Ecos de Ontem

Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 1977

Não sei por onde começar a escrever este dia. Há dias assim, sem inspiração que me empurram para a pregu… Não! Não vou utilizar esta palavra nunca mais, erradiquei-a do meu dicionário.

Nunca tinha percebido o poder das palavras. Umas vezes empurram-nos para diante, outras vezes derrubam-nos de forma letal. Vou passar a ser mais selectivo com as palavras, não me vou permitir cometer erros por ignorância ou insensibilidade.

A noite não foi pacífica. O dia de ontem deixou uma impressão muito forte em mim. A intensidade da conversa com a Dila fez-me ver quão frágeis podem ser as relações entre duas pessoas. Verdadeiramente nunca nos chegamos a conhecer por completo.

Ela fez-me ver que consegue ser mais sensível e adulta do que eu, apesar de não passarmos de dois adolescentes que estão a aprender a conquistar o seu lugar no coração, um do outro.

Ontem, surpreendi-me a mim mesmo pela forma como senti o quanto doeu aquela sensação de perda. Já a havia perdido uma vez e foram momentos muito dolorosos. Só a possibilidade de isso voltar a acontecer, ameaçou fazer ruir todo o sentido de existir.

Também descobri a humildade do reconhecimento do erro e não calei o perdão libertador. Ela foi magnânimo em me libertar das grilhetas que eu colocara em mim mesmo.

A noite trouxe-me todas estas reflexões. Cansou-me. Mas libertou-me.

De manhã o peso na cabeça era aligeirado pela leveza do meu espírito. Sorri ao acordar. Senti-me feliz e grato por poder voltar a estar com ela.

Levantei-me animado. Até fui cantarolando enquanto preparava os livros. Depois do pequeno almoço saí ligeiro, sem pressa. Ainda era cedo. Quis usufruir do ar fresco da manhã e ao mesmo tempo ir ao encontro da Dila a meio do caminho. Esperei não muito tempo quando a vi descer a rua. Escondi-me na quelha e quando passou cheguei a ela por trás.

- Bom dia alegria. Onde vais assim tão ligeira? - perguntei aparecendo de surpresa

- Ah?... - disse encolhendo-se, mas depois de me ver deu-me o seu melhor sorriso - Só tu mesmo para apareceres do nada.

- Do nada não. Já te esperava há um bom par de minutos.

- Longa espera então. O que te deu para vires ao meu encontro?

- Saudades, apenas isso.

Saudades? Íamos ver-nos de qualquer maneira daqui a dez minutos.

- Vês? Estás a dar-me razão. Eu tinha saudades desses dez minutos que vou ter a mais contigo.

Ela olhou para mim a pensar na réplica que me iria dar e encontrou-a, embrulhada num sorriso lindo que me desarma sempre.

- Agora reparo que estás muito bem disposto. Significa que dormiste bem. - afirmou mudando de assunto.

- Quando estou contigo, tenho sempre razões para estar bem disposto. Mas não, não dormi bem.

- Não? Então… - ia começar a dizer, mas interrompi-a saltitando à sua volta.

- Não dormi bem, mas sinto-me leve como uma pena.

- Queres explicar melhor? Não estou a entender.

- Eu explico - respondi

- A nossa conversa de ontem deu-me um novo alento. Começo a compreender-te melhor e até em mim mesmo, apercebo-me de mudanças que me estavam a passar ao lado.

- A sério? - pergunta ela mostrando-se interessada no assunto e continuou - De que forma me está a compreender melhor?

- Sempre olhei para ti da mesma forma que olho para mim e isso foi um erro. Sempre achei que pensávamos o mesmo sobre qualquer assunto mesmo havendo diferenças. Mas não. As mulheres são muito mais… complexas… - disse a medo, mas completei - no bom sentido. Claro.

- Apercebi-me também que a tua perspectiva das coisas é mais racional. As emoções para ti são algo que não partilhas com facilidade. Ainda não te sentes à vontade. E eu entendo o porquê.

- Não dormi bem porque foi todo este manancial de pensamentos que sobre-povoou a minha mente. Se por um lado me manteve desperto, por outro mostrou-me a realidade. E isso foi bom.

- Percebes agora porque me sinto leve… e feliz também?

- Aquilo que percebo é que vocês rapazes são muito complicados. - Disse sorrindo.

Entretanto chegou o trólei e seguimos viagem até ao Porto. Conversamos de forma ligeira sem constrangimentos sobre tudo um pouco. Percebi que algo havia mudado na nossa relação e isso fazia sentir-me bem.

A manhã seguiu sem pressa. Comecei por observar os meus colegas de forma diferente, não me revia na forma infantil como agiam uns com os outros. Será isto crescer?

Se a noite foi pródiga em aconselhamentos, a tarde não foi menos. Sinto cada vez mais que as nossas conversas têm mais sentido e parece encaminharem-nos para um destino comum. 

À tarde, recolhi-me no quarto. Estudei História e Matemática, mudei os cadernos de sítio, deitei fora os papéis inúteis e limpei o pó da secretária. A minha mãe passou pelo corredor, os chinelos a arrastarem-se no soalho encerado. Parou à porta, olhou para a mesa arrumada e limitou-se a fazer um leve aceno com a cabeça antes de continuar o seu caminho em silêncio. Não disse uma palavra, mas aquele gesto bastou. Era o reconhecimento de que já não sou o miúdo que precisa de ordens para se governar. Uma nesga de autonomia que me soube bem.

Agora, a noite trouxe o frio e o sossego das ruas. Só se ouve o bico da esferográfica a arranhar o papel sob a luz amarela do candeeiro de mesa. Fica o quarto na penumbra, o peito ainda meio suspenso, sem saber se o amanhã trará a calmaria ou o regresso do vento que tudo desarruma.



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