — disse, semi-ofegante.
— A sério? — dissemos os dois ao mesmo tempo.
Adivinhei ali uma excelente oportunidade para darmos um passeio. Pedi à Dila que me esperasse e corri para o meu liceu, os sapatos a bater no paralelo húmido. Os meus professores iam faltar todos. Corri de volta com a novidade, o coração a galopar de contentamento.
— Também não tenho aulas toda a manhã. O que queres fazer? — perguntei à Dila.
Ela não teve tempo de responder. A Gizela antecipou-se, intrometendo-se com a sua vivacidade habitual:
— Vamos até à Ribeira!
Olhámos um para o outro, inquirindo com o olhar o que haveríamos de fazer. Não foi preciso decidir nada, a Gizela já tinha tudo planeado.
— Não pensem que vos vou deixar sozinhos a andar por aí. Vou com vocês. Tenho de proteger a minha ama — concluiu com um sorriso matreiro.
— Não vamos à Ribeira, fica longe e só temos duas horas. Por isso, vamos andar por aqui, respondeu firmemente a Dila, e assim marcou a sua posição de ama e senhora.
Adorei a sua postura. A forma brilhante como pusera a Gizela no seu lugar mostrou uma personalidade bem vincada, uma força que me fascina. Seguimos em direcção ao Jardim das Águas, mas os portões de ferro estavam fechados. Continuámos em frente até à rua da China, onde nos sentámos a ver os comboios passar, o fumo das automotoras a misturar-se com o cinzento do céu.
Não houve nenhum momento de privacidade em que pudéssemos estar sozinhos. Aquele furacão chamado Gizela passou todo o tempo a rodopiar entre nós, quebrando qualquer tentativa de intimidade, e assim continuou até voltarmos para o liceu.
Depois do almoço, fui ao encontro da Dila, que vinha apressada rua acima.
— O que foi? Onde vais com tanta pressa? — perguntei, encurtando o passo para a acompanhar.
— Anda, que é para o teu bem. - respondeu
Entrámos no trólei que acabara de chegar à paragem e só então, ao sentar-se, ela pareceu descontrair os ombros.
— Podes explicar-me agora o motivo da correria?
Ela respondeu com um sorriso rasgado e uma expressão brincalhona que lhe iluminou o rosto:
— Saí primeiro do que a Gizela, que se atrasou a falar com uma colega… — Fez uma pausa, os olhos fixos nos meus, para avaliar a minha expressão.
— Fizeste isso por… nós? — Ia dizer por mim, mas preferi não arriscar a fragilidade do momento.
— Sim. Ela é muito engraçada, mas hoje estava impossível.
— Pois foi. Podíamos ter aproveitado mais… — Parei abruptamente quando me apercebi que a deixara embaraçada, as faces levemente rosadas, e por isso corrigi: — Podíamos ter aproveitado para irmos para qualquer outro lugar que quisesses.
Ela sorriu, parecendo aliviada. Teria tocado em algum ponto mais sensível da Dila? Eu não queria sequer sugerir algo menos próprio na nossa saída. Respeito muito a nossa amizade e por nada deste mundo a poria em risco. Ainda me lembro das suas palavras que me ficaram gravadas profundamente no peito: “Sê paciente”, disse-me ela um dia. Por isso mesmo, eu serei a contenção em pessoa, esperarei o tempo todo necessário até que ela diga o oposto.
Chegados a S. Pedro, acompanhei-a até àquele momento exacto em que nos despedimos com um aperto de mão e um “até amanhã” que sabe a pouco.
A tarde abriu-se depois sem o brilho que a manhã me trouxera na forma daquele raio de Sol. Não houve história, apenas rotina. Fui para o CRM, que estava calmo, sem vivalma por perto. Aproveitei a quietude para pôr em ordem algumas fichas desorganizadas, mas o meu pensamento recusava-se a focar as linhas do papel. Aquele sorriso matreiro que ela me dera no trólei ainda estava impresso na minha mente. Não se despegava. Nem eu deixei que se dissolvesse. Abracei-o em pensamento, já que as minhas mãos não podiam fazer o mesmo à dona dos meus afectos.
A noite caiu, pesada e fria. Cumpridos os rituais familiares à mesa — o tilintar dos talheres, as conversas abafadas sobre o futuro e a viagem —, recolhi-me ao meu quarto, para a solidão da minha escrita. Peguei na tua foto entre os meus dedos frios. Acariciei a textura do papel, a linha da tua face, fechei os olhos e imaginei, por um segundo eterno, que estavas aqui ao meu lado, ouvindo a chuva bater no vidro da janela. Encostei o retrato ao peito, sentindo o calor do meu próprio coração contra a imagem, e num gesto que imitava um abraço, agradeci em silêncio o quanto me deste neste dia, adormecendo com o teu contorno colado ao meu peito, onde a saudade já começa a fazer morada.
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