O Vidro Esbatido
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Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 1977
O dia amanheceu sem vontade. Cinzento. O vento batia nas persianas com uma insistência nervosa, como se quisesse entrar à força. Levantei-me devagar e fui até à janela. O vidro devolveu-me um rosto que não era bem o meu, desfocado pela humidade, cansado antes de começar o dia.
A noite não me largara. Vieram-me sonhos aos pedaços, todos atravessados pela conversa de ontem ao jantar. A voz do meu pai, firme, como quem já decidiu e só está à espera que os outros aceitem.
Saí de casa quase sem dar por isso. A minha mãe ainda disse qualquer coisa da cozinha, o pequeno-almoço, suponho, mas não fiquei. Não me cabia nada no estômago.
O caminho até à paragem foi curto demais para ordenar os pensamentos.
A Dila já lá estava.
Assim que me viu, sorriu. Um sorriso aberto, sem defesa. Mas durou pouco. Caiu-lhe dos lábios quando percebeu.
— Olá, António. Estás com uma cara… Aconteceu alguma coisa?
Olhei em volta. Para o chão. Para o vazio. Como se a resposta estivesse noutro lado qualquer. Não consegui falar. Nem uma palavra.
— Estás a deixar-me preocupada — disse, mais baixa agora. — Eu fiz alguma coisa?...
Aquilo puxou-me de volta.
— Não. Não é nada disso. Eu conto-te.
O trólei chegou nesse instante, como se me tivesse vindo salvar ou condenar, ainda não sei. Entrámos. Sentámo-nos lado a lado. Ela virou-se logo para mim.
— Então?
Passei a língua pelos lábios. Secos.
— Ontem à noite… os meus pais falaram da situação do país. O meu pai está com medo de perder o emprego.
Fiz uma pausa. Senti o peso da frase seguinte antes de a dizer.
— Ele acha que a solução é voltar para Angola… ou ir para Moçambique.
Outro silêncio. Mais fundo.
— E quer levar-nos com ele.
Ficou ali, entre nós. Suspensa. Como se ninguém a quisesse agarrar.
A Dila piscou os olhos, devagar.
— Estás a dizer que vais para Angola?
— É o que ele quer.
Ela endireitou-se ligeiramente. Vi-lhe o esforço no rosto a tentar manter-se firme, como se não pudesse desabar ali.
— Pode ser só uma ideia. Ele depois pensa melhor…
Abanei a cabeça.
— Não me parece. Aquilo… já vinha decidido.
— A sério?
— Antes do 25 de Abril ele já lá esteve sozinho. Podia fazer o mesmo agora.
Soou-me fraco, até a mim.
Ela não respondeu logo. Ficou a olhar para mim, mas havia ali qualquer coisa por trás, uma conta feita em silêncio, uma espécie de medo que não era só meu.
— Não sei o que te diga…
Senti o peito apertar.
— Se ele insistir… eu fujo de casa.
Disse-o alto demais. Senti logo os olhares à volta. Mas já não conseguia voltar atrás.
Foi então que ela me tocou no braço.
Leve. Firme.
Aproximou-se um pouco, só o suficiente para ninguém ouvir.
— Não digas isso, António… — murmurou. — Não fales assim. Tu não vais fugir. Estás só assustado.
A voz dela não tremia. A minha é que tremia por dentro.
— O teu pai está com medo, só isso. Tens de ter calma. Não ganhas nada em ir contra ele assim… Olha para mim.
Olhei.
E, por um instante, o mundo deixou de fazer tanto barulho.
Havia ali qualquer coisa nos olhos dela, não sei se era medo de me perder, se era outra coisa que não se podia dizer. Talvez as duas.
Respirei fundo.
Não passou. Mas acalmou.
Quando saímos no Bonfim, acompanhei-a até ao liceu. Andámos lado a lado, sem pressa. Sem palavras que fizessem diferença. Despedimo-nos com uma promessa leve, encontrarmo-nos depois.
As aulas passaram por mim como vento em rua vazia. Não fiquei com nada.
Quando saí, ela já lá estava.
À minha espera.
Vi-a antes de ela me ver. Estava quieta. Demasiado quieta. Como quem guarda qualquer coisa.
Quando me aproximei, sorriu, mas com cuidado, como se o meu estado fosse vidro fino.
Voltámos juntos. Sentados lado a lado, outra vez. Sem falar.
A certa altura, encostou o ombro ao meu.
Nada mais.
Mas chegou.
Durante o resto do caminho, fui sentindo o corpo voltar devagar. Como depois de uma febre.
Quando descemos, já conseguia respirar melhor.
— Já estou melhor — disse-lhe.
Ela assentiu. Não fez perguntas. Percebeu.
Falámos de coisas pequenas até ao sítio do costume. Coisas que não importavam. E ainda bem.
Antes de seguir rua acima, virou-se para mim.
— António… promete-me que não fazes nenhuma asneira.
Havia ali qualquer coisa mais fundo do que o pedido. Quase um medo que ela não podia explicar.
— Prometo — disse. — Foi só… falar.
Hesitei um segundo.
— E… gosto de saber que te preocupas.
Ela não respondeu logo. Apenas me deu a mão.
Fria.
Ficámos assim tempo a mais. Ou tempo nenhum.
Depois largou.
A tarde passou por mim sem deixar rasto. Fiquei no quarto, deitado, a ouvir o vento. A inventar soluções que não dependiam de mim.
No fim, não inventei nenhuma.
Talvez crescer seja isto, perceber que há decisões que nos atravessam como o vento nas persianas. Não entram. Não se discutem.
E eu fiquei ali, do outro lado do vidro, a ver a minha vida desfocada… sem saber bem quando é que ela deixou de me obedecer.
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